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8 de março não é apenas sobre flores. É sobre força - Por Nana Vier

Tem sempre alguém que pergunta se ainda faz sentido existir um Dia Internacional da Mulher. Eu costumo responder que faz. E muito. Basta abrir o noticiário antes do café.


Mas talvez este ano a pergunta seja outra. O que significa ser mulher hoje?


Eu passei a vida inteira sendo simplesmente mulher.


Menstruei, fui assediada, ouvi como deveria me comportar, aprendi a andar atenta, ganhei menos, trabalhei dobrado para provar o óbvio, carreguei culpas que nunca foram minhas. E agora descubro que isso precisa de especificação técnica.


De repente, não basta ser mulher. É preciso adjetivar. Classificar. Explicar. Criar subgrupos dentro do que sempre foi uma experiência concreta. Como se estivéssemos organizando prateleiras conceituais enquanto a casa ainda pega fogo.


Ser mulher não é um conceito de rodapé. Não é uma nota técnica. Não é uma definição jurídica. Ser mulher é experiência vivida no corpo. É memória. É biologia, mas também é história, cultura, medo aprendido e coragem construída.


Ser mulher é sair de casa em constante estado de alerta.

É aprender a atravessar a rua com o radar ligado.

É trabalhar fora e continuar trabalhando dentro.

É ouvir “você é forte” quando, na verdade, queria só descansar.


É ter TPM e ainda assim entregar relatório.

É atravessar a menopausa em silêncio elegante.

É fazer mamografia com o coração na mão.

É carregar no próprio corpo estatísticas de feminicídio que insistem em nos lembrar que existir ainda pode ser perigoso.


Ser mulher é revolucionar o mundo enquanto faz janta e balança o berço.


E, sim, é também lidar com debates novos, complexos e delicados. Vivemos um tempo em que discussões sobre identidade de gênero, esporte, sistema prisional, banheiros e linguagem ocupam o centro da arena pública. É um tema que exige respeito, escuta e humanidade. A vida das pessoas importa. A dignidade das pessoas importa.


Mas há algo que também precisa ser dito com serenidade: nós, mulheres, não somos conceito abstrato. Não somos categoria neutra. Não somos nota explicativa. Não somos pessoas que gestam. Não somos pessoas com útero. Não somos categoria neutra em manual técnico.


Somos MULHERES. Com história, com corpo, com vivência material.


Há séculos lutamos para que o mundo reconhecesse isso. Para votar. Para estudar. Para trabalhar. Para herdar. Para decidir sobre nossos corpos. Para sair do silêncio. Para existir com nome próprio.


Então quando o vocabulário parece apagar essa palavra — MULHER — algo nos inquieta. Não é sobre negar direitos a ninguém. É sobre não perder os nossos. É sobre não diluir uma história que custou caro demais.


Podemos respeitar trajetórias diferentes sem deixar de afirmar a nossa. Podemos acolher sem abrir mão. Podemos evoluir sem desaparecer.


O 8 de março não é sobre excluir ninguém. É sobre lembrar que ser mulher ainda implica risco, desigualdade, sobrecarga e violência — e, ao mesmo tempo, uma capacidade absurda de reconstrução.


É o dia de falar das nossas revoluções internas.

Da menina que aprendeu a dizer não.

Da mãe que voltou a estudar.

Da avó que aguentou o que a gente não aceitaria mais.

Da profissional que negocia salário sem pedir desculpas.

Da que recomeça aos 50.

Da que enfrenta o câncer.

Da que denuncia.

Da que sobrevive.


Ser mulher não é fragilidade. É resistência organizada.


É rir no meio do caos.

É maquiar olheiras e também sistemas.

É chorar e ainda assim continuar.

É criar rede quando o mundo fecha portas.


Então, neste 8 de março, que não nos entreguem apenas flores. Que nos entreguem respeito. Que nos entreguem segurança. Que nos entreguem igualdade real. Que nos chamem pelo nome certo.


MULHER.


Com toda a complexidade, potência e história que essa palavra carrega.


E que possamos seguir firmes, inteligentes, sensíveis, imperfeitas, sem precisar pedir licença para existir.


Feliz dia a nós.


Nana Vier, é professora e escritora

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