A direita brasileira quer sair da sombra do bolsonarismo - Por Bado Jacoby

A derrota de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial e sua saída do Brasil para os Estados Unidos podem representar muito mais do que um revés eleitoral para a família Bolsonaro. Nos bastidores da política, abre-se uma oportunidade para a direita tradicional recuperar o protagonismo que perdeu nos últimos anos.
Desde o advento da república, a direita brasileira soube ocupar espaços importantes na política nacional. Com diferentes lideranças e partidos, construiu governos, bancadas e alianças, sempre demonstrando capacidade de negociação e compreensão das regras do jogo político. Essa direita pragmática, até em tempos de regimes de ferro, não perdia o contato com os setores políticos perseguidos pelos regimes vigentes.
A chegada do bolsonarismo mudou esse cenário. Com um discurso de ruptura e enfrentamento permanente, o movimento passou a concentrar boa parte do eleitorado conservador. Ao mesmo tempo, empurrou para a margem lideranças tradicionais que não compartilhavam da radicalização e dos métodos do grupo.
Agora, a derrota de Flávio, somada à sua saída do país e à postura adotada após o resultado eleitoral, reacende a discussão sobre o futuro desse campo político. A insistência no confronto e as imprudências cometidas durante a campanha, especialmente no segundo turno, podem ter cobrado um preço alto de um movimento que acabou confundindo a direita brasileira com um projeto político familiar.
Nomes como Tarcísio de Freitas, Cleitinho Azevedo, governador eleito de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado voltam a ganhar relevância nesse debate. Embora tenham apoiado Flávio Bolsonaro no segundo turno, são lideranças com trajetórias e projetos próprios, que já demonstraram disposição para construir caminhos além da influência direta da família Bolsonaro. São sinais de que existe vida política na direita brasileira para além do bolsonarismo.
Isso não significa o desaparecimento do movimento. Seu eleitorado continua expressivo e sua força política não pode ser ignorada. Mas ter influência eleitoral não significa ter o direito de comandar sozinho todo um campo ideológico.
A direita pragmática enxerga uma oportunidade de recuperar espaço, dialogar com o centro, ampliar alianças e voltar a disputar o poder sem carregar permanentemente o peso dos conflitos e das estratégias de um projeto personalista. Talvez a maior consequência da derrota de Flávio Bolsonaro não seja o enfraquecimento da direita brasileira, mas o início de sua libertação da dependência política do bolsonarismo.
Bado Jacoby, é titular da coluna Radar da Política

























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