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Narrando os 200 anos: a Presença de Africanos Escravizados na Região de São Leopoldo - Parte 01


A figura de escravos integravam o dia a dia de famílias bem posicionadas financeira e patrimonialmente, fossem elas do meio urbano ou do meio rural, como é o caso dos Bier, Kersting, Kraemer, Bender, Stumpf, Panitz, Rieth, entre outros.


A foto das lavadeiras trabalhando às margens do rio, no capítulo anterior, reforça a ideia de que a sociedade do último quartel do século XIX em São Leopoldo era diversificada e bastante desigual. Entre as lavadeiras, muitas delas ainda eram escravas ou eram descendentes de escravos. Apesar dos propósitos antiescravistas do Império para com as colônias de imigrantes, correspondências oficiais da Câmara e o Código de Posturas revelam que viviam ali grande número de africanos escravizados, muitos deles atuando como escravos de ganho nas ruas da Vila, além de outros afrobrasileiros livres e alforriados. Sabe-se que imigrantes urbanos e rurais obtiveram escravos e os utilizaram em suas casas e em seus negócios. Martin Dreher, em texto publicado em 1995, chamou a atenção para as leis que impediam os colonos de possuir escravos em suas propriedades agrícolas.


De fato, Império e Província preocuparam-se com a possibilidade de os colonos adquirirem escravos para executar as mais inúmeras atividades. A razão dessa preocupação estaria no fato de que os imigrantes e seus descendentes, sobretudo aqueles que se tornaram colonos – agricultores –, deveriam ocupar o território, produzir alimentos, dinamizar o mercado interno e criar uma força de oposição aos grandes fazendeiros. Estes, muitas vezes, em razão de suas grandes propriedades e da manutenção de milícias particulares, em algumas situações, colocavam-se contra, não raro em guerra, o Império Brasileiro.


Nas pesquisas percebemos que “Conforme o censo de 1848, na Vila de São Leopoldo, distinguem-se como os maiores proprietários de escravos o negociante Nicolau Stumpf com 7 escravos, o lombilheiro Carlos Panitz com 5 escravos, o funileiro João Frederico Rieth com 4 escravos, o negociante Julio Knorr com 4 escravos e o professor Francisco de Paula Ribas com 6 escravos.”


Ainda sobre a presença de escravos em São Leopoldo, as afirmações e os escritos de épocas passadas transmitiram a ideia de uma presença bastante pequena de escravos, bem como de um tratamento mais humanizado dispensado aos escravos daqui, ou seja, algo diferenciado da realidade verificada no centro do Brasil. Entretanto, não foi dessa forma o cenário existente nas colônias alemãs. Nos processos-crimes, livros dos juízes de paz e da Polícia e nas atas da Câmara, estas interpretações não encontram apoio; pelo contrário, mostram a presença de castigos físicos, assassinatos, evidências de rebeldias e fugas. Inclusive, no primeiro Código de Posturas de São Leopoldo (1848) consta uma cláusula proibindo aos senhores castigarem seus escravos após as 20 horas, no inverno, e 21 horas no verão, para não incomodar a vizinhança com os barulhos.


A carta de alforria era um documento através do qual o proprietário de um escravo abria mão dos seus direitos de propriedade sobre o mesmo. O escravo libertado através desse dispositivo era habitualmente chamado de negro forro. Certamente essa era a situação de Stevo: depois de tornado forro pela família Kraemer, passou a vender doces na cidade para garantir seu sustento. Na carta de apresentação retratada ao seu lado, constam seus dados biográficos. A trajetória de um A carta de alforria era um documento através do qual o proprietário de um escravo abria mão dos seus direitos de propriedade sobre o mesmo. O escravo libertado através desse dispositivo era habitualmente chamado de negro forro. Certamente essa era a situação de Stevo: depois de tornado forro pela família Kraemer, passou a vender doces na cidade para garantir seu sustento. Na carta de apresentação retratada ao seu lado, constam seus dados biográficos.


A trajetória de um africano nascido na região de Banguela (Angola), que foi escravizado e trazido para o Brasil, “Chegando na cidade de São Paulo e aí foi elle com mais alguns encolherados de corente no pescoso e marchou a pé até a cidade de Sorocaba daí elle foi vendido para o F .J. Fereira. Ficou um tempo na cidade de Castro depois que elle podia falar a língua do país, elle foi vendido pela terceira vez para o L. A. Branco, morador de Villa Velha e a última vez foi vendido para São Leopoldo para o P.Kremer e ficou forro no dia 13 de Maio na liberdade da escravadura e elle foi batisado duas vezes na cidade Banguela na Africa Stevo e na Villa de Castro S.F.J. Fereiro por último Choramenino vendedor de doces. Isto é meu viver todo. Viva.”


Sua biografia marcada por desventuras certamente sensibilizava os transeuntes, estreitando laços de afeto com a população local. O apelo emocional formava uma clientela permanente e fiel, algo que se traduzia através de um incremento nas vendas de doces.


Além dos já mencionados senhores de escravos, havia ainda o médico Von Ende, que possivelmente foi um dos maiores proprietários, pois era dono de 17 escravos, conforme apuração do censo de 1848. Outros proprietários eram João Deckmenn, Nicolau Blauth, o casal Jakob e Elisabeth Diefenthäler. Mesmo sendo imigrantes alemães, possivelmente logo se deram conta de que ser proprietário de um ou mais escravos, além do investimento e das vantagens econômicas advindas, significava também usufruir de status social.


Fonte: Histórias de São Leopoldo: dos povos originários às emancipações, de Felipe Kuhn Braun e Sandro Blume/ Pesquisa Bado Jacoby

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