A história de Papai Noel: da tradição cristã a ícone do consumo

Papai Noel não é uma invenção moderna e nem uma criação da Coca-Cola, como muitos pensam. Nem mesmo o costume de trocar presentes é coisa de nosso tempo. Trata-se, na verdade, de uma tradição cristã muito antiga que remonta ao século III d.C. Ao longo dos tempos, a tradição sofreu muitas mudanças e foi no século XIX que Papai Noel começou a ganhar as características com as quais é representado hoje. De um bispo magrinho e disciplinador da Ásia Menor ele se tornou um velho rechonchudo de rosto vermelho, jovial e generoso com seu inconfundível ho-ho-ho.


Como tudo começou: séc. IV, Ásia Menor


Nicolas ou Nicolau nasceu na cidade de Patara, na Ásia Menor (Turquia atual) por volta de 270-280, momento em que o cristianismo se expandia e sofria a implacável perseguição romana. Era de família rica mas teria gastado todos os seus bens para ajudar os doentes, especialmente aqueles acometidos por pestes tão comuns na região naquela época. Ainda jovem, no início do século IV, Nicolas foi nomeado bispo de Myra e por isso suas mais antigas representações o mostram usando os trajes de bispo, portando o báculo e a mitra. Nicolas continuou sua obra de caridade, mas sempre anonimamente. Teria ajudado três jovens mulheres muito pobres colocando dinheiro em seus sapatos deixados à frente ao fogo da lareira para secarem. Daí teria surgido o costume de pendurar meias ou sapatos junto à lareira esperando que um presente seja deixado ali.

São Nicolau, patrono dos mercadores na Rússia. Afresco do século XIV, Monastério Ferapontov, Rússia

Nicolas de Myra foi preso e morto por decapitação pelos romanos em 6 de dezembro de 343. Foi canonizado pela Igreja e a data de sua morte tornou-se o dia de São Nicolas ou São Nicolau. Atualmente, em muitos países europeus, 6 de dezembro é o dia de distribuir presentes para as crianças.


O culto a São Nicolau se expande


No século XI, soldados italianos roubaram os restos mortais de São Nicolau levando-os para Bari, na Itália, como “medida de proteção” contra os turcos que, então, se expandiam pela Ásia Menor. As relíquias foram colocadas com grandes honras na catedral de Bari em 9 de maio de 1087. O culto ao santo expandiu-se para a França, Bélgica, Holanda, Alemanha e Suíça assim como o costume das crianças deixarem meias e sapatos na noite de 5 para 6 de dezembro na lareira ou na porta da frente.

“A festa de São Nicolau” do holandês Jan Steen (1666) é uma das primeiras ilustrações da distribuição de presentes, com a família reunida em torno de crianças.

A comemoração tinha, então, um caráter disciplinador e punitivo: só as crianças boas e obedientes recebiam presentes que eram nozes, avelãs, maçãs ou pão de gengibre. As desobedientes, mentirosas e más cristãs recebiam chicotadas dadas por uma figura assustadora: um leproso vestido de preto.


Em Portugal, São Nicolau tornou-se padroeiro dos estudantes de Guimarães que, em sua homenagem celebram, desde o século XVII, as Festas Nicolinas. É uma das mais antigas celebrações acadêmicas do mundo, tendo início no dia 29 de Novembro e culminando no dia 6 de Dezembro.


São Nicolau se transforma em Papai Noel


No século XVI, o Protestantismo aboliu o culto de São Nicolau em muitas partes do norte da Europa por considerá-lo uma devoção católica. No entanto, protestantes dos Países Baixos decidiram manter a tradição de Sint Nikolaas ou Sinter Klaas, como o santo era chamado em flamengo. “A festa de São Nicolau” do holandês Jan Steen (1666) é uma das primeiras ilustrações da distribuição de presentes, com a família reunida em torno de crianças. No século XVII, o culto a Sinter Klaas acompanhou os holandeses que emigraram para a América onde fundaram Nova Amsterdã, renomeada Nova York, em 1664. Em poucas décadas, o costume holandês de celebrar Sinter Klaas espalhou-se entre os colonos ingleses que chamavam o santo de Saint Claus.


Ao longo das décadas, as famílias cristãs acharam mais adequado associar a celebração de São Nicolau ao nascimento de Jesus e transferiram a data do santo da noite de 5 para 24 de dezembro. São Nicolau, Sinter Klaas ou Saint Claus torna-se, então, Papai Noel, termo oriundo do francês Noël que significa Natal. Em Portugal, ele é chamado de Pai Natal.


Papai Noel vira o bom velhinho no século XIX


Foi no século XIX que Papai Noel passou pelas mudanças decisivas para chegar à forma como é representado hoje. A figura do bom velhinho, generoso e jovial, já estava, então, consolidada entre as crianças da Europa e dos Estados Unidos, como se observa nesse relato da romancista e memorialista francesa George Sand (1804-1876) lembrando de sua infância quando tinha 10 anos, em 1810.


“Eu acreditava piamente no Papai Noel, bom velhinho de barbas brancas, que à meia-noite descia pela chaminé da lareira para colocar no meu sapatinho um presente que eu encontraria ao acordar. (…) Que esforços incríveis eu fazia para não adormecer antes do aparecimento do velhinho! (…) No dia seguinte, a primeira coisa que ia olhar era meu sapato, na beirada da lareira. (…) Corria descalça para me apossar de meu tesouro. Nunca era nada de grandioso, pois não éramos ricos. Era um doce, uma laranja ou apenas uma linda maçã vermelha. Mas parecia tão precioso para mim que dificilmente ousava comê-lo.” George Sand, Histoire de Ma Vie, 1854-1855.


A propagação do costume dos presentes de Natal coincidiu com o surgimento da burguesia, que fez da data uma reunião festiva e familiar centrada nas crianças. De acordo com Rousseau (Emílio ou da Educação, 1762), a família construiu uma esfera privada na qual a criança era objeto de atenção. O presente recompensava o bom comportamento. Era, também, uma garantia do afeto dos pais pela sua prole.


Mas foram as lojas de departamento, surgidas em meados do século XIX, que transformaram a distribuição de presentes em uma prática comercial em larga escala, com grandes campanhas publicitárias. Bonecas, relógios, caixa de música, miniaturas de navios e trens… vendidos nessas “catedrais comerciais” revolucionaram os costumes.


Anúncios e catálogos incentivavam o consumo. No catálogo ilustrado da loja do Louvre, de 1882, eram oferecidos cerca de duzentos brinquedos: autômato jogando bandolim, burrinho, coelho saltador, jogo de luta, jogo de barril, máquina de costura para crianças… Os preços variavam de 3,50 francos a 38 francos por um carro mecânico.


No final do século XIX, o presente de Natal estava consolidado, e a figura de Papai Noel ganhara novos elementos e características.


As representações de São Nicolau variavam: um bispo jovem ou um velho com cabelos e barbas brancas e longas, mas sempre com um olhar bondoso e amigo das crianças. Foi em meados do século XIX, que a imagem de São Nicolau deixou de ser a do bispo católico para se tornar simplesmente Papai Noel.

Papai Noel representado com o trenó


Atribui-se ao escritor americano Washington Irving a criação do trenó. Em um conto publicado em 1812, ele mostra São Nicolau de Mira sobrevoando as copas das árvores em um vagão voador. Charles Dickens declarou, mais tarde, que Irving foi uma forte influência para suas obras relativas ao Natal, incluindo o clássico A Christmas Carol (“Um conto de Natal”), de 1843.


Papai Noel se desgruda do bispo São Nicolau


A contribuição seguinte foi o poema de Natal, A visit of St. Nicholas, publicado anonimamente em um jornal de Nova York, em 1823. O poema apresentava um São Nicolau diferente: mais gordo, sem báculo, usando um gorro no lugar da mitra, e com o trenó puxado por renas e não mais uma mula. Papai Noel não pune mais as crianças desobedientes mas distribui doces e presentes a todas elas.


O poema foi um enorme sucesso e logo recebeu novas edições ilustradas e foi vertido para vários idiomas. Hoje atribui-se sua autoria a Clement Clarke Moore, professor de literatura oriental e grega e também professor do Seminário Teológico da Igreja Episcopal Protestante, em Nova York.


Papai Noel na Guerra Civil, EUA


Em 1863, Thomas Nast, ilustrador e caricaturista americano do jornal New York Harper Illustrated Weekly, criou a imagem que consagrou o Papai Noel: vestido uma roupa vermelha contornada com pele branca, usando um largo cinto de couro, tem um trenó mágico que voa pelos céus levado por renas. Ele distribuía presentes a crianças e adultos.


A primeira imagem de Papai Noel criada por Nast não para promover uma loja mas para dar apoio moral ao exército da União durante a Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865). Sua roupa vermelha trazia estrelas e listras, e os presenteados eram os soldados da União.


O Papai Noel, de Thomas Nast, segura um presente especial para os soldados: uma marionete que se assemelha a Jefferson Davis, presidente dos Estados Confederados da América. Ele tem uma corda ao redor de seu pescoço, insinuando o linchamento de Jefferson Davis.

Nos anos seguinte, Thomas Nast criou centenas de ilustrações de Papai Noel fixando a imagem do personagem no inconsciente coletivo. Foi Nast, também, que, em 1885, inventou que Papai Noel morava no Polo Norte.


No início do século XX, a figura do Papai Noel estava quase finalizada, mas não havia concordância com as cores de seus trajes. Em um cartão postal de 1908, ele aparece vestindo gorro, luvas e casaco verde contornado com pele castanha. Papai Noel vestido de verde com a roupa guarnecida com pele; leva brinquedos, um saco de dinheiro e a Bíblia sagrada. Cartão de 1908.


Papai Noel vestido de verde com a roupa guarnecida com pele; leva brinquedos, um saco de dinheiro e a Bíblia sagrada. Cartão de 1908.

O Papai Noel da Coca-Cola


Em 1931, a Coca-Cola deu um novo e definitivo visual para Papai Noel. Convidou o ilustrador americano Haddon Sundblom para desenhar a imagem de sua campanha de Natal daquele ano. O objetivo era incentivar os consumidores a beber Coca-Cola no inverno. Desde 1920, a empresa usava a imagem de Papai Noel para promover o refrigerante. Um dos ilustradores que precederam Sundbom foi o renomado artista Norman Rockwell que, apesar de seus magníficos desenhos, não conseguiu obter sucesso publicitário.


O primeiro Papai Noel, da Coca-Cola, criado por Norman Rockwell na década de 1920, não fez o sucesso esperado.

O Papai Noel de Haddon Sundblom era bem diferente: tinha um aspecto inequivocamente humano, sobretudo nos traços do rosto, com bochechas vermelhas e um sorriso jovial. Sua barba e cabelos eram mais volumosos, anelados e de aparência macia, a roupa em vermelho vivo recebeu contornos de uma fofa pele branca. Enfim, um Papai Noel bonachão, alegre e acolhedor.


Sundblom teve a persistência ou a intuição de sempre desenhar a mesma figura em todas as campanhas da Coca-Cola por mais de trinta anos. Com isso, consolidou a imagem de Papai Noel que conhecemos hoje. O Papai Noel criado por Haddon Sundblom para a Coca-Cola, em 1931, foi um sucesso. Os desenhos continuaram sendo feitos todos os anos, até 1964.


O Papai Noel criado por Haddon Sundblom para a Coca-Cola, em 1931, foi um sucesso. Os desenhos continuaram sendo feitos todos os anos, até 1964.

Fonte: ensinarhistoria.com.br

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