Tese sobre desistência - Por Magali Schmitt
- Andressa Brunner Michels - Jornalista - MTB 19281/RS

- 6 de abr.
- 2 min de leitura
Tenho alguns ranços que me definem muito bem. O da língua portuguesa é um deles. Volta e meia falo aqui de como o atravessamento da língua me pega num lugar quase primitivo.
Eu sei — e entendo — que a língua é viva. Ela se move, se transforma, acompanha o tempo, como as marés obedecendo à lua. É próprio das pessoas inventarem. Logo, a língua inventa junto.
Quando buscava inspiração para este texto, li um post de um influenciador que sigo e me deparei com uma expressão que, em tese, deturpa o idioma e, ainda assim, me fisgou. “Daora”.
Dito assim, sem cerimônia, com naturalidade e identidade. Pensei: taí uma mudança que me representa. Que eu aceito sem ranço.
E por quê?
Porque, se vamos alterar a língua, que seja com estilo. Com intenção. Antes de romper, é preciso dominar. Ter controle sobre a escrita e a fala. Não levem como pedantismo. É fundamento.
Conhecer a própria língua não é luxo. É ferramenta de pensamento, de discernimento, de construção de mundo. E, convenhamos, estamos precisando de uma dose dupla.
Talvez seja por isso que o assassinato diário da língua me incomode tanto.
Não pelo erro em si, mas pelo ausência que ele revela.
Ainda nem chegamos ao cume e nos damos por satisfeitos. Interrompemos a subida.
No tabuleiro do português, já fizemos movimentos brilhantes. Saímos de “vossa mercê” para “você”. De “optimo” para “ótimo”.
Aquele menos que virou mais. Uma lapidação elegante, certeira.
Ao mesmo tempo, acumulamos perdas. Os pronomes desaparecem. Ninguém mais se apaixona — apenas apaixona. Ninguém se forma — forma. Ele chama João. Ela chama Vitória.
E, no detalhe quase imperceptível, vamos cedendo: estão falano, emprestano, fazeno. Vivendo pela metade da palavra.
Percebem a minúcia?
A mim, isso soa como certo cansaço de pensar.
Uma pressa em simplificar antes mesmo de compreender.
Não é evolução. É o atalho que não leva mais rápido ao destino. Pode parecer uma bobagem se preocupar com isso. Pode mesmo. Mas este texto diz menos de gramática e mais sobre o tipo de caminho que estamos escolhendo percorrer — como indivíduos e como país.
Porque, quando a gente para de cuidar da língua, talvez já tenha parado de cuidar de muita coisa antes.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.
























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