A peculiar e cômoda arte de ser oposição sendo o próprio governo - Por Bado Jacoby
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- há 4 horas
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A política de São Leopoldo vive um roteiro pouco convencional, embora não totalmente inédito. A vice-prefeita eleita, Regina Caetano (PP), rompeu politicamente com o governo do qual faz parte e passou a adotar postura crítica pública em relação à própria administração. O movimento cria uma situação singular: a de ser, simultaneamente, governo e oposição.
O desfecho não surgiu do nada. Nos bastidores, relatos dão conta de que as divergências começaram ainda durante a campanha eleitoral que elegeu a chapa vencedora e se intensificaram após a posse. Diferenças de condução política, espaços de protagonismo e disputas internas teriam alimentado um distanciamento gradual. O rompimento, agora explícito, apenas formaliza um processo que já vinha sendo desenhado.
Hoje, Regina se mantém afastada das atividades executivas da Prefeitura e concentra energia quase integralmente em sua pré-candidatura a deputada federal. É uma escolha estratégica. Ao se descolar do cotidiano administrativo, preserva-se de desgastes da gestão e passa a ocupar um campo confortável: o da crítica interna, com liberdade para apontar falhas sem carregar, no discurso, o ônus das decisões.
Enquanto isso, o prefeito Heliomar Franco e a primeira-dama e secretária de Desenvolvimento Social, Simone Dutra, optaram por não responder diretamente aos ataques. A estratégia parece ser a de realinhar a administração, evitar a amplificação do conflito e concentrar-se na gestão. O silêncio calculado pode indicar prudência, ou a avaliação de que o embate público só fortaleceria o discurso da vice.
Governo paralelo?
Nos corredores políticos, se vê de maneira explicita, que Regina se aproximou ou pelo menos não dispensa aproximações de setores descontentes com a atual administração, incluindo dissidentes e antigos críticos do grupo governista. A composição de um núcleo político paralelo, ainda informal, sugere tentativa de construir base própria, mirando o cenário eleitoral de 2026.
Trata-se de uma estratégia ousada. Romper com o próprio governo e até com seu partido a nível municipal, pode conferir visibilidade e discurso de independência, mas também pode ser interpretado como movimento de conveniência eleitoral.
Enquanto isso, a oposição tradicional observa com relativa tranquilidade. Afinal, quando o embate se instala dentro do próprio Executivo, o trabalho externo diminui e é facilitado. A história política local já testemunhou enredos semelhantes, como no período do ex-prefeito Anibal Moacir e seus trágicos "senhores da excelência em gestão", quando conflitos internos produziram ruídos e fragmentações que marcaram negativamente a governabilidade.
Autofagia política
Ser oposição estando no governo pode parecer sinal de autonomia, mas também pode configurar um processo de autofagia política, quando o desgaste interno corrói a própria base que sustenta o poder. A tradição e a experiência política sabem que “ombro amigo” e solidariedade, nesse tipo de caso, na maioria das vezes, têm como objetivo maior destruir ainda mais e avaliar o que se pode tirar de vantagem desse conflito político. Quem ainda não entendeu, basta observar as movimentações da chamada “confraria do ralo”.
A vice-prefeita segue no cargo até o último dia do mandato. Formalmente, integra o governo. Politicamente, move-se como antagonista. A cidade, por sua vez, observa. O que está em jogo não é apenas uma disputa de narrativas, mas a estabilidade administrativa de um município que enfrenta desafios estruturais importantes.
No fim, a pergunta que paira sobre o cenário leopoldense é simples: o movimento produzirá capital político ou desgaste acumulado? A resposta virá com o tempo e com as urnas. Até lá, São Leopoldo convive com a peculiar e, para alguns, cômoda condição de ter uma vice-prefeita que faz oposição ao próprio governo.
Bado Jacoby, é apresentador e repórter da Start Comunicação

























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