Imigração italiana comemora 150 anos
- Start Comunicação

- 18 de mai. de 2025
- 11 min de leitura

Stefano Crippa, Luigi Sperafico e Tommaso Radaelli foram os três italianos da Lombardia, região da então recém-unificada Itália, que iniciaram o processo de desbravar o interior do Rio Grande do Sul no dia 20 de maio de 1875. Neste ano, celebra-se o sesquicentenário da chegada dos três e de suas famílias a Nova Milano, distrito de Farroupilha, localidade ocupada e nomeada em homenagem à principal cidade de sua região natal.
A localidade, que fica nas proximidades da ERS 122, uma das principais rodovias que ligam a região Metropolitana à Serra Gaúcha, é marcada atualmente por pavilhões industriais, comércio e o resgate do passado. O berço da colonização italiana no RS é onde ainda vivem os descendentes de Stefano Crippa. O passar dos anos fez muita coisa mudar em Nova Milano, inclusive o sobrenome daqueles que carregam a linhagem dos primeiros imigrantes.

O que não mudou é o amor pela própria história de luta e coragem. Bisneta dos primeiros Crippa, Beatriz Bérgamo Flasch mora no mesmo imóvel que seu antepassado Stefano construiu na década de 1880 para ser casa e armazém da família. O local tornou-se um acervo que guarda a história e a cultura que trouxeram da Itália e que ajudaram a disseminar no “novo mundo”. Além dos itens materiais, ela carrega com carinho na memória as histórias contadas por seus antepassados.
“A vinda deles começa na Itália. Lá, tinha pouco emprego e pouca terra para o cultivo de grãos. E o governo ofereceu essa oportunidade para que deixassem o país e viessem para o Brasil, que seria um país rico. Então, as três famílias, que eram amigas lá onde moravam, na localidade de Omate, em Monza, nos arredores de Milão, resolveram partir para o Brasil. A viagem durou cerca de três meses e alguns dias, com muita dificuldade em função da pouca alimentação e pouca água”, contou a idosa.
As histórias da vinda, segundo ela, eram contadas de geração em geração. Ao chegarem ao Brasil, os primeiros imigrantes foram encaminhados até Porto Alegre e, da Capital, seguiram para São Sebastião do Caí, onde precisavam esperar a definição para onde seriam encaminhados. “Mas eles tiveram até bastante sorte, pois um morador indígena, chamado de Bugre, conhecia a região e se ofereceu a eles para abrir picada até chegar ao assentamento. Foi abrindo trilha que eles chegaram aqui em Nova Milano no dia 20 de maio de 1875”, completou.
Logo os imigrantes perceberam que não havia a estrutura que esperavam e que tudo precisava ser construído do zero. “Eles tiveram que caminhar com as poucas coisas que conseguiram trazer juntos. Eles cortaram algumas árvores e construíram um barracão. Nele, as três famílias moraram juntas por uns quatro anos.”
Beatriz conta ainda que o nome dado à primeira localidade, Nova Milano, fora escolhido por seu bisavô. Os primeiros anos foram de dificuldades para as famílias que deram início à colonização italiana no RS. “Eles viviam de subsistência, a partir da colheita de algumas sementes que trouxeram da Itália. A alimentação deles era composta por pinhão, peixe e algumas frutas. O governo só foi oferecer de fato a terra em 1880. Até então, eles trabalhavam, mas sem ter a certeza de que o lote seria deles”, reforçou.
Após morar alguns anos no barracão, Crippa construiu a primeira casa da família em 1880. Pouco tempo depois, em 1884, ele ergueu uma nova casa, desta vez maior. O segundo lar da família é onde Beatriz Bérgamo Flasch e seu esposo Ilário Flasch vivem e mantêm um acervo com itens utilizados pelos antepassados desde a chegada deles em Nova Milano. O casal, de uma bisneta de italianos e um neto de alemães, é também um reflexo da miscigenação e das culturas que formaram a sociedade gaúcha nos últimos séculos. “Eu amo esta casa, que foi do meu bisavô, depois do meu avô, foi do meu pai e agora é nossa. Dou muito valor para tudo isso. Por isso trabalhamos com o acervo, para que toda esta história de luta, de perseverança, trabalho e muito amor continue e não acabe morrendo aos poucos”, reforçou a idosa.
Ilário Flasch e Beatriz Bérgamo Flasch, bisneta de Stefano Crippa, mantêm, na casa construída pelo bisavô de Beatriz, um acervo com a história da família e da imigraçãoIlário Flasch e Beatriz Bérgamo Flasch, bisneta de Stefano Crippa, mantêm, na casa construída pelo bisavô de Beatriz, um acervo com a história da família e da imigração
Stéfano Crippa veio para o Brasil com 22 anos acompanhado da esposa, Natalina, de 18 anos. Por ser o mais novo entre as três famílias, foi o último a falecer, aos 80 anos, na década de 1930. Beatriz conta que a amizade entre membros das famílias Crippa, Radaelli e Sperafico segue viva mesmo depois de gerações na terra nova.
Organização das colônias
A região onde Nova Milano foi criada fazia parte da colônia Fundos de Nova Palmira, onde hoje é Caxias do Sul e cidades nos arredores, como é o caso de Farroupilha. Era a divisa entre a área que seria ocupada por italianos e os territórios de colonização alemã. Apesar disso, mesmo sendo a primeira ocupada, era chamada de forma administrativa como 3ª colônia de imigração italiana, criada em 1875.
As outras duas, que foram planejadas antes, em 1874, são as de Conde D’Eu e Dona Isabel (à época genro e filha do imperador Dom Pedro II), onde estão localizadas atualmente as cidades de Garibaldi e Bento Gonçalves. Dois anos depois, é criada a 4ª colônia, nos arredores de Santa Maria, na região central do Estado.
De acordo com a Secretaria Estadual de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, o primeiro grande ciclo migratório ocorreu entre os anos de 1875 e 1914, quando cerca de 84 mil pessoas deixaram as regiões da Lombardia, do Vêneto e do Tirol em busca de oportunidades no RS. O ápice, no entanto, foi quase uma década depois dos primeiros desbravadores, quando cerca de 60 mil italianos chegaram no Estado entre os anos de 1884 e 1894.
O Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul guarda, em sua vasta coleção, livros que contam a história da chegada dos imigrantes no Estado. Em um dos documentos, estão apontados os nomes das pessoas que imigravam para o RS, além de sua idade, estado civil, religião, profissão e para qual das colônias estavam seguindo. O professor Antônio de Ruggiero, da Escola de Humanidade da PUCRS, reforça que a realidade do Estado até então era completamente diferente antes dos imigrantes italianos, com poucos habitantes e muita terra.
“Em pouquíssimos anos, chegaram ao RS quase 100 mil italianos. Isso mudou radicalmente a fisionomia demográfica do Estado, que na época tinha uma população reduzida, com pouco mais de 400 mil habitantes antes da imigração. Era um Estado enorme, mas com poucos residentes. Por isso que hoje temos uma quantidade enorme de descendentes.”
O professor aponta ainda que a característica dos imigrantes que vieram para o Brasil era de famílias camponesas, acostumadas com o trabalho no campo. “Hoje em dia, um dado muito interessante é que mais de um terço da população gaúcha, ou seja, cerca de 4 milhões de habitantes, tem por parte pai ou de mãe uma ascendência italiana”, completou o professor.
Imigração no RS em 1875 marca o início das políticas públicas
Apesar de fevereiro de 1874, quando 380 italianos chegaram no Espírito Santo, ter sido a data escolhida para celebrar, em nível nacional, o início da imigração italiana no Brasil, o professor aponta que a onda imigratória nos estados do Sul a partir de 1875 marcou o início efetivo das políticas públicas para trazer migrantes. “Em 1874, foi uma escolha de um ente privado, um cidadão trentino, que tinha comprado terras na região. Chegadas como essa já haviam ocorrido em anos anteriores. Por isso sempre digo que a data mais emblemática para a imigração italiana é 1875. Foi quando teve início a uma imigração massiva e organizada pelas políticas públicas das autoridades imperiais”, afirmou.
Ruggiero diz ainda que o governo brasileiro escolheu imigrantes do norte da Itália por conta de um preconceito com os italianos do sul da península. “Eles eram considerados mais rebeldes e menos organizados. No Norte, inclusive, tinha uma cultura mais parecida com a germânica e, por isso, o governo entendia como uma garantia de estabilidade”, apontou.
Além disso, o professor explica que o fluxo migratório vivido no RS e nos outros estados do Sul do Brasil também se diferencia de outras regiões, como em São Paulo, onde a maioria dos imigrantes foi destinada. “A dinâmica lá é muito diferente. Em SP, a grande imigração começa mais tarde, no final da década de 1880. Mas é não uma imigração de proprietários de terra. É um movimento para assalariados italianos, camponeses, que vão trabalhar nas fazendas de café. Com a abolição da escravidão, os italianos vieram para substituir a mão de obra barata em São Paulo.”
A Itália pré-imigração
A situação na Itália na época, que havia passado recentemente pela unificação, na qual Giuseppe Garibaldi, herói na Revolução Farroupilha, teve papel importante, era de incertezas, principalmente para as camadas mais populares. “O país passava por um processo de mudança depois da unificação, passando de um sistema essencialmente camponês e feudal para um sistema capitalista e uma incipiente industrialização nas regiões do Norte.”
Neste contexto, surgiam as políticas públicas brasileiras para receber italianos. O império do Brasil, na época, chegou a enviar agentes de imigração para a Itália com o objetivo de convencer os camponeses a virem para o país, com promessa de terras. “Eles descreviam o Brasil como um lugar acolhedor e com muitas possibilidades de riquezas. Se criou uma ilusão, mas os camponeses não eram ignorantes, apesar de muitos serem analfabetos. Quase ninguém acreditava totalmente nessa ideia.”
Para muitos, a oportunidade não era vista como garantia imediata de condições melhores de vida, mas uma forma de deixar uma situação melhor para as gerações que viriam. “A oportunidade de se tornarem donos de terras foi muito animadora para as famílias, que resolveram enfrentar os riscos de uma travessia oceânica tão longa e o risco do desconhecido”, explicou.
Quando chegaram ao RS, as famílias recebiam ferramentas básicas para cultivar. Por isso, muitos traziam outros equipamentos para o trabalho agrícola ou artesanal. “É interessante, do ponto de vista simbólico, essa vontade de levar pertences que pudessem manter viva essa ligação com a sua terra.”
Convívio com outros colonos no RS
Antes da chegada dos italianos, o RS já havia experimentado outro movimento migratório anos antes, com a vinda de famílias germânicas para as regiões de vales e planícies. Para chegar às colônias na Serra Gaúcha, as famílias recém-chegadas precisavam passar por algumas regiões onde já viviam os descendentes de alemães. Ruggiero conta ainda que contato entre ambas comunidades foi de certa solidariedade.
“Os alemães já tinham suas terras na região de planície. Então, nós encontramos alguns episódios de solidariedade, até porque a condição de imigrante era a mesma. Os alemães que chegaram antes reconhecem os italianos como novos imigrantes e que, bem ou mal, terão as mesmas dificuldades. Solidariedade inclusive na uva. São os alemães que dão os primeiros ramos de videira de Isabel para os italianos que queriam tentar o cultivo nessas regiões de serra”, citou.
Manutenção das tradições
Ruggiero explica ainda que a onda de imigração para o RS iniciou em 1875, mas que muitos italianos já viviam no Estado antes disso. Um exemplo disso está na fundação da primeira Sociedade Italiana do RS, em Bagé entre 1870 e 1871. Isso se dá pela imigração espontânea de europeus ao longo do século XIX. Além disso, as regiões de origens destes italianos era diferente, se comparada com as ondas iniciadas em 1875.
“A partir dessa data, são famílias do Norte da Itália, em grande parte do Vêneto, Trentino, Friuli e Lombardia. Mas existiu também a imigração espontânea nos grandes centros, longe das colônias agrícolas. E nesse caso é mais plural. Encontramos muitos do Sul da Itália em Porto Alegre, por exemplo, que tem uma comunidade forte de pessoas vindas da Calábria. E isso tem reflexos diretos na cultura”, afirmou.
Um dos aspectos mais importantes da imigração italiana foi o cultural. Ruggiero salienta que, em função das dificuldades encontradas na terra nova, muitos costumes gastronômicos acabaram passando por processos de transculturalismo, mesclando também, como forma de adaptações, à cultura local. Tudo isso culminou em uma riqueza multicultural para o RS.
“Muitas vezes aquilo que é chamado de gastronomia colonial é uma mistura de elementos gastronômicos e culturais da Itália com elementos daqui. Outro ponto interessante é a cultura da videira. O vinho se torna aos poucos um símbolo identitário muito forte para os colonos italianos”, falou.
Laços fortalecidos entre RS e Itália
Nas últimas semanas, o embaixador da Itália no Brasil, Alessandro Cortese, esteve no Rio Grande do Sul para celebrar o sesquicentenário da imigração italiana no Estado. Além disso, a passagem dele também serviu para fortalecer o momento de retomada do RS após a enchente histórica de maio de 2024 e os laços com o país europeu. Um exemplo dessa proximidade foi a visita do presidente italiano, Sergio Mattarella, a Porto Alegre, em julho do ano passado, reforçando a solidariedade ao povo gaúcho.
“A Itália está sempre perto do RS. É uma tradição e agora entendo os motivos. Quando vou à Serra Gaúcha, parece que estou na Itália. Vibro com a amizade entre italianos e gaúchos e reforço nosso compromisso para ajudar o RS no que pudermos. Um ano depois da enchente, o Rio Grande do Sul voltou a sorrir e voltou a ser a locomotiva do Brasil”, afirmou Cortese.
Ao longo de sua passagem pelo RS, o embaixador também falou sobre a relação comercial e a possibilidade de mais cooperação entre a Itália e a região nos próximos anos, principalmente em função de acordos econômicos entre os blocos da União Europeia e Mercosul. “Nós, mais do que os outros, temos colônias italianas em todos os países da América do Sul. E, no atual contexto de guerras tarifárias, é necessário fortalecer vínculos entre estas regiões. A Itália é muito favorável à conclusão do acordo”, completou.
O cônsul-geral da Itália no RS, Valerio Caruso, cita também o trabalho do consulado e demais institutos de comércio e representação da comunidade italiana no Estado como elementos que potencializam a participação de investidores italianos na economia gaúcha. “É um trabalho extraordinário feito em conjunto com a comunidade. O sesquicentenário é um momento de construir oportunidades para o futuro. Nossa função é seguir construindo pontes entre o RS e a Itália e estreitar laços econômicos para que o Estado esteja no mapa dos investimentos das empresas italianas”, comentou Caruso.
Em meio à restrições, cidadanias no Rio Grande do Sul batem recorde
Na última quinta-feira, o Senado italiano aprovou o decreto-lei elaborado pelo governo da primeira-ministra Giorgia Meloni que limita o acesso à cidadania italiana para descendentes nascidos no exterior. O texto ainda precisa ser discutido e votado na Câmara de Deputados italiana ainda no final de maio.
Em vigor desde março, o decreto restringe o reconhecimento da cidadania por direito de sangue para quem nasce fora da Itália para apenas duas gerações. A legislação anterior, de 1992, não estabelecia limites de gerações. Em entrevista concedida antes da aprovação no Senado, o embaixador Alessandro Cortese afirmou acreditar em flexibilização da lei. “No Brasil, existem 30 milhões de descendentes que poderiam ter potencial. Na Argentina, mais 20 milhões. São números enormes. É muito difícil comentar uma lei que ainda não está aprovada. Ainda não temos a lei, apenas o decreto. Acho, pessoalmente, que o congresso está fazendo um grande trabalho. Não sabemos como vai acabar. Acho que haverá uma flexibilização. Tenho um certo otimismo de que o princípio vai permanecer, mas eliminando algumas coisas que são um pouco demais.”
O cônsul-geral no RS, Valerio Caruso, explicou ainda que a emissão de cidadanias no Estado atingiu números recordes nos últimos anos. Antes de 2022, eram cerca de 60 mil processos na fila, com prazo de 15 anos para serem concluídos. Atualmente, há 5 mil emissões de cidadanias por ano, reduzindo o tempo de espera pela metade.
Com isso, Caruso reforça que a entidade é a segunda no mundo em termos de cidadanias reconhecidas. “Precisamos aguardar o resultado deste debate parlamentar. O decreto, obviamente, não é algo que foi feito pensando no Rio Grande do Sul. A lei foi pensada olhando para todo o mundo. Nós amamos esse Estado, mas o mundo é maior que o RS.”
O deputado italiano Fabio Porta, eleito para representar os interesses dos cerca de 6 milhões de cidadãos italianos residentes na América do Sul, lamentou a aprovação no Senado do decreto, na forma como está, e salienta que a legislação anterior favorecia uma relação profunda e contínua entre Itália e seus descendentes pelo mundo. Para ele, ao limitar o direito à cidadania até a segunda geração, a Itália ignora a própria história, como a celebrada imigração no RS.
“Cortar essas raízes transmite uma imagem negativa e não a de uma Itália aberta e grata aos seus filhos que, após tantos sacrifícios, hoje fazem parte integrante desta e de tantas outras nações no mundo. Trabalharemos para modificar essa lei equivocada e míope, mesmo após sua aprovação, também como forma de ajudar a Itália a enfrentar a recessão demográfica, valorizando o imenso patrimônio representado por suas grandes comunidades no exterior”, contou.
Porta reforçou que momentos como o dos 150 anos são uma oportunidade de reforçar laços e intensificar uma “já vibrante relação comercial” entre empresas italianas e gaúchas. “Um vínculo de sangue que atravessou séculos e que ainda está vivo, não apenas nas tradições populares, na gastronomia e na religiosidade, mas nos numerosos laços econômicos e comerciais entre Itália e RS. Os 150 anos da imigração podem e devem ser uma oportunidade para uma reflexão histórica sobre uma belíssima página das nossas nações. Uma relação de ganha-ganha, da qual poderemos obter benefícios sociais e econômicos, sem esquecer a fortíssima ligação entre os sistemas acadêmicos e universitários italiano e gaúcho.”
Fonte: Correio do Povo
























Comentários