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Chega de verdades, eu preciso de ilusões (parte 2) - Por Magali Schmitt

Às vezes o ar fica denso, a realidade pesa. Nessas horas, me agarro à escrita como a um bálsamo, uma boia lançada ao mar. Porque, em alguns momentos, me sinto um náufrago à espera de resgate. No teclado organizo as angústias que me habitam, alinho pensamentos tortos, racionalizo o que insiste em doer.

Pode ser apenas uma impressão enviesada, mas de tempos em tempos somos atravessados por uma enxurrada de más notícias e episódios que assustam, que nos fazem desacreditar do rumo que estamos seguindo. Por isso, vez ou outra, faz bem se permitir a utopia, migrar — ainda que por instantes — para a terra do faz de conta.


As civilizações são circulares. Repetem padrões, erram os mesmos erros, regridem, desaparecem. Isso não é achismo: está nos livros, na memória coletiva, nas lendas transmitidas de geração em geração. Evoluímos (será?), mas algo ficou marcado no nosso DNA. Andamos em carros elétricos, falamos com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, por meio de um aparelhinho que cabe na palma da mão.

Ainda assim, aquele gene ancestral insistente segue ali, cutucando a casca da ferida. À espreita, com o dedo no detonador. É como molho de tomate em toalha branca: por mais que se lave, a mancha persiste. Quase imperceptível — mas visível o suficiente para não ser esquecida. Ao menor descuido, boom! E o efeito cascata se instala.


Os exemplos estão aí. Feminicídio, crueldade com animais, policiais matando cidadãos indiscriminadamente, poderes que ultrapassam seus limites, intolerâncias religiosa, de gênero e política. Guerra. Valores em ruínas, o individual acima do coletivo. A rede social transformada em fim em si mesma: vidas que começam e terminam no ambiente virtual, esse território fantástico onde todos são bem-sucedidos, bonitos e felizes.

A sucessão de recordes vergonhosos grita. Indica que chegamos ao vértice, ao ponto mais alto. E a história — sempre ela — mostra que, dali em diante, o movimento costuma ser de queda. Já vimos esse filme antes. Muitas vezes.

O que resta é a pergunta incômoda: será que, desta vez, ainda teremos tempo de reverter o curso — ou vamos insistir no erro até o impacto final?













Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

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