Férias no Litoral Gaúcho - Daniela Bitencourt Andara
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- há 14 horas
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Passar férias no litoral gaúcho é sobre aceitar um acordo silencioso com o imprevisto. Nada, exatamente nada, sai como planejado e é justamente aí que mora o encanto. Veranear aqui não é para amadores, não é sobre descanso extremo, é sobre identidade. É quase um lembrete, anual, de quem realmente somos.
Este ano, Janeiro já começou sem sutileza, trazendo um calor desproporcional, exagerado, quase ofensivo, como se quisesse afirmar que está no comando, de uma das estações que mais combina com férias e a mais esperada por mim: O verão!!!!!
E, por falar em férias no litoral, não dá para iniciar sem pensar nela, a Free way. Uma das rodovias mais famosas do Rio Grande do Sul. Ela é um aquecimento emocional, abrindo caminho para o início das férias! Engarrafamento não é trânsito é tradição!!!
A seguir apresento (para quem não conhece!) algumas marcas proeminentes do litoral gaúcho (e os perrengues inesquecíveis que certamente passaremos!): Começo pelo vento "Nordestão". Ele chega sem pedir licença. Não refresca, ele comanda. Muda o rumo das conversas, vira cadeiras, transforma guarda-sol em ameaça e faz do cabelo um conceito abstrato. Qualquer tentativa de organização estética dura segundos.
O sol, intenso e impiedoso, faz sua parte também. Passa - se protetor acreditando que estamos protegidos, que está tudo sob controle, mas voltamos para casa com a pele naquele tom clássico de vermelho, digno de tomate maduro. Ombros ardem, nariz em evidência e marcas claras de onde o cuidado falhou. Um bronzeado irregular, sofrido, porém honesto. Como quase tudo por aqui.
O banho de mar é um capítulo a parte. Porque como todos os gaúchos sabem ele não é azul. É conhecido como mar "chocolatão", espesso, gelado, misterioso... Um mar que nunca tenta impressionar. Mas impressiona!!! Entramos sem ver os pés, confiando mais na nossa coragem do que na transparência, e saímos renovados, como quem participou de um ritual antigo, passado de geração em geração: entra o pé, arrepende; entra o joelho, negocia; entra até a cintura, repensa a vida; mergulha de uma vez para não passar vergonha. E então, saímos renovados, com a alma lavada e o lábios roxos.
A areia de repente queima, de repente voa...sempre encontrando o lugar mais improvável do corpo. É um jogo silencioso de provocação. A areia, então, tem vida própria: entra no lanche, no livro, no picolé da criança e na dignidade. Não importa o quanto você sacuda a toalha, a esteira, ela sempre vence.
Mesmo com todos os percalços, o gaúcho é bairrista. E com certeza, se questionares um gaúcho, ele firme, te dirás o quanto é satisfatório o veraneio no litoral gaúcho. E o quanto é maravilhoso curtir um "Chima" a beira mar (mesmo com 35° de temperatura!!!). Porque não é sobre calor, é sobre pertencimento. Suar faz parte da experiência. Reclamar também. O mate? Trocar por uma água de coco? Isso se configura em afronta!
No fim do dia, quando tudo serena, o vento desacelera e o céu se pinta de tons que nenhuma foto consegue capturar, o litoral gaúcho entrega exatamente isso: memórias simples, risadas queimadas de sol, conversas longas, silêncio bom e a certeza de estar onde se deveria estar.
Ser gaúcha é isso: é resistência e gratidão até pelos perrengues. É olhar para o litoral do Rio Grande do Sul "faceira" e sentir orgulho de cada imperfeição. Porque é nosso, é gratuito e te espera de braços abertos.

Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo































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