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A comoção do papel picado e a memória seletiva da política leopoldense - Por Bado Jacoby

Um gesto de protesto protagonizado por uma professora municipal e representante sindical acabou assumindo uma dimensão política muito superior ao próprio fato. O lançamento de papéis picados durante a sessão da Câmara de Vereadores de São Leopoldo, na última quinta-feira (2), que atingiu alguns vereadores e vereadoras, tornou-se alvo de críticas e debates, reacendendo uma discussão sobre a seletividade com que determinados episódios ocorridos no Legislativo municipal são tratados pela opinião pública e por atores políticos.


Não há justificativa para atitudes que tumultuem uma sessão legislativa. O Parlamento deve ser, acima de tudo, um espaço de debate, de divergências e de construção democrática, jamais de confrontos. Esse princípio vale para qualquer manifestação, independentemente do lado político ou ideológico de quem a protagonize. O que chama atenção, porém, não é apenas o episódio em si, mas a proporção da repercussão que ele alcançou.


Nos últimos dias, o lançamento de papel picado ganhou enorme destaque nas redes sociais e no debate político, como se a Câmara de Vereadores estivesse diante de um dos acontecimentos mais graves de sua história recente. Mas a política exige algo que, muitas vezes, parece faltar: memória.


São Leopoldo viveu períodos muito mais turbulentos dentro do Legislativo. Basta recordar o governo que ficou conhecido pelo slogan "Senhores Excelência em Gestão", de triste e inapagável memória para grande parte dos leopoldenses.


Naquele período, as sessões da Câmara eram frequentemente marcadas pela presença de grupos de militantes que, na avaliação de opositores e de quem acompanhava os acontecimentos, atuavam para intimidar vereadores, servidores e cidadãos que divergiam do governo. O ambiente foi palco de sucessivas agressões verbais, ameaças e, em algumas ocasiões, confrontos físicos que deixaram marcas profundas na história política do município. Não raras vezes, os episódios terminaram com registros de boletins de ocorrência, investigações policiais e, em alguns casos, ações judiciais.


Também permanece viva na memória da cidade a forma como professores municipais foram tratados durante manifestações naquele período. Em um dos episódios mais marcantes, professoras foram contidas por integrantes da Guarda Civil Municipal com o uso de dispositivos de choque elétrico. As imagens repercutiram amplamente e provocaram um intenso debate sobre a proporcionalidade da ação diante de manifestantes que exerciam um direito constitucional. Até hoje, muitos se perguntam como educadoras puderam ser tratadas como se representassem uma ameaça capaz de justificar esse nível de força.


É justamente por isso que causa estranheza ver um lançamento de papel picado receber, em alguns discursos, uma repercussão maior do que fatos que envolveram violência física, intimidação direta e até agressões contra pessoas. Evidentemente, o episódio desta semana não se compara, em gravidade, àqueles tempos sombrios. Ainda assim, não é raro que sessões da Câmara sejam marcadas por manifestações muito mais acaloradas, protagonizadas pelos mais diversos grupos políticos, sem que despertem indignação semelhante.


Nada disso significa defender ou minimizar o ocorrido na sessão desta semana. O gesto foi inadequado e não contribui para o fortalecimento do debate democrático. Quem ocupa qualquer espaço público deve agir com responsabilidade. Mas também é preciso evitar que a indignação seja seletiva.


Na democracia, a coerência é medida menos pela intensidade da indignação e mais pela capacidade de aplicá-la com o mesmo critério, independentemente de quem esteja no poder ou de quem protagonize os fatos.


A coerência exige que toda forma de violência se é que o lançamento de papel picado pode ser enquadrado dessa maneira, seja condenada com o mesmo rigor. Quem hoje manifesta profunda indignação diante de um punhado de papéis lançados ao plenário também deveria ter demonstrado igual firmeza quando vereadores, servidores, professores e cidadãos foram intimidados, agredidos ou reprimidos de maneira muito mais grave.


A política perde credibilidade quando a memória passa a ser conveniente. A gravidade dos fatos não pode depender de quem os pratica nem de quem é a vítima. Quando os critérios mudam conforme o personagem ou a circunstância, deixa-se de defender princípios para defender conveniências.


Se há algo que precisa ser preservado na democracia é justamente a capacidade de analisar cada episódio com equilíbrio, proporcionalidade e honestidade intelectual. O lançamento de papel picado foi um gesto inadequado e merece crítica. Mas transformá-lo em um escândalo sem precedentes, ignorando episódios muito mais graves que marcaram a história recente do Legislativo leopoldense, revela uma indignação claramente seletiva. Se os maiores problemas da política se resumissem a um punhado de papéis lançados ao plenário, certamente viveríamos tempos muito menos turbulentos.


Bado Jacoby, é repórter e apresentador da Start Comunicação

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