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As portas que nunca abri - Por Nana vier

há 2 minutos
2 min de leitura

Tenho uma mania quando viajo. Fotografo portas. Não apenas aquelas imponentes, de palácios e igrejas. Gosto especialmente das antigas, de madeira descascada, fechaduras enferrujadas, maçanetas gastas e pinturas que denunciam a passagem do tempo. Posso estar diante de uma paisagem maravilhosa, mas basta encontrar uma porta interessante para interromper o caminho.


Quem costuma viajar comigo já conhece essa paixão. Tanto que, quando alguma porta bonita me escapa aos olhos, sempre aparece alguém para avisar: “Olha lá que porta linda!”. E pronto. Já sabem que vou parar, fotografar, observar os detalhes e contemplar aquela porta como quem encontrou um pequeno tesouro. Virou uma espécie de brincadeira entre meus companheiros de viagem. Eles também aprenderam a procurar portas.


Sou daquelas pessoas que trazem lembranças de todos os lugares por onde passam. Coleciono ímãs de geladeira, cartões-postais e pequenos objetos que, espalhados pela casa, me fazem revisitar viagens inteiras. Mas as portas têm um lugar especial nessa coleção. Não posso trazê-las na mala, então guardo suas fotografias. São lembranças de lugares onde estive e de histórias que nunca conheci.


Gosto de imaginar quem viveu atrás delas. Quantas crianças correram por aqueles corredores? Quantos amores começaram com uma batida tímida? Quantas despedidas aconteceram naquela soleira? Quantas pessoas saíram prometendo voltar?


Uma porta antiga não é apenas madeira, ferro e tinta. É uma testemunha silenciosa da vida. E o mais curioso é que ela nunca conta nada. Deixa tudo por conta da nossa imaginação.


Em cidades antigas, encontro portas que parecem resistir ao tempo por pura teimosia. Algumas são coloridas, outras discretas, quase escondidas entre paredes de pedra. Todas despertam minha curiosidade.


Com o tempo, percebi que essa coleção também diz muito sobre a vida.


Passamos os anos atravessando portas. A da casa dos nossos pais, por onde saímos acreditando que o mundo nos esperava. A do primeiro emprego, que abrimos com insegurança e esperança. A da casa escolhida para construir uma família. A do quarto dos filhos, que um dia fica silencioso porque eles cresceram e foram abrir suas próprias portas.


Algumas fechamos aliviados. Outras gostaríamos de atravessar novamente, nem que fosse por cinco minutos, apenas para ouvir uma voz, sentir um cheiro ou reencontrar alguém.


E existem aquelas que nunca abrimos. Por medo, por escolha ou simplesmente porque a vida nos levou por outro caminho.


Hoje entendo melhor meu encantamento. Não fotografo apenas portas bonitas. Fotografo a passagem do tempo, a curiosidade pelo desconhecido e as histórias que minha imaginação inventa diante de uma fechadura antiga.


Continuarei parando diante delas, mesmo que meus companheiros de viagem precisem esperar mais alguns minutos. Afinal, os monumentos contam a história dos grandes acontecimentos. As portas guardam a história das pessoas comuns.


E são essas histórias que mais me interessam. Porque toda porta tem dois lados. E a vida acontece justamente entre a coragem de sair e a alegria de ter para onde voltar.


Nana Vier, é professora e escritora

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