As pequenas despedidas - Por Magali Schmitt
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Há uma crueldade discreta na vida: ela quase nunca avisa quando alguma coisa está acontecendo pela última vez. Um dia você carrega seu filho no colo, no outro ele já alcança o armário sozinho. E a gente nem percebe exatamente quando, entre uma coisa e outra, a mudança aconteceu.
Tudo parece seguir essa lógica fria. A turma de amigos se despede e cada um toma um rumo diferente. Hoje pode ser a última vez que você entra na casa dos seus avós e encontra os dois juntos. Pode ser o carinho derradeiro no seu cãozinho. Há também as despedidas oficiais, bem delimitadas por abraço demorado, mala, aeroporto e promessas de manter contato. Mas as pequenas despedidas cotidianas e silenciosas que só descobrimos tempos depois significam muito.
Enquanto isso, lutamos pelas primeiras vezes. O primeiro beijo, o primeiro emprego, a primeira viagem, o primeiro filho, a primeira casa. Não está errado, longe disso. Só penso que algumas coisas essenciais podem se perder ou ser desperdiçadas pelo simples fato de acreditarmos que vão se repetir. Jogamos a conversa com nosso pai para o domingo que vem, o sorriso para depois, guardamos o pedido de desculpas no bolso daquele casaco que ficará no armário até o próximo inverno.
O encontro com os amigos, um telefonema, um café adiado, uma visita que fica para outro dia: negativas amparadas na certeza de novas oportunidades que nem sempre virão. Até o dia em que elas desaparecem, uma a uma. Por isso, acredito que sempre vale fazer um esforço, vencer a preguiça, o cansaço da hora. Não é preciso viver em estado permanente de despedida. Porém, reconhecer que a rotina é menos garantida do que parece pode ajudar.
Chego até aqui e sinto que este texto é mais para mim do que para você. Pretendo escutar uma história repetida com menos impaciência, prestar atenção genuína nas conversas, olhar de verdade para a casa antes de fechar a porta, sentir o perfume do jardim. Em algum momento, muitos desses gestos terão sido o último. E, quando perceber quais foram, seria bom experimentar a sensação de que estive realmente ali.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.
























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