A vida paralela dos grupos de WhatsApp - Por Magali Schmitt
Há um grande estudo sociológico em curso diante dos nossos olhos — e, ironicamente, dentro dos nossos celulares. São os grupos de WhatsApp, esse laboratório espontâneo de comportamentos onde todo mundo, cedo ou tarde, acaba revelando alguma coisa de si. Apesar de todo grupo nascer com uma finalidade clara, muitos perdem a razão de ser. Eu sou a doida dos grupos: por mim, grupo da festa deve ser encerrado depois da festa. O mesmo vale para o jantar de Natal, o aniversário do sobrinho ou qualquer evento com data para acabar. Mas quase nunca é assim. E ainda tem o grupo do grupo, aquele para onde a gente migra quando quer evitar a chatice de um dos membros que não entendeu nada da vida até agora e acha de brigar por política.
Quem não tem ao menos um grupo onde só circulam bom dia e boa noite não está bem relacionado. Tem o carentão que manda áudio de quatro minutos, a fundamentalista do exercício físico, o que responde tudo com joinha e aquele que some por meses e volta como se tivesse saído para comprar pão. Do nada, alguém surge com um assunto, o grupo incendeia e parece que finalmente vai. Mas hiberna de novo em seguida. Tentar marcar alguma coisa, então, é quase como ganhar sozinho na Mega da Virada. Parece mais fácil marcar uma reunião com Donald Trump do que reunir os primos ou a turma da faculdade. Bom mesmo era o tempo em que a gente ligava — se a pessoa tivesse telefone — e combinava uma reunião-dançante na garagem, às oito. A notícia se espalhava, sem confirmação de leitura, sem enquete, sem “eu não como carne”, sem “não vou se não tiver estacionamento coberto”. Às oito, todo mundo estava lá. Quem não fosse era zoado e vida que segue.
Agora, temos também o espião do grupo. Aquele que está lá desde a criação, não fala, não interage, não se manifesta, mas lê tudo e não sai. Todos até esqueceram que ele existe. Me pergunto se arquivou o grupo, se não tem coragem de sair ou se quer ficar de bico mesmo. Tem o que vai e volta: surta, sai, depois pede para entrar de novo. E há ainda o curioso que repassa um monte de bobagem, não acompanha a conversa e, horas depois, pergunta exatamente aquilo que foi explicado três mensagens acima. Ou chega atrasado comentando, com entusiasmo, tudo o que os outros já comentaram, resolveram e esqueceram.
Os subgrupos, por sua vez, criaram uma vida subterrânea. Há o grupo sem o chefe, o grupo sem o parente inconveniente, o grupo dos que realmente vão e o grupo criado apenas para comentar o grupo principal. Eu, por exemplo, estou em quatro grupos chamados Mulheres. Um prato cheio para dar uma furada e falar mal da pessoa errada no lugar errado. Assim, vamos criando pequenos mundos paralelos que só existem no virtual, mas revelam muito sobre quem somos e sobre este tempo em que pertencemos a espaços que quase não frequentamos. O mais curioso é que sair de um grupo ainda parece um gesto de rebeldia. A gente silencia, arquiva, ignora centenas de mensagens — mas permanece. Talvez porque, no fundo, desmanchar um grupo seja admitir que alguma coisa acabou. E nós nunca fomos muito bons nisso.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

























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