A linha tênue entre o bairrismo regional e saudável, e a "superioridade" social e racial - Por Bado Jacoby
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Há décadas, o povo gaúcho alimenta uma narrativa confortável e conveniente de que o Rio Grande do Sul seria o estado mais politizado, culto e consciente do Brasil. Trata-se de uma ficção bem construída, repetida à exaustão, mas frágil quando confrontada com dados estatísticos, análises sociológicas ou evidências históricas mais rigorosas. Essa autoimagem, marcada por certo tom de soberba e arrogância, não se sustenta sob um olhar minimamente científico.
Parte dessa construção passa por um tradicionalismo cuidadosamente elaborado, quase um “tradicionalismo de laboratório”, onde derrotas históricas foram romantizadas como vitórias morais e personagens ligados ao escravismo foram ressignificados como libertadores. Essa narrativa foi moldada por intelectuais e grupos tradicionalistas que souberam criar símbolos, rituais e uma estética sedutora, capaz de encantar gerações. Ainda que forjada, essa tradição não pode ser simplesmente descartada: ela cumpriu e ainda cumpre, um papel importante na formação da identidade regional gaúcha e na projeção do estado no imaginário nacional.
Esse bairrismo, quando restrito ao campo do folclore, da disputa simbólica ou do orgulho regional, é até saudável. Ele fortalece vínculos, cria pertencimento e ajuda a preservar manifestações culturais. O problema surge quando o orgulho deixa de ser cultural e passa a flertar com a ideia de superioridade.
É justamente nesse ponto que o olhar se volta para Santa Catarina. Diferentemente do Rio Grande do Sul, o estado vizinho nunca consolidou uma identidade regional única e amplamente reconhecida. Sua formação populacional diversa, marcada por fortes influências alemãs, italianas e portuguesas, especialmente no litoral, produziu uma sociedade plural, mas sem um mito fundador unificador. Nos últimos anos, observa-se ali um movimento intenso de busca por identidade própria. Em tese, algo legítimo e natural.
No entanto, é nesse processo que emerge um fenômeno preocupante. Em vez de uma identidade cultural inclusiva, o que começa a se desenhar é uma narrativa de superioridade racial, social e econômica. Crescem manifestações explícitas ou veladas, que exaltam a “branquitude”, a suposta maior escolaridade e um pretenso refinamento moral como marcas distintivas do catarinense. Esse discurso, quando normalizado, deixa de ser apenas orgulho regional e passa a alimentar preconceitos e preceitos perigosos.
A consequência direta desse processo é a formação de uma geração educada sob a lógica da exclusão e o que prevalece, é o sentimento de sociedade mais branca, mais “pura” e mais “civilizada”. Esse tipo de construção identitária não é apenas equivocada do ponto de vista histórico e social, é também um caminho conhecido para a intolerância, o autoritarismo e o aprofundamento das desigualdades.
O Rio Grande do Sul, com todas as suas contradições e exageros bairristas, ainda mantém algum grau de convivência com a diversidade social, racial e política. Sua soberba é mais retórica do que estrutural. Já em Santa Catarina, o risco parece mais concreto e a tentativa de edificar uma identidade baseada em critérios raciais e sociais aponta para um modelo excludente que merece atenção, crítica e vigilância.
Identidade cultural, pode e deve ser fonte de pertencimento. Mas quando ela se transforma em instrumento de hierarquização humana, deixa de ser cultura e passa a ser ameaça. O mundo já viu coisas parecidas e os resultados, parecem já terem sido esquecidos.
Bado Jacoby, apresentandor e repórter da Start Comunicação

































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