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25º capítulo: Elisabeth Lange, uma nobre que abdicou de sua história para vir ao Brasil com seu amor


Antônio Fernando Kieling e esposa Catharina Alles, segunda geração que administrou a Kieling’s Haus, atualmente a casa comercial mais antiga em atividade no interior colonizado por alemães. A casa comercial dos Kieling foi fundada por Guilherme Kieling, pai de Antônio. Com o falecimento de Catharina Alles, Antônio vendeu sua casa comercial para seu sobrinho Reinaldo Kieling.

Em 1827, nos primórdios da imigração alemã no Brasil, dentre tantos que aportaram no sul do país chega um casal com uma história peculiar. Era Anton Kieling e Elisabeth Lange; ele, militar que serviu a Napoleão Bonaparte e por isso foi perseguido pela Prússia, e ela, uma nobre que abdicou de sua história para vir ao Brasil com seu amor.


Dentre tantos que escreveram a história de Anton e seus descendentes estão Celestino Kieling, Flávio Scholles, Ricardo Iserhard Ries e o Irmão Guido Both. Hoje, quase duzentos anos após a chegada de Kieling, é mais difícil montar o histórico do patriarca e de seus descendentes mais próximos. As fontes orais já faleceram há décadas, muitos registros se perderam e histórias pitorescas como a de Anton e sua esposa são contadas de geração em geração, perdendo, às vezes, a precisão quanto aos fatos e detalhes.


O Irmão Guido Both foi o primeiro a se aventurar nessa história já em 1946, quando genealogias e históricos familiares praticamente ainda eram pouco estudados no sul do Brasil. Celestino e Flávio são descendentes diretos, e Ricardo Ries pesquisador que resgatou dados genealógicos interessantes. Diva Lammel Heck, de Novo Hamburgo, também forneceu detalhes importantes para esse resgate histórico.


Começo a história de Anton Kieling, segundo o histórico já publicado, organizado pelo historiador Carlos Henrique Hunsche (2004): Conta a tradição oral que Antônio Kieling seria natural da Alsácia-Lorena (sic). Homem de estatura elevada e bonito, teria integrado o corpo da guarda de Napoleão e tomado parte na Campanha da Rússia em 1812. Em Dois Irmãos, onde se estabeleceu, envergava ainda, nas grandes festas, a sua antiga farda de oficial com botões impecavelmente polidos. E contam que o mesmo sabre que o acompanhara nas guerras napoleônicas “vai perder a ponta e a glória numa cômica caçada de gambás em Dois Irmãos”.


Segundo o Irmão Guido (depoimento), Anton, da guarda do general Napoleão Bonaparte, participou da campanha na Rússia em 1812. Como sabemos, o inverno castigou o exército de Napoleão, e nos é relatado que Anton juntamente com cinco companheiros conseguiu sobreviver (provavelmente os cinco da guarda pessoal, pois o número de soldados que volta para a França é bem maior).


Moscou foi incendiada e abandonada. A intensa nevasca do inverno europeu os castigou,

e o grupo sobreviveu com um pouco de vinho líquido de barris congelados e defendendo-se de lobos famintos que também rondavam a área. O exército de Napoleão foi desfeito, e o oficial Anton foi trabalhar na cavalaria de um general, seu futuro sogro, promovido ou agraciado com o título de barão. Entendemos que o general Lange, Lanc ou Alan (sic) recebeu reconhecimento de Napoleão. O oficial Anton enamorou-se da filha desse general (Elisabeth Lang).


Sobre Kieling e a filha do oficial, Mário Albino Both (depoimento) escreve: “Na corte francesa estourara do século o maior escândalo; pois o alemão, muito vândalo, com a nobreza se metera”. A moça Elisabeth, jovem de 16 a 17 anos, é ameaçada de perder a herança por namorar Anton, que era apenas um oficial. Sobre Elisabeth Flávio Scholles destaca: “Contavam que ela tinha vindo para o Brasil com uma dama de companhia. Falava vários idiomas, e também diziam que havia uma fortuna incalculável à espera dos descendentes”.


E Guido Both (depoimento) prossegue: Elisabeth prefere perder a herança. É deserdada, e os dois vão para as terras dos Kieling. Nessa época, Napoleão retira-se para a ilha de Elba, em 1814, no mar Mediterrâneo. Nasce o primeiro filho do casal, Jakob, em 1815. É nessa época que a Prússia, após o Tratado de Viena, que refez os limites dos países, perseguiu todos aqueles Alemães que lutaram a favor de Bonaparte. Anton e seu irmão decidem em emigrar para a América. Como primeira opção surge o México, porém a instabilidade política os faz mudar de planos. Ele veio ao Brasil, e o irmão foi para os Estados Unidos.


Anton veio para o Brasil com a esposa Elisabeth e seus quatro filhos, nascidos na Europa. Cruzaram o Atlântico provavelmente na galera dinamarquesa Creole, que partiu de Bremen em 21.10.1826 e chegou ao Rio de Janeiro em 11.11.1826. A família viajou a Porto Alegre em um dos costeiros que deixaram o Rio de Janeiro em fi ns de dezembro de 1826, princípios de janeiro de 1827, transportando cerca de 400 imigrantes destinados à Colônia Alemã de São Leopoldo. A família chegou em São Leopoldo em 4 de fevereiro de 1827.


Kieling ganhou terras em Dois Irmãos. Ali se instalou com a família e, por ser um dos primeiros moradores, ganhou o lote número 15. Uma história contada por Guido Both (depoimento), muito interessante, porém pouco detalhada, o que dificulta um pouco a compreensão de algumas partes, é a seguinte: Napoleão estava complicando com o clero. O autor da guarda, aos gritos e espancando com a espada um padre, o ia empurrando em direção à prisão, mas bem baixinho lhe segredava: “Senhor, por aqui que lhe mostro uma saída”. Mais tarde, em Dois Irmãos (ou Walachei), quando Anton estava partindo para a capela ou a igreja, elevava sua voz forte e rouca quando apareceu o padre: “Acho que conheço esta voz!”. E era o mesmo padre.


Anton teve ao todo nove filhos. Dora Lammel Heck conta que todas as roupas de Elisabeth

continham o brasão de sua família (na época, os brasões representavam apenas as famílias de nobres), que eram colocadas cuidadosamente por ela em um baú, onde as netas gostavam de mexer. Já Scholles destaca que diziam que Elisabeth colocava roupa para coarar sempre à noite, dobrando as pontas para que ninguém da vizinhança visse a coroa ali impressa.


Anton faleceu primeiro, em 10 de janeiro de 1856, sendo enterrado no antigo cemitério católico. Em sua lápide encontra-se a inscrição: “Hier ruhet Anton Kieling geb. in Weinheim bei Worms 15.dez.1784 gest. 10. Jan. 1856 O – Ihr meine theuren Lieben; die ihr an meinem Grabe weint; was wollt ihr euch noch betrueben; weil ihr des versichert seid, dass ich bin mit Gott vereint; wier sehn uns wieder in Ewigkeit”. Tradução: Aqui descansa Antônio Kieling, nascido em Worms a 15.12.1784, falecido a 10.01.1856. Ó vós, meus caros amados, que chorais no meu túmulo; por que ainda vos entristeceis, pois vós tendes certeza que eu estou unido com Deus; nós nos veremos na eternidade.


Elisabeth faleceu nove anos depois de hidropsia, em 13.5.1865. Segundo o registro do padre: “Sepultada na Sexta-feira da Paixão, depois do meio-dia, por mim, solenemente, no cemitério católico na Picada Dois Irmãos. Ass. Augusto Lipinski, vigário”.


Há um fato pitoresco descrito, décadas mais tarde, pelo padre Both (depoimento): “O Oscar (Roehe, descendente de Elisabeth e pesquisador sobre os Kieling) queria briga com o padre de Dois Irmãos. Foi desumada a condessa (sic), e o padre ficou com o brasão dourado que estava sobre seu peito”.


Colaboração do Jornalista e historiador Felipe Kuhn Braun


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