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O milagre da manhã - Por Magali Schmitt

Muita gente torce a cara para os que se levantam tarde. Se a criatura não é madrugadora, vai direto para a lista dos preguiçosos, dos condenados sem direito à defesa. Ah, as convenções, as regras, os padrões e seus quadradinhos. O escaninho da sociedade tem alguns compartimentos bem definidos para fragmentar quem está fora do senso comum.


Particularmente, não vejo nada que desabone quem salta da cama à primeira chamada do galo e ainda por cima tinindo. Eu respeito. Admiro. Mas não vejo cobrarem dessas pessoas com o mesmo fervor que cobram dos notívagos. Acordar cedo é uma qualidade. Acordar tarde uma falha de caráter — está escrito nas entrelinhas. Um conceito transmitido através das gerações, mesmo que velado. Afinal, que atire a primeira pedra quem nunca teve vontade de virar para o lado naquela manhã fria e chuvosa e apenas curtir o quentinho da cama.  


Por uma questão de ritmo biológico, eu demoro a pegar no tranco pela manhã. Quanto mais cedo, mais meu cérebro sofre para fazer download dos arquivos. Antes das dez quase não existo. Só resisto.


Isso não quer dizer, veja bem, que eu seja uma pessoa irresponsável, que não pegue junto e essas coisas que se costuma dizer de quem cedo madruga. Aqueles a quem Deus ajuda, lembra? Somente opero em outra frequência. Agora me chamem para virar a noite trabalhando, criando, resolvendo algo. É parceria certa.


Os noturnos são julgados o tempo todo. Isso já me incomodou, me fez sentir deslocada em alguns momentos. A gente tem essa tendência de querer agradar, de encaixar onde a maioria se encaixa. Em especial quando é mais jovem.


Tem até livro festejando a manhã, mas nunca vi livro cultuando o levantar mais tarde. É um pecado, uma danação. A pessoa é quase apontada na rua, precisa inventar desculpas, justificar essa falha no sistema.


Uma pena, porque somos interessantes, garanto. Longe de mim estar puxando a brasa para o meu assado. E já aviso aqui que esse texto não tem a pretensão de iniciar uma luta de classes, traçar um paralelo entre o bem e o mal, mudar o rumo da civilização.


Mas posso falar com conhecimento de causa. A noite tem cores e cheiros e aqueles pensamentos que nunca ousam se mostrar enquanto circundamos o sol. Essas coisas que a gente não se permite pensar pela manhã, por exemplo, mas tem licença poética para divagar, na madrugada. É disso que falo. Dessa energia que o apagar da luz natural proporciona.


O verdadeiro milagre da manhã ocorre naqueles dez minutos da soneca do relógio — o melhor sono do mundo. Aquela meia horinha a mais em que a gente é puxado pela mão por seres fantásticos e passeia nas profundezas do inconsciente. E vocês hão de concordar comigo que seria a maior chatice todo mundo dormir e acordar no mesmo horário. A liga, o tom das coisas está no distinto.


Por isso, me chamem para salvar o mundo às três da manhã, mas não me peçam para acordar às cinco, não me exijam bom-humor às seis. Nessa hora estou cavalgando os refúgios da mente e criando universos em sonhos, sem condições de operar no mundo real. Mas depois... 

 

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Magali Schmitt, é Jornalista e autora

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