A soberba perde antes do apito inicial - Por Daniela Bitencourt Andara
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Existe um certo tipo de pessoa, que entra em qualquer ambiente como se a vida lhes devesse continência.
Quando chegam em alguns ambientes, sentam-se mais altas do que as cadeiras. Falam mais alto do que as próprias ideias. E, cumprimentam apenas quem consideram importante. Confundem respeito, impondo medo e admiração cobrando obrigação.
Esquecem de que, todos nós somos passageiros da mesma viagem.
Ninguém chega nesta vida levando títulos, patrimônio ou sobrenome. E, no fim, o que cabe na nossa mala, é apenas a forma como fazemos os outros se sentirem.
Talvez por isso a soberba me pareça tão estranha. Ela exige um esforço grande para sustentar uma grandeza que o tempo insiste em desmentir.
Assistindo ontem o jogo entre Argentina e Cabo Verde, pensei muito nisso:
Dias antes do jogo, muita gente já havia escrito o placar. A Argentina golearia! Cabo Verde apenas cumpriria seu compromisso. Era como se a história, o peso da camisa e a tradição bastassem para decidir o resultado.
Mas o futebol, esse cronista da vida, adora rasgar roteiros prontos.
Cabo Verde não venceu a partida. E, mesmo assim, saiu do campo, maior do que entrou. Jogou com vontade, com coragem, organização e uma humildade que não diminuía seu talento, apenas o tornava mais bonito. Foi aplaudido de pé por quem, minutos antes, talvez nem soubesse apontá-lo no mapa.
Foi impossível não se emocionar e pensar em quantas vezes fazemos o mesmo com as pessoas.
Há quem seja tratado como favorito antes mesmo de demonstrar caráter. Há quem seja ignorado antes mesmo de abrir a boca. Julgamos pela roupa, pelo cargo, pela fama, pelo número de seguidores, pelo endereço, pelo sobrenome....
Esquecemos que a vida não distribui competência, dignidade e bondade por currículo.
A soberba, para alguns, convence de que são maiores do que alguém. A humildade nos lembra que ninguém é maior que ninguém.
No fim das contas, a existência é breve demais para ser desperdiçada olhando os outros de cima. Todos estamos caminhando para o mesmo destino, cada um carregando suas dores invisíveis, suas batalhas silenciosas e seus sonhos.
Acredito que a maior vitória da vida seja terminar como Cabo Verde terminou o jogo de ontem: sem precisar humilhar ninguém para ser lembrado. Sem precisar diminuir o outro para receber aplausos.
Porque o tempo nunca erra, sempre apita o fim. E, quando o estádio da vida se esvazia, sobra apenas uma pergunta:
Você foi importante? Ou apenas se achou importante?

Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo
























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