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A foto da arrogância e da certeza de impunidade - Por Bado Jacoby

A imagem de um jovem de 18 anos se entregando à polícia vestindo uma camiseta com a frase em inglês “Don’t regret anything” , que traduzida para o português, se transforma em “não se arrependa de nada”, tornou-se mais do que um registro jornalístico. Ela se transformou em um retrato simbólico de um problema profundo da sociedade brasileira: a combinação entre privilégio, machismo e a sensação de que certas pessoas estão acima das consequências de seus atos.


Quando um estudante de uma das escolas mais caras e tradicionais do país, filho de figuras influentes da política e da elite social carioca, aparece publicamente com uma mensagem desse tipo, no contexto de uma acusação de estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos, o gesto não parece casual. A imagem transmite algo que vai além de uma escolha de roupa: revela uma postura, quase uma declaração silenciosa de desprezo pelo julgamento público e pela gravidade do crime.


A mensagem implícita é perturbadora. Ela sugere que a certeza de impunidade pode estar tão enraizada que dispensa até mesmo o cuidado de disfarçar a arrogância. O olhar para as câmeras, a frase na camiseta e a tranquilidade diante da exposição pública formam um retrato que muitos enxergam como expressão de uma cultura de privilégios profundamente arraigada.


Esse episódio também expõe algo que raramente ganha tanta visibilidade: a violência sexual não é um fenômeno restrito às margens da sociedade. Ela atravessa todas as classes sociais e, muitas vezes, encontra nas camadas mais privilegiadas mecanismos de proteção, sejam eles jurídicos, sociais ou simbólicos.


O caso também desafia narrativas simplistas frequentemente usadas no debate público. Discursos políticos que prometem soluções fáceis para a violência como o endurecimento seletivo de penas ou propostas pontuais como a redução da maioridade penal, pouco dizem sobre situações em que os envolvidos pertencem às elites econômicas e sociais do país.


A realidade é mais complexa. A violência também se alimenta de estruturas culturais, de ambientes que normalizam comportamentos abusivos e de redes de proteção informal que minimizam ou relativizam crimes graves quando cometidos por pessoas de status elevado.


A fotografia desse jovem, portanto, não é apenas o registro de um momento específico. Para muitos, ela se tornou um símbolo incômodo de uma sociedade que ainda convive com desigualdades profundas na forma como julga, pune ou deixa de punir determinados comportamentos.


Se há algo que a imagem provoca é a necessidade de reflexão. Não apenas sobre um caso, mas sobre as estruturas sociais, culturais e institucionais que permitem que episódios como esse aconteçam e, muitas vezes, sejam relativizados ou rapidamente esquecidos.


Bado Jacoby, é repórter e apresentador da Start Comunicação

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