Era só um jantar - Por Nana Vier
- Start Comunicação

- há 7 horas
- 2 min de leitura
Outro dia alguém fez uma pergunta aparentemente inocente:
— Vamos jantar onde?
Antigamente, isso exigia duas ou três sugestões e alguém disposto a decidir. Hoje pode consumir metade da noite.
— O que vocês querem comer?
Ninguém sabe.
Uma pessoa diz que come qualquer coisa, mas não quer pizza. Outra também aceita tudo, desde que tenha estacionamento e não seja barulhento. A terceira está evitando carboidrato. A quarta quer conhecer um lugar diferente.
Pronto. Está instalada a comissão especial do jantar.
Alguém pega o celular. Começam as pesquisas. Nota no Google, cardápio, fotos, distância, estacionamento, comentários.
— Esse tem 4,7.
Parece resolvido.
— Espera. Olha o que escreveram aqui.
Uma criatura que ninguém conhece reclamou, há oito meses, que o risoto estava frio.
Restaurante eliminado. Seguimos.
Quando finalmente encontramos um lugar que parece atender aos critérios internacionais para um jantar entre amigos, alguém descobre uma foto antiga em que as mesas parecem muito próximas. Eliminado também.
Foi pensando nessas pequenas insanidades contemporâneas que percebi como conseguimos complicar coisas que antes eram absolutamente simples.
Não escolhemos mais um filme. Assistimos a trailers, consultamos avaliações, lemos comentários e, quarenta minutos depois, estamos cansados demais para assistir ao filme.
Não compramos uma cafeteira. Comparamos quinze modelos e descobrimos que existe uma discussão mundial sobre pressão em bares que desconhecíamos até aquela manhã.
Viajar também exige investigação. Antes de reservar um hotel, já conhecemos virtualmente o quarto, o banheiro, o café da manhã, a rua, a fachada e a opinião de um senhor de Manchester que esteve lá em 2024 e considerou os travesseiros decepcionantes.
Nem uma receita de bolo escapou.
Minha mãe fazia bolo com uma receita escrita num caderno, uma xícara sem medida oficial e uma confiança que hoje considero revolucionária.
Nós assistimos a três vídeos para descobrir se o ovo precisa estar em temperatura ambiente.
Ganhamos acesso à informação, e isso é ótimo. O problema começou quando passamos a acreditar que toda escolha precisa ser perfeita.
Não basta jantar. Precisamos escolher o melhor restaurante. Não basta viajar. Precisamos montar o roteiro perfeito. Não basta comprar uma blusa. Precisamos ter certeza de que não existe outra mais bonita, mais barata e com frete grátis escondida em algum canto da internet.
E, nessa busca pela decisão perfeita, estamos perdendo a leveza de simplesmente decidir.
Algumas escolhas vão dar errado. O restaurante pode ser mais ou menos. O filme pode ser ruim. A blusa pode entrar em promoção três dias depois. E o hotel pode, de fato, ter um travesseiro decepcionante.
Faz parte.
Há uma liberdade enorme em alguém finalmente guardar o celular e dizer:
— Vamos nesse.
E todo mundo ir.
Sem abrir mais dez abas, sem consultar cinquenta desconhecidos e sem transformar o jantar de sábado numa licitação internacional.
Porque a vida já tem decisões realmente difíceis. Era só um jantar. E escolher onde comer não precisava ser uma delas.

Nana Vier, é professora e escritora
























Comentários