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A morte de Karol Eller: o que ou quem foi responsável?


Segundo reportagens nos meios de comunicação, no início de setembro Karol Eller, influenciadora nas mídias sociais, havia participado de um “retiro para a cura gay” em uma igreja evangélica. Na ocasião, ela afirmou ter “renunciado à prática homossexual”, além de “vícios e desejos da carne”.


Na última quinta-feira (12), aos 36 anos, Karol foi encontrada morta, após ter publicado uma “carta de despedida” junto a cerca de 600 mil seguidores no seu Instagram, afirmando que havia “perdido a guerra”, em suposta referência à renúncia à prática homossexual. Entende-se que a morte de Karol ocorreu devido ao suicídio.


Pesquisa científica publicada em 2015 na revista Archives of Suicide Research, sobre conflito religioso, identidade sexual e comportamentos suicidas entre jovens LGBTI+, observou que a probabilidade de tentativa de suicídio entre essa população é duas vezes maior. Segundo o artigo, jovens adultos LGBTI+ que chegam à maturidade em contextos religiosos têm maiores probabilidades de pensamentos suicidas e, mais especificamente, de pensamentos suicidas crônicos, bem como de tentativa de suicídio, em comparação com outros jovens adultos LGBTI+.


A literatura científica e autores especializados no assunto também afirmam que os impactos da chamada “cura gay”, ou “terapia de conversão sexual”, ou, ainda “reversão da orientação sexual” – isto é, tentar transformar uma pessoa LGBTI+ em uma pessoa heterossexual – são muito negativos. Afetam a autoestima, aumentam a sensação de vergonha e culpa, provocam o isolamento social, ódio ou aversão de si, causam ansiedade, depressão e tentativas de suicídio. Este fenômeno também tem sido retratado em filmes baseados em histórias reais, como “Prayers para Bobby”, “The imitation game”, “Pray Away”, entre outros, nos quais os protagonistas – gays – acabaram tirando a própria vida.


Esses sintomas encontram uma explicação na teoria do estresse de minoria, que aborda a relação entre o preconceito (percebido, esperado ou internalizado) e seu efeito na saúde mental da pessoa. No caso de pessoas LGBTI+, especialistas no assunto apontam como fatores que causam estresse: a LGBTIfobia internalizada, ou não aceitação de si; o estigma presente na sociedade e a expectativa de sofrer rejeição por ser LGBTI+; o não assumir-se como LGBTI+ para as outras pessoas, guardando para si esse “segredo”; a discriminação e as violências sofridas por ser LGBTI+, entre outros fatores. As consequências se manifestam nas formas descritas no parágrafo anterior, inclusive uma delas sendo o suicídio.


Embora haja registros históricos de intervenções médicas, e até cirúrgicas, voltadas para a “cura gay” na Alemanha antes e durante o regime nazista, e em seguida nos Estados Unidos e no Reino Unido até os anos 1960, por exemplo, no contexto religioso, as “terapias de conversão” teriam surgido a partir da retirada em 1973 da homossexualidade como doença, do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria. Em 1976 foi fundado nos Estados Unidos o Exodus International, uma organização que se tornaria o maior ministério de “ex-gays” nos EUA e uma das maiores do mundo.


Quanto ao Brasil, na literatura é possível encontrar informações sobre a criação, em 1988, do Grupo de Amigos, em São Gonçalo-RJ, e do Movimento pela Sexualidade Sadia (Moses) em 1997, assim como a implantação no Brasil, em 1998, do Exodus, organização internacional acima mencionada. No mesmo ano, 1998, integrantes do Exodus no Brasil realizaram um encontro com em torno de 150 pessoas em Viçosa (MG), voltada a “pessoas que desejam compreender melhor o homossexualismo [sic] e as possibilidades de saídas oferecidas por Jesus Cristo”. De lá para cá há várias comunidades religiosas espalhadas pelo Brasil que ofertam “terapia de conversão”, tal qual vivenciada por Karol Eller.


Em entrevista posterior, o ex-pastor Sérgio Viula, um dos fundadores do Moses, que também participou do encontro em Viçosa, afirmou que se apresentava como ex-gay diante de sua igreja, mas, na verdade sempre reprimiu desejos sexuais por conta dos dogmas religiosos, no que descreveu como “tortura psicológica”. Seu depoimento explica o que norteia a “terapia de conversão” e também o conflito vivido por pessoas que passam por ela: “O conceito propagado pela Exodus é de que você podia sentir desejo homossexual, mas sem praticar, porque era pecado. Porém, um passarinho que está numa gaiola não deixa de ser um passarinho. Não vira outro bicho, só não pode voar.”


Em 2013, a Exodus Internacional comunicou seu fechamento nos Estados Unidos. Na época, em um comunicado oficial postado no site da organização, Alan Chambers, ex-presidente do capítulo norte-americano, pediu perdão publicamente à comunidade LGBTI+, “por anos de sofrimento indevido e julgamento nas mãos da organização e da igreja como um todo”. E admitiu: “nós machucamos pessoas”. Também disse que “Por bastante tempo estivemos aprisionados em uma visão de mundo que não respeita nossos semelhantes e tampouco é bíblica.”


Para Kinsey, a orientação sexual é um espectro de 0 a 6, variando desde 100% heterossexual, até 100% homossexual, com todas as possibilidades de orientação sexual entre estes dois extremos. Assim, não se pode esperar e nem exigir que todas as pessoas se enquadrem dentro de uma só manifestação da sexualidade humana.


Em muitos casos, muitas pessoas acabam sublimando sua libido devido à pressão da cultura e das religiões heteronormativas, que desde os primórdios atrelam a sexualidade à procriação e reprodução da espécie, rechaçando outras formas de expressão da sexualidade humana.


Eu mesmo passei por esta experiência na minha adolescência, por ignorância minha, da minha família e da comunidade em que morávamos no interior do Paraná. Na minha inocente busca por uma “cura”, fui taxado de pecador e doente pelo padre e pelo pastor também. No centro de umbanda, me diagnosticaram como estando possuído por uma pomba-gira desgovernada com duas cabeças. Meus irmãos mais velhos me fizeram tomar leite de égua no colostro e me levaram no prostíbulo. Tudo em vão. Minha mãe, também achando que eu estava doente, me levou a um médico num centro maior. Foi a minha salvação. O médico explicou que a homossexualidade é apenas uma das muitas manifestações da sexualidade e que, para superar o preconceito e a discriminação, eu deveria estudar e, assim que possível mudar-me para uma cidade grande e estabelecer minha independência e seguir minha vida da forma como sou. Se hoje sou militante pela causa LGBTI+, acima de tudo foi essa experiência que me impulsionou a contribuir para que outras pessoas não passem pelo sofrimento que eu passei.


Aristóteles colocou muito claramente que o objetivo da vida é ser feliz e virtuoso. Quando uma pessoa não assume sua essência, fica infeliz. A pessoa que não assume a sexualidade devido à pressão alheia ou ao medo de rejeição corre o risco de ser infeliz.


É preciso destacar que a Organização Mundial da Saúde aprovou a retirada, da Classificação Internacional de Doenças, da homossexualidade em 1990, e da transexualidade em 2018. Em 2012 a Organização Pan-Americana da Saúde publicou um documento com a seguinte introdução: “‘CURAS’ PARA UMA DOENÇA QUE NÃO EXISTE: as supostas terapias de mudança de orientação sexual carecem de justificativa médica e são eticamente inaceitáveis”. Portanto, a “terapia de conversão” somente pode ser considerada curandeirismo ou charlatanismo (oferecer cura para algo que não é doença), o que é crime segundo o código penal brasileiro (art. 283 e 284).


Logo após o encontro em Viçosa em 1998, por demanda do Grupo Gay da Bahia e do movimento LGBTI+, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) aprovou a Resolução 01/1999, que proíbe qualquer tentativa por parte dos/das psicólogos/as de “curar” pacientes homo ou bissexuais. Anos depois, a Resolução foi objeto de uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) que tentou derrubá-la, movida por um grupo de psicólogos/as que defendiam “terapias de reversão sexual”, liderados por uma psicóloga que estava no encontro de Viçosa. A ação no STF não teve sucesso e a psicóloga em questão teve seu registro profissional cassado. O CFP também aprovou a Resolução 01/2018, que orienta que os/as profissionais não favoreçam qualquer ação de preconceito e nem se omitam frente à discriminação de pessoas transexuais e travestis. Em 2022, aprovou a Resolução 08/2022, que veda “à psicóloga e ao psicólogo, em contexto psicoterápico ou de prestação de serviços psicológicos, conduzir processos de conversão, reversão, readequação ou reorientação de pessoas com orientações bissexuais e não monossexuais.”


Não é só no Brasil que existe a assim chamada “terapia de conversão” de homossexuais, ou “cura gay’. No entanto, outros países, como Alemanha, Malta, parte da Espanha, 20 dos 50 Estados Unidos da América, Argentina, parte do México, já tomaram medidas legislativas para proibir esta prática. No Equador a partir de 2014 terapias que visam modificar a identidade de gênero e orientação sexual passaram a ser interpretadas como tortura, com pena de prisão. Em diversos outros países, propostas legislativas parecidas já estão em tramitação. No Brasil temos o projeto de lei 1795/2022, da autoria do falecido deputado federal David Miranda, que prevê a criminalização da “prescrição de terapia de reversão de orientação sexual”.


O Conselho Federal de Psicologia (CFP) já publicou pelo menos dois relatórios que abordam o assunto. Em 2011, o Relatório da 4ª Inspeção Nacional de Direitos Humanos: locais para internação para usuários de drogas, trouxe pelo menos 19 casos de “comunidades terapêuticas” religiosas no Brasil que praticavam tratamento degradante ou tentavam “converter” homossexuais para a heterossexualidade. Em 2019, o CFP publicou o livro “Tentativas de aniquilamento de subjetividades LGBTIs”. A obra é fruto de 32 relatos de pessoas LGBTI que expuseram suas histórias e vivências de terem passado pelos horrores, agruras, tristezas da chamada “cura gay”. A maioria das 32 personagens tentou se suicidar em função do que aconteceu com elas.


É absurdo aplicar na atualidade de interpretações de Bíblia fora do contexto em que os trechos em questão foram escritos há milênios atrás. Como disse o deputado federal Pastor Henrique Vieira (Psol-RJ), comentando sobre a morte de Karol Eller, “falta a verdadeira mensagem de Jesus nessas práticas”. Os relatos da vida de Cristo mostram que ele não condenava e nem reprova pessoas que se encontravam à margem da sociedade. Muito pelo contrário, acolheu a pessoa com hanseníase, a prostituta… Quem pratica a “terapia de conversão” e se diz cristão não deveria culpabilizar as minorias sexuais ao ponto destas se suicidarem, e sim seguir os exemplos de Cristo: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância”.


Como movimento LGBTI+ temos que acolher e encaminhar para as autoridades competentes denúncias da prática da “cura gay”, com provas, prestadas por pessoas LGBTI+ que estão sofrendo por causa disso. Temos que provocar as instituições, como o Ministério Público, no âmbito federal e nas unidades da federação, a agirem nestes casos. Temos que nos mobilizar para aprovar o projeto de lei 1795/2022. Também se faz necessário disponibilizar e facilitar o acesso a serviços de apoio psicológico profissional e ético para as pessoas que estão em conflito com a sua sexualidade, seja através de ONGs LGBTI+ que ofertam esse serviço, centros governamentais de atenção psicossocial (CAPS), os Centros de Valorização da Vida, entre outros. Além disso, a Aliança Nacional LGBTI+ organizou a elaboração do Manual de Cristianismo e LGBTI+, que serve tanto para orientação para quem procura informação científica a respeito, quanto para abrir o diálogo com as religiões que assim estiverem dispostas.


Vamos lembrar as palavras do primeiro vereador gay assumido eleito na Califórnia (em 1977):


“Se você não é livre para ser você mesmo na coisa mais importante da vida, que é a expressão do amor, então a vida, em si mesma, perde seu sentido.”

Para concluir, um depoimento que inicia o livro “Tentativas de aniquilamento de subjetividades LGBTIs”:

Eles não me entendem. Minha raiz é a mesma da deles, Mas sou gay num “lar” evangélico, Duas coisas que eles não deixam conviver. Eu fui jogado para fora pela doutrina. Tentaram me curar do que eles chamam doença. Fiz oração chorando todas as manhãs às 8h: “Deus, tira de mim isso. Não quero ser gay.” Um dia desmaiei depois de um jejum de três dias, sem água e sem comida e me disseram que era demônio. Renunciei, pedi perdão, fiz penitência, Mas meu coração não mudou. Segui anos de cabeça baixa e nem aperto de mão eu me permitia dar em outro homem. Olhos fechados, corpo disciplinado, pernas que jamais podiam se cruzar. Joguei futebol porque é isso que homem faz. “Tenho que aprender a ser homem para gostar de mulher”, meditei. Seu problema é que seu pai não foi presente e sua mãe tomou toda cena. Eles te estragaram. E a condenação só aumentou. “Eu não sou gay, isso é mentira do diabo”, o pastor pediu para eu repetir. Repeti todo dia. Repeti todo dia que eu sou uma mentira do diabo. O medo do inferno começou a se tornar uma certeza. Eu falei com a doutora que meu comportamento andava bem, que eu nem chegava perto de homem já fazia cinco anos. Mas não posso receber alta porque meu desejo não mudou. Pedi um remédio verdadeiro e ela não soube responder. Ficou quieta e falou em me dar choques. Me dizia que eu aprendi a ser gay. Sou doente por doutrinação. Mas como, se a doutrina me jogou para fora de casa? Se a doutrina me mandava para o inferno e me dizia que eu ficaria sozinho? “Doutora, eu tô aqui porque eu não quero sofrer mais”, eu disse. “Mas ser gay é sofrer”, eles ficaram me afirmando. Sofra, porque seu sofrimento esconde o meu, foi o que sentia. Eu não escolhi ser gay, mas me castigam, me espancam, me matam porque dizem que sou um pervertido. “Doutora, eu sou virgem, nasci evangélico, nunca nem vi um gay na vida.” Minha mãe não deixava eu ver TV e eu só ia à igreja, não ia em nenhum outro lugar. “Será que eu fiz essa escolha?” “Doutora, me tira da dor que você diz que eu me dei?” Só ouvi silêncio.


Fonte: congressoemfoco.uol.com.br

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