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A maturidade tem um quê de golden - Por Nana Vier

há 2 horas
2 min de leitura

Minha golden retriever, Madá, nunca perguntou se estava na idade de se jogar numa poça. Viu água, entrou. Recebeu carinho, se esparramou. Fez uma arte, seguiu a vida. Não passou a madrugada revendo a cena, imaginando o julgamento dos outros cães ou prometendo ser uma versão melhor de si na segunda-feira.


Ouvi uma comparação bem-humorada entre esse jeito de viver e o princípio do prazer, de Freud. A ideia rende uma boa conversa, desde que ninguém transforme o cachorro em paciente de divã. Madá não precisa de análise. Quem precisa explicar por que sente culpa até quando descansa somos nós.


Passei a pensar que chegar aos 50 tem alguma coisa de conquistar o direito de ser um pouco golden. Depois de décadas obedecendo ao “pega mal”, ao “o que vão dizer” e ao “isso não é para a tua idade”, a gente começa a desconfiar de tanta regra sem assinatura.


Aos 20, eu queria ser aceita. Aos 30, precisava dar conta. Aos 40, tentava equilibrar os pratos sem deixar ninguém perceber o peso. Depois dos 50, comecei a perguntar quem tinha colocado tanta louça nas minhas mãos. E por que eu continuava carregando pratos que nem eram meus.


Não significa sair mordendo móveis ou entrar no lago de roupa. Embora haja dias em que a segunda opção pareça excelente. Significa reconhecer o que nos faz bem sem preparar uma defesa de vinte páginas. Dançar porque a música é boa. Viajar sem esperar o cenário perfeito. Recusar um convite sem apresentar atestado de cansaço.


A maturidade também muda nossa relação com os erros. Já fizemos escolhas ruins, confiamos em quem não merecia e dissemos coisas que dispensavam microfone. Aprender com isso é necessário. Reencenar cada vergonha antes de dormir é trabalho extra sem remuneração.


Madá deita de barriga para cima porque confia. Nós levamos meio século para entender que baixar a guarda perto de quem nos ama não diminui ninguém. Há força em pedir colo, admitir medo e aceitar cuidado. A pose de autossuficiência, além de cansativa, não abraça de volta.


Claro que envelhecer não distribui sabedoria automaticamente. Tem gente que apenas troca a juventude pela certeza de ter razão. Maturidade exige disposição para rever ideias e abandonar o prazer de fiscalizar a vida alheia.


Quero os próximos anos com mais presença e menos ensaio. Um vinho com amigos, uma conversa na varanda, um baile com meu marido. Madá já sabe aproveitar uma tarde boa. Eu também não vou desperdiçar a minha. O tempo que tenho merece ser bem vivido.


Nana Vier, é professora e escritora

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