Férias: quando o porta-malas vira um exercício de fé e resignação - Por Nana Vier
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- 4 de jan.
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Esperamos o ano inteiro por alguns dias de pernas para o ar e pela ilusão sincera de que, desta vez, vamos conseguir descansar sem pressa. Sem despertador. Sem relógio. Sem agenda. Mas, antes de qualquer sombra, mar ou cadeira de praia, existe uma etapa inevitável: o momento em que o porta-malas do carro se transforma num verdadeiro teste de caráter, paciência e criatividade. Ali já sabemos que as férias começaram — mesmo que o corpo ainda não tenha entendido isso.
Existe um cansaço bom em arrumar as malas. Um cansaço que mistura empolgação com um leve pânico: será que esqueci alguma coisa? Protetor solar, remédios, toalhas, travesseiros — sempre os travesseiros — e o livro, porque férias sem um bom livro não contam como férias completas. Depois vem o desafio supremo: fazer caber tudo no porta-malas do carro, num exercício avançado de engenharia, fé e resignação.
Na estrada, assumo meu papel preferido: copiloto oficial. Abasteço a família com snacks, água, chimarrão, bala, chocolate e até café. Um verdadeiro banquete a bordo. Não fico entediada. Como sou medrosa com o trânsito, beirando o nervoso, vou lendo, fazendo crochê, apreciando o caminho e, claro, fotografando tudo. A estrada também faz parte das férias, mesmo quando fingimos que não.
Há anos vamos para a mesma praia. Daquelas que já nos conhecem pelo nome. O dono é os garçons do restaurante em frente ao qual montamos nosso acampamento diário nos recebem como quem recebe a família. Inclusive, é deles a casa que locamos para o veraneio. Um verdadeiro paraíso. Quando chegamos, já é aquela gritaria boa, típica da hospitalidade dos manezinhos da ilha. Atendimento de primeira, carinho e risadas garantidos.
De cara, já pedimos o bolinho de siri, iguaria típica que aguardo o ano inteiro para saborear. Depois, os dias seguem no ritmo certo: preguiça sem culpa, boa comida. Aquela música - … pé na areia, caipirinha, água de coco, cervejinhas… Nunca foi tão perfeita para o momento.
Minha filha organiza suas férias para passar o Natal conosco, o réveillon com amigos e esses dias na praia, trocando a neve dos Alpes pelo mar de água azul cristalina e morninha. Temos ainda a agradável companhia da minha irmã, do cunhado e da sobrinha. O que nos rende boas risadas, parceria para caminhadas à beira-mar — momento em que minha irmã e eu colocamos a fofoca em dia — e muitas partidas de canastra. Os homens parceiros na cerveja, as mulheres no espumante e todos no chimarrão.
É apenas uma semana. Mas basta para começarmos a fazer planos de nos mudarmos para a ilha, viver da pesca e do artesanato, rir das correrias do ano inteiro e agradecer. Quando voltamos, o porta-malas segue cheio — agora de areia, histórias e saudade. O teste de caráter acaba, mas a certeza fica: vale a pena enfrentar tudo de novo no ano seguinte, só para repetir essa mesma felicidade simples.

Nana Vier, é professora e escritora






























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