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Documentário sobre o médico leopoldense João Carlos Haas Sobrinho, morto pela ditadura, será lançado nesta semana em São Leopoldo e Porto Alegre


Imagem: divulgação.

O documentário Doutor Araguaia, que conta a história do médico João Carlos Haas Sobrinho, morto pela ditadura na região do Bico do Papagaio, em Xambioá, nas margens do rio Araguaia, em 1972, está com o pré-lançamento marcado para esta quarta-feira (13), às 19h30, em São Leopoldo, cidade onde nasceu e se criou o médico.


O evento será no Cinesystem do Shopping Bourbon, na rua Primeiro de Março, 821. Em Porto Alegre o filme será apresentado no sábado (16), na Casa Diógenes de Oliveira, na rua Lopo Gonçalves, 495, na Cidade Baixa. Após as exibições, haverá conversa com a plateia.


A produção é independente, da TG Economia Criativa, dirigida pelo documentarista Edson Cabral, com roteiro, pesquisas e argumento da irmã do protagonista, Sônia Haas. A obra contou com uma equipe multifuncional composta por quase 30 profissionais.O documentário foi gravado nos Estados de São Paulo, Maranhão, Pará, Tocantins, Bahia, Rio Grande do Sul e Distrito Federal.


Com duração de 90 minutos, apresenta cinco músicas inéditas e cerca de 50 entrevistas. A verba veio da edital 001/2023 da Lei Paulo Gustavo/Tocantins. Em complemento aos recursos da LPG, conta também com o apoio das Prefeituras de São Leopoldo (RS) e Porto Franco (MA).


Em 2023, Diego Moreira e Gabriel Kolbe publicaram, pela Editora Alameda, a HQ, Revista em Quadrinhos, Doutor Araguaia – A História de João Carlos Haas Sobrinho, que se definiu, também, como título do documentário. Após as pré-estreias no RS e no Pará, o próximo passo da produção será a obtenção do Certificado de Produto Brasileiro (CPB) na Ancine e, para 2025, circulação em festivais de cinema, nacionais e internacionais, além de cine-debates em eventos relacionados à medicina comunitária e os direitos humanos.


Sônia Haas é uma publicitária gaúcha que vive na Bahia e luta há muitos anos como outros familiares pela recuperação dos restos mortais de seu irmão, negados até hoje pelo Estado brasileiro. Ela lembra que seu irmão, nascido em 1941, em São Leopoldo, resolveu, como tantos outros jovens, lutar pela justiça social. Em 1963, João foi presidente do Centro Acadêmico da Medicina da UFRGS e em abril de 1964, nos primeiros dias depois do golpe, foi preso quase um mês junto com vários outros estudantes. Embora de formação jesuítica, João, como muitos de seus colegas, filiou-se ao PCdoB para enfrentar o regime militar.


Como lembra Sônia, após concluir seu curso, João Carlos tornou-se médico pioneiro nas regiões de Porto Franco e Xambioá (TO), onde comunidades completamente desassistidas tiveram, pela primeira vez, a oportunidade de serem atendidas por um profissional da saúde. "Conforme a apuração e as entrevistas feitas para o filme, descobrimos que João pôde, mesmo com recursos precários, cuidar e salvar um número incontável de vidas entre 1964 e 1972. Sua atuação fez com que fosse amado e respeitado pelos camponeses que, além da pobreza, também sofriam diretamente com as arbitrariedades e descaso do regime de exceção", explica.


Membro da Guerrilha do Araguaia, movimento que reuniu dezenas de comunistas do PCdoB, João Carlos, assim como a maior parte do grupo, foi assassinado na região do Bico do Papagaio, que perpassa os Estados do Maranhão, Tocantins e Pará. Até hoje, os restos mortais de João Carlos – assim como da maioria dos guerrilheiros – não foram entregues aos familiares, assim como não houve punição aos responsáveis.


"Eu enxergo essa minha busca como uma missão"


Sônia conta que alguns moradores de Xambioá ainda lembram de quando João chegou machucado, já morto. “Eles jogaram o corpo no chão para o pessoal ver e aí as mulheres começaram a trazer velas e flores para velar o João ainda na frente da delegacia. No entanto ninguém sabe onde foi enterrado", conta a irmã do médico.


“Eu enxergo essa minha busca pelo João Carlos, pela história dele e pelo resgate de sua dignidade, como uma missão. Então, lançar esse documentário é parte dessa missão, uma parte muito importante, simbólica, que vai registrar toda a caminhada dele. Fomos aos lugares onde ele morou, falamos com as pessoas que foram pacientes dele, tivemos muitos encontros interessantes que simbolizaram reencontrar o João Carlos”, diz Sônia. “Visitando esses lugares e conversando com essas pessoas, sentimos que o João Carlos está vivo”, conclui.


O filme


Edson Cabral, o diretor, lembra que desde a primeira vez em que conversou com Sônia percebeu “a determinação, a coragem e a resiliência de quem completa cinco décadas procurando informações do seu querido irmão que, desde 1966, nunca mais retornou, deixando para trás saudade, tristeza e uma grande incerteza: onde estará João Carlos Haas Sobrinho?”


Sobre o processo de três anos que resultou no documentário, Cabral conta que para compor o relato, foram meses de leituras de livros, relatórios e documentos, muitos dos quais fazem parte do acervo pessoal da família Hass e da Fundação Maurício Grabois. Além disso, foram realizadas dezenas de entrevistas nas cidades de Brasília, São Paulo, Porto Franco, Xambioá, São Geraldo, Goiânia, São Leopoldo e Porto Alegre.


“Fiquei emocionado com os depoimentos de familiares, amigos, pacientes, ex-guerrilheiros, camponeses, estudiosos e lideranças do PCdoB. E posso afirmar com convicção: os vencidos foram os vencedores”, enfatiza o diretor.


Um dos pontos que norteou o seu trabalho, relata, foi a necessidade de procurar respostas a ao menos a dois vazios: o da “saudade e da perplexidade dos familiares e amigos do Sul e o da saudade e da incompreensão dos amigos, pacientes e familiares do Norte, que tiveram suas vidas transformadas ou salvas por um brasileiro exemplar. Era necessário unir esse turbilhão de amor, carinho e admiração para oferecer respostas que preenchessem esses vazios”. Desse processo, surgiu o projeto, construído em parceria com Sônia e com a Fundação Maurício Grabois.


Tocar as pessoas


Segundo o diretor, ao humanizar a história de João Carlos o documentário procura aproximar o personagem do espectador, mostrando o impacto das ações da ditadura na vida de gente comum, de gente como a gente. "Essa dimensão, aliás, está presente também no relato de um grande número de camponeses simples que puderam conhecê-lo e que viam nele alguém próximo e de confiança, que procurava, como podia, mitigar parte das mazelas do Brasil profundo", diz Cabral.


Nesse sentido, Sônia argumenta que ao contar a história de um familiar, conseguimos tocar mais as pessoas. "Ele é o meu irmão, é a minha vida. Dessa forma, acredito que quem assiste consegue enxergar um pouco mais a dor, a angústia, a tristeza e as atrocidades causadas pela ditadura militar. É um processo educativo", comenta.


Considerando o momento que o Brasil e o mundo vivem – de ascensão da Extrema Direita e da valorização de ideias autoritárias e fascistas – Sônia salienta que o relato trazido pelo documentário resgata parte da história que a sociedade brasileira precisa conhecer para não deixar que volte a acontecer. “Precisamos ter cada vez mais livros, filmes, peças de teatro, produções midiáticas que falem sobre esse assunto, para que esses acontecimentos alcancem um número maior de pessoas”, pontua.


Sônia diz estar emocionada com o término e o lançamento do documentário e com grande expectativa quanto à sua receptividade. “Estou feliz porque é, também, um ciclo que se fecha”, destaca.


Já o diretor Edson Cabral espera que o documentário “faça justiça a todos aqueles que ousaram enfrentar, com armas simples, amor ao próximo e a convicção dos seus ideais, os canhões e a arrogância dos torturadores”.


Fonte: Brasil de Fato

 
 
 

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