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Narrando os 200 anos da Imigração alemã: 25º capítulo - Contextos e versões das causas da imigração

ASPECTOS HISTÓRICOS GERAIS DA IMIGRAÇÃO E COLONIZAÇÃO ALEMÃ NO RIO GRANDE DO SUL


Os 198 anos da imigração alemã para o Rio Grande do Sul foram comemorados em 2022, e já se preparam novas homenagens para o marco dos 200 anos, em 2024. O ponto de partida dessa história toma como referência a chegada dos primeiros imigrantes alemães em São Leopoldo, então Real Feitoria do Linho Cânhamo, no distante ano de 1824. Daquele momento em diante se passou a construir diversas versões acerca do processo de imigração e colonização no Rio Grande do Sul, e a cada dia novos estudos científicos e memorialistas tomam corpo. Portanto, existem milhares de páginas escritas de inúmeros autores de diferentes épocas e espaços geográficos, contendo tanto detalhes microscópicos quanto processos amplos e complexos sobre o tema da imigração alemã. Não nos cabe aqui apresentar um compilado do que se produziu, mas apenas destacar algumas contribuições dos imigrantes alemães para determinados aspectos da formação do Rio Grande do Sul, sobretudo quanto ao século XIX. As migrações fazem parte da história humana e remontam a milhares de anos. Os primeiros indivíduos a chegar no que hoje entendemos como o continente americano teriam vindo, segundo Niède Guidon et al. (2003) há mais de 50.000 anos atrás ou mais. Desde períodos remotos, portanto, o ser humano entende o deslocamento como uma estratégia de sobrevivência. Ao longo da História temos diversos exemplos de migrações humanas, desde as “invasões bárbaras” ao império romano, até as recentes travessias do Mar Mediterrâneo por parte de refugiados sírios.


Cada época e espaço geográfico determinaram as motivações desses movimentos. Os carbonários italianos que vieram para a América do Sul na primeira metade do século XIX assim o fizeram por questões políticas, fugidos principalmente das perseguições da restauração monárquica pós Congresso de Viena (1814-1815) (SCHEIDT, 2008). Outros grupos de italianos que vieram ao Brasil a partir de uma política estatal de incentivo à imigração, estabelecidos na região da Quarta Colônia, no centro do Rio Grande do Sul, migraram a partir do estabelecimento de estratégias familiares (VENDRAME, 2007). Por sua vez, os soldados da Legião Alemã dos Brummer migraram para o Brasil em 1851 como forma de deixar para trás a perseguição à postura liberal que muitos adotaram, mas também em busca de uma vida melhor na América, ou mesmo para fugir de dívidas (PIASSINI, 2016). Portanto, migrar é muito mais do que o simples reflexo de fomes e expulsões, visto que também pode ser decorrência de estratégias econômicas e refúgio temporário de perseguições. Aqui vamos tratar das migrações de populações do continente europeu, especificamente indivíduos de origem alemã, que deixaram seu território original nos séculos XIX e XX para se estabelecer no Rio Grande do Sul.


A ALEMANHA NA PRIMEIRA METADE DO SÉC. XIX


A Alemanha passou por grandes mudanças no século XIX. As revoluções agrícola e demográfica impulsionaram seu processo de industrialização, que foi tardio em relação a outros estados europeus por conta da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), conflito que levou os camponeses à miséria econômica e aumentou sua dependência para com os latifundiários. O declínio da estrutura feudal modificou a relação dos servos com a terra que ocupavam, uma vez que se tornaram proprietários desta sob a condição de ceder parte dela aos antigos donos. O camponês recebeu terras suficientes para garantir o sustento de sua família, entretanto, ao ser passada às novas gerações, a propriedade acabou fracionada e reduzida a condição de minifúndio, obrigando esses camponeses a buscar alternativas, como o trabalho para terceiros, o arrendamento de terras suplementares, a prática de novos ofícios e, ainda, a migração.


A grave situação dos principados e grão-ducados alemães no século XIX é sintetizada em uma passagem da historiadora Sylvia Lenz (1999 1apud MÜHLEN, 2013, p. 74).


“Plantações destruídas nas guerras, decorrente subprodução agrícola e carestia dos alimentos; ausência de trabalho para aqueles ex-soldados até então ocupados nos campos de batalha; falências de muitas manufaturas domésticas frente à entrada dos produtos industrializados ingleses. Além disso, o fenômeno do acréscimo populacional constatado desde meados do século XVIII e a subdivisão das terras, cada vez menores para a quantidade crescente de herdeiros”.


As principais motivações das mudanças sociais daquele período, propulsoras da migração, estavam relacionadas ao crescimento populacional, a distribuição desigual da terra e o início do processo industrial. O aumento demográfico, aliado a constantes más colheitas gerou pobreza e sérios problemas de abastecimento, adensando a população de famintos. Consequentemente, houve sensível aumento da criminalidade. Com a desarticulação da estrutura feudal no século XIX, a prática de coletar lenha nos bosques e florestas, recolher as sobras das colheitas e deixar os animais em potreiros comunitários, deixou de ser permitida, desamparando os camponeses dependentes daquelas tradições (MÜHLEN, 2013).


Com o fim da servidão da gleba 2em 1820 houve a libertação dos compromissos dos latifundiários em relação aos camponeses, assim como destes para com os latifundiários, o que retirou dos últimos o compromisso de oferecer trabalho, salário e alimento à população camponesa antes presa a terra. Muitos camponeses permaneceram dependentes dos latifundiários, pois precisavam sobreviver e alimentar suas famílias. Outros, porém, foram obrigados a deixar o campo e buscar alternativas. Muitos acabaram mendigando e sendo levados para as Casas de Correção. Por sua vez, os artesãos sofreram com a falta de mercado para seus produtos, primeiro foram vítimas da concorrência com os produtos ingleses, e depois com a gradativa substituição das manufaturas pela indústria local, que não exigia trabalho mecânico qualificado. Famílias inteiras dedicadas ao trabalho 1 2 LENZ, Sylvia. Brasil, Cidades Hanseáticas e Prússia: uma história social dos alemães no Rio de Janeiro (1815-1866). 1999. Tese (Doutorado em História) - Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1999. A servidão da gleba pode ser entendida como a ausência de liberdade, tanto econômica quanto social. O servo era obrigado a prestar serviços, pois era um vassalo da propriedade e, portanto, deveria entregar parte da produção e estava preso ao solo no qual prestava serviços e produzia (DREHER, 2009, p. 4). 30 manual perderam importância e tiveram seu lugar tomado pelas máquinas (MÜHLEN, 2013).


Até 1860, o regime de artesanato doméstico prevaleceu. Apesar da inexistência, naquele período, da unificação política das diversas partes independentes que viriam a constituir a Alemanha, havia uma unidade econômica existente desde 1834, a Zollverein, que permitia a livre circulação de homens e capitais entre todas as unidades independentes. Esse “mercado comum” favoreceu o desenvolvimento industrial que, apesar de absorver um grande contingente de mão-de-obra, afetou artesãos e trabalhadores da indústria doméstica, desprovidos de condições para concorrer com a produção em larga escala, e, por isso mesmo, mais barata. Além disso, o sistema bancário agiu como suporte para o desenvolvimento industrial ao oferecer crédito, porém financiou apenas empresas capazes de se adequar às suas exigências, acarretando prejuízos aos pequenos artesãos. O espaço para os produtos artesanais diminuiu substancialmente, enquanto a produção industrial se expandiu. A possibilidade de encontrar melhores condições de vida no Novo Mundo atraiu vários desses trabalhadores manuais.


O aumento populacional sem o correspondente desenvolvimento dos métodos de produção agrícola, o aumento da carga tributária sobre as terras e a concentração de terras nas mãos de poucos proprietários forçaram a migração de camponeses para outras regiões da Europa e mesmo para outros continentes (MÜHLEN, 2013). Segundo Martin N. Dreher, no prefácio da obra “Degredados e Imigrantes: trajetórias de ex-prisioneiros de Mecklenburg-Schwerin no Brasil Meridional (século XIX)”, de Caroline von Mühlen (2013), o crescimento demográfico foi, especialmente, consequência da aplicação de vacinas durante o domínio napoleônico dos territórios alemães, o que diminuiu a mortalidade infantil. A produção de alimentos, porém, foi insuficiente para alimentar tantas bocas.


Portanto, de modo geral, a Alemanha passou no séc. XIX por um processo de desagregação da estrutura feudal e pela introdução do capitalismo na indústria e no campo. Essas mudanças deixaram milhares de pessoas expostas à fome e à margem dos novos processos produtivos. Restou a elas engrossar as fileiras de assalariados das cidades, a mendicância, a vagância, a vagabundagem ou migrar.


Fonte: IMIGRAÇÃO ALEMÃ E POLÍTICA de Carlos Eduardo Piassini, com o apoio da Assemble Legislativa do Rio Grande do Sul/Pesquisa de Bado Jacoby




 
 
 

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