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Do Biotônico Fontoura à caneta emagrecedora - Por Nana Vier

Tem uma frase que ficou comigo esses dias, dessas que a gente guarda e volta nela sem perceber: mãe cria como pode, mas quase sempre acerta mais do que erra. Não sei exatamente de onde veio, mas fez sentido na hora.


Outro dia, minhas irmãs e eu entramos numa conversa dessas que começam despretensiosas e terminam em teorias bem duvidosas. O assunto era o tal do Biotônico Fontoura. Em algum momento, chegamos à conclusão de que talvez, só talvez, se a nossa mãe não tivesse insistido tanto naquele elixir milagroso e engordativo, hoje não estaríamos brigando com a balança, cogitando cirurgia, caneta e a necessidade constante de manter uma rotina de exercícios físicos. Não é exatamente uma tese científica, claro. É daquelas ideias que só fazem sentido na mesa da cozinha.


E aí vieram as lembranças.


O xarope de melado com guaco e, juro, prego enferrujado. Aquilo não era remédio, era quase um ritual de sobrevivência. Tinha também o sal amargo, que não só limpava o intestino como, na nossa cabeça de criança, fazia uma limpeza completa no pensamento. Era tomar e repensar a vida inteira.


E tinha a comida. Nada de frescura, nada de moda. Café da manhã com polenta, ovo frito, linguiça e pão caseiro ainda morno, daqueles que a gente cortava sem muita cerimônia e comia com gosto. No almoço, feijão todos os dias, sem negociação, e muita salada, que a gente aprendia a comer mais pela insistência do que por vontade. Era simples, direto, sem rótulo bonito nem promessa milagrosa. E talvez esteja aí uma parte da resposta que a gente vive tentando encontrar hoje, entre uma dieta da moda e outra.


O curioso é que, de algum jeito, funcionava. Ou pelo menos parecia funcionar. A gente quase não adoecia. Era banho de chuva, pé descalço, sol na cabeça, e nada derrubava. Hoje, alguém diria que faltava cuidado, que sobrava imprudência. Mas, naquele tempo, era o que havia. E, de certa forma, dava conta.


Plano de saúde não fazia parte da nossa realidade. Médico era sempre a última alternativa, quando já não havia chá, simpatia ou insistência que resolvesse. O hospital entrou na nossa história uma única vez, por causa de uma apendicite. Ali, não tinha Biotônico que salvasse.


Com o tempo, fui entendendo melhor. Era medo. Medo de não ter acesso a um plano de saúde, de não conseguir pagar uma consulta particular, de não saber o que fazer se algo realmente ficasse sério. Então ela cuidava do jeito que dava, com o que tinha nas mãos. E, no fim, cuidava muito.


Crescemos fortes. Saudáveis. E, sim, talvez um pouco neuróticas com a balança. Mas também com uma coleção de histórias que ainda hoje fazem a gente rir.


É fácil olhar para trás com os olhos de hoje e achar que faltou isso ou aquilo. Difícil é reconhecer que, mesmo sem recursos, existia ali um cuidado verdadeiro, quase intuitivo.


Se hoje a balança ainda nos chama para uma conversa, paciência. Somos também fruto de uma infância cheia de vida, de quintal, de exageros bons e de um amor que não precisava de manual para dar certo.


E, se alguém olhar de fora e achar que a gente não é muito certa, talvez tenha um pouco de razão.


Mas só um pouco.


Nana Vier, é professora e escritora

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