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A Professora que eu sonhei ser e a que me tornei - Por Daniela Bitencourt Andara

Não lembro exatamente o dia em que decidi ser professora. Mas meu fascínio pelo magistério iniciou cedo. Fascínio esse, que não tem explicação, só mora na gente. Eu brincava de dar aula ao meu irmão e ao meu primo. Negociava essa brincadeira com eles, para brincar de outras que eles tinham mais interesse. Tudo isso, antes mesmo de entender o que, de fato, era ensinar. E quando eles não aceitavam tal negociação, eu organizava cadernos imaginários, chamava alunos invisíveis e repetia, com a maior seriedade do mundo, aquilo que eu via minhas professoras fazerem.


Ser professora, para mim, era uma profissão encantada.


Cresci com esse sonho intacto, desses que a gente não negocia com a vida. Entrei no curso de magistério com brilho nos olhos, acreditando que estava entrando em um lugar sagrado. E, de certa forma, estava mesmo.


Naquela época, era preciso uma entrevista para poder cursar, e nela a realidade resolveu sentar na minha frente e puxar conversa.


A pergunta veio dura, direta e sem rodeios:

— Tu sabes que professora ganha pouco?


E eu, com uma coragem ingênua de quem ainda não tinha sido atravessada pelo mundo, respondi:

— Eu gosto tanto, que nem precisava receber salário para ser professora.


Lembro do olhar da professora Renata (ficarei feliz se ela estiver lendo essa crônica!). O olhar, não foi de deboche, nem de julgamento. Foi um olhar que carregava história. Experiência. Houve um breve silêncio. E então ela sorriu e disse:

— Daqui um tempo, quando fores professora, a gente conversa.


Naquele dia, eu não entendi bem o que ela quis dizer.


Hoje, eu compreendo.


Esses dias, vendo o CEPROL negociando o dissídio, lembrei daquela conversa. E me dei conta de que aquela menina que dizia que não precisava ser remunerada, não estava errada no amor, mas não conhecia a luta, que muitas vezes, no Brasil, é preciso para garantir direitos.


Claro que minha visão mudou. E precisava mudar.


Porque amar a profissão, infelizmente, não paga nossas contas.

Porque dedicação não deveria ser confundida com sacrifício.

Porque vocação não pode ser usada como desculpa para desvalorização.


Hoje, prestes a me aposentar, eu carrego dois sentimentos que caminham lado a lado: O primeiro, como já foi descrito, é o amor. Esse continua grande e intacto. Eu ainda acredito na educação, ainda me emociono com pequenas e grandes conquistas, ainda vejo beleza onde muitos já não enxergam mais.


O segundo é a consciência. Aprendi, com o tempo, que ser professora também é resistir. E, muitas vezes, levantar a voz e exigir respeito. É entender que a nossa importância não pode ser medida pelo contracheque, mas também não pode ser ignorada por ele.


Hoje, para mim, ser Professora, é viver entre o encantamento e o cansaço.

Entre o orgulho e a luta.

Entre aquilo que a gente sonhou… e aquilo que a gente precisou aprender a enfrentar.


Se eu pudesse voltar naquela entrevista, talvez eu respondesse diferente.


Diria que eu sei que professora ganha pouco.

Mas que isso precisa mudar.


Diria que amo tanto essa profissão que quero vê-la respeitada, valorizada e digna para quem escolhe vivê-la.


Muitos dias, penso que ainda estou respondendo à professora Renata: em cada aula dada, em cada cansaço escondido, em cada vez que escolho continuar.


E quando eu finalmente encerrar esse ciclo, levando comigo tantos nomes, histórias e pequenos mundos que ajudei a construir, acho que vou entender por completo o que ela quis me dizer lá atrás.


E, quem sabe, em silêncio, eu também sorria.


Não porque foi fácil.

Mas porque, apesar de tudo, valeu cada instante.


Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo

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