Coisa que não tenho mais idade - Por Nana Vier
Tenho uma vantagem sobre muita gente: sou jovem há mais tempo. E essa experiência me trouxe algumas certezas. Sei do que gosto, do que não gosto e, principalmente, do que já não estou disposta a fazer apenas para agradar. Continuo adorando uma boa festa, uma viagem, uma mesa cheia de amigos e uma conversa que atravessa a noite. Mas perdi a disposição de fingir entusiasmo por aquilo que não me interessa.
Lembro de uma das primeiras vezes em que recusei um convite simplesmente porque não queria ir. Não tinha outro compromisso, não estava doente e não precisava trabalhar. Queria passar o fim de semana em casa, com meu marido e minha filha. Quando perguntaram por que não iria, respondi exatamente isso. Sem desculpas, histórias inventadas ou grosseria. A reação foi de surpresa, como se ficar em casa com a própria família não fosse motivo suficiente. Naquele dia descobri uma liberdade maravilhosa: a de não precisar justificar minhas vontades.
Também tenho minhas convicções sobre comemorações. Sou de um tempo em que convidar alguém para uma festa significava querer sua companhia. Hoje, recebo com certa perplexidade convites para aniversários e outras celebrações acompanhados de uma lista de contribuições. Um leva a bebida, outro os salgados, outro ajuda com o valor do espaço. E ainda tem presente! Não tenho nada contra amigos que combinam dividir as despesas de um encontro. Isso é diferente de organizar uma festa e mandar a conta para os convidados. Se não tenho condições de oferecer uma comemoração, faço algo mais simples: um bolo em casa, um café, uma reunião pequena. O tamanho da festa nunca foi medida de afeto.
Na cozinha, por outro lado, continuo fazendo a maior bagunça. Adoro preparar uma receita, experimentar temperos e reunir pessoas ao redor da mesa. Já não me preocupo se usei três panelas a mais ou se a sobremesa não ficou digna de fotografia. Quero comida gostosa, risadas e gente à vontade. A louça pode esperar. As boas conversas, nem sempre.
Minha geração aprendeu a ser prestativa, a não contrariar, a aceitar mais um compromisso e a sorrir mesmo quando a vontade era ir embora. Fiz isso muitas vezes. Hoje continuo sendo educada, generosa e disponível para quem amo, mas não confundo consideração com obrigação.
Não fiquei antissocial, tampouco perdi a vontade de viver intensamente. Continuo fazendo planos, querendo conhecer lugares, dançar, aprender e descobrir coisas novas. Só não tenho interesse em ocupar meu tempo com situações que não me fazem feliz.
Com o tempo, aprendi que posso mudar de opinião, escolher melhor onde estar e preferir o sofá de casa a um programa disputadíssimo. Isso não diminui minha curiosidade nem meu carinho pelas pessoas; apenas tornou minhas escolhas mais conscientes.
Estou cheia de certezas, mas continuo aberta às surpresas da vida. Sei que ainda vou mudar de ideia sobre muitas coisas. O que permanece é o desejo de viver de acordo com o que sinto, sem transformar cada escolha em uma explicação para os outros.
Não perdi a educação nem a generosidade. Apenas entendi que posso ser gentil sem dizer sim para tudo, e que meu tempo, minha paz e minha companhia também têm valor.

Nana Vier, é professora e escritora

























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