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La Niña chega ao fim após três anos, mas estiagem seguirá assolando o RS, aponta MetSul Meteorologia

9 de mar. de 2023
6 min de leitura

Imagem: Marcelo Camargo/ Agência Brasil.

Acabou! Depois de três anos, chega ao fim um evento histórico do fenômeno La Niña. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (9) pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) e já era aguardado ante as condições oceânicas e atmosféricas dos últimos dias no Pacífico Equatorial. Um mês atrás, a MetSul Meteorologia antecipou que a La Niña estava nos últimos dias. Por meses, a MetSul vem destacando ainda a possibilidade de volta do El Niño.


Conforme o Centro Nacional de Previsão do Clima da NOAA, os indicadores de La Niña praticamente desapareceram em fevereiro. A La Niña está associada a águas mais frias do que o normal no Oceano Pacífico tropical, mas recentemente as águas aqueceram e na costa do Peru e do Equador as anomalias de temperatura já estão até em patamar de El Niño costeiro, embora não haja um evento de El Niño.


De acordo com o último boletim da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, a anomalia de temperatura da superfície do mar era de -0,2ºC na denominada região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Central, que é usada para definir se há El Niño ou La Niña. O valor está na faixa de neutralidade de -0,4ºC a +0,4ºC.


Por outro lado, a região Niño 1+2, perto das costas do Equador e do Peru, que costuma impactar as precipitações mais no verão e a temperatura no Sul do Brasil em qualquer época do ano, estava com anomalia de +1,1ºC, em nível de El Niño costeiro. Mas um evento de El Niño ainda está no horizonte. O provável retorno do El Niño levanta preocupações sobre como ele pode acelerar o aquecimento global e as crises das mudanças climáticas. O último grande episódio do El Niño em 2015/2016 levou as temperaturas médias globais a recordes e contribuiu para a perda devastadora de florestas tropicais, branqueamento de corais, derretimento do gelo polar e incêndios florestais.


Eventos de El Niño tão intensos normalmente ocorrem uma vez a cada 15 anos, em média, então resta saber – se outro episódio por começar este ano – poderia causar tanto impacto, disse Michael McPhaden, cientista sênior do Laboratório Ambiental Marinho do Pacífico, em Seattle.


A La Niña atuava desde 2020, mas por um breve período houve condições neutras em 2021. Os seus impactos são enormes. Justamente a sucessão de anos de La Niña, que não se via desde a virada do século, causou as estiagens em sequência no Rio Grande do Sul e as secas na Argentina, além de eventos extremos de frio no Sul do Brasil com neve tardia e até inédita em novembro.


Fim da La Niña é o fim da estiagem?


Com a notícia do fim da La Niña, a pergunta é inevitável: o fim da La Niña significa que a estiagem que assola o Rio Grande do Sul vai acabar? Não, não é tão simples assim. Ideal que acabasse, mas a estiagem vai permanecer ainda por algum tempo. O que pode ocorrer são episódios de chuva mais frequentes, e apenas em certos períodos, como se viu em fevereiro e neste começo de março.


A atmosfera não funciona como virar uma chave, logo o término da La Niña não termina a estiagem de imediato. Isso porque a atmosfera ainda responde por um certo tempo ao padrão que predominava, no caso nos últimos três anos, uma vez que este é um evento de La Niña com três anos de duração, que começou ainda em 2020, o que não ocorria há mais de 20 anos.


O que vem depois da La Niña?


Só pode haver uma resposta para a fase seguinte ao evento de La Niña: um período sob estado de neutralidade. O Pacífico tem três fases possíveis que são La Niña, neutralidade e El Niño. Não se passa direto de Niña para Niño ou vice-versa sem um período de neutralidade, seja ele curto ou longo.


Muitas vezes neutralidade no sinal das águas do Pacífico é confundida com normalidade, até por meteorologistas, mas são situações distintas. Neutralidade não é normalidade. Quando o Pacífico Equatorial está neutro, podem ocorrer extremos comuns aos sinais tanto de El Niño como de La Niña.


E saindo de um evento de três anos de resfriamento, a tendência nos momentos iniciais da fase neutra é de um padrão ainda mais perto de La Niña. Mais tarde, em meados do outono – mais para o fim – e no inverno e primavera pode se instalar um evento de El Niño, conforme múltiplas projeções de modelos de clima e oceânicos de longo prazo. Aí os sinais da La Niña terão sumido faz tempo.


El Niño a caminho?


As projeções da Universidade de Columbia, de Nova York, indicam para no trimestre de abril a junho, quando ainda há colheita, 1% de probabilidade de La Niña, 75% de neutralidade e 24% de El Niño. No trimestre de maio a julho que encaminha o inverno de 2023, 1% de chance de La Niña, 75% de neutro e 24% de El Niño.


No trimestre de junho a agosto, o de inverno em 2023, 2% de probabilidade de La Niña, 35% de neutralidade e 63% de El Niño. No trimestre de julho a setembro, importante para a safra de inverno e o trigo, 3% de probabilidade de La Niña, 32% de neutralidade e 65% de El Niño. Já no trimestre de agosto a outubro, que cobre já dois terços da primavera climática, 5% de La Niña, 31% de neutralidade e 64% de probabilidade de El Niño. Por fim, no trimestre de setembro a novembro, o da primavera na climatologia, 7% de La Niña, 31% de neutro e 62% de El Niño.


Os especialistas têm muita cautela com projeções para o Pacífico nesta época do ano. Entre março e junho há o que se denomina de “barreira de previsibilidade” nas projeções para o Pacífico com confiabilidade baixa dos modelos. Agora, à medida que se sai de tal barreira, estas projeções se tornam mais confiáveis e os indicativos são de El Niño pela grande maioria das simulações.


El Niño


Um evento de El Niño ocorre quando as águas da superfície do Pacífico Equatorial se tornam mais quente do que a média e os ventos de Leste sopram mais fracos do que o normal na região. A condição oposta é chamada de La Niña. Durante esta fase, a água está mais fria que o normal e os ventos de Leste são mais fortes. Os episódios de El Niño, normalmente, ocorrem a cada 3 a 5 anos.


El Niño, La Niña e neutralidade trazem consequências para pessoas e ecossistemas em todo o mundo. As interações entre o oceano e a atmosfera alteram o clima em todo o planeta e podem resultar em tempestades severas ou clima ameno, seca ou inundações. Tais alterações no clima podem produzir resultados secundários que influenciam a oferta e os preços de alimentos, incêndios florestais e ainda criam consequências econômicas e políticas adicionais. Fomes e conflitos políticos podem resultar dessas condições ambientais mais extremas.


Ecossistemas e comunidades humanas podem ser afetados positiva ou negativamente. No Sul do Brasil, La Niña aumenta o risco de estiagem enquanto El Niño agrava a ameaça de chuva excessiva com enchentes. Historicamente, as melhores safras agrícolas no Sul do país se dão com El Niño, embora nem sempre, e as perdas de produtividade tendem a ser maiores sob La Niña. O El Niño agrava o risco de seca no Nordeste do Brasil enquanto La Niña traz mais chuva para a região.


A origem do nome “El Niño” data de 1800, quando pescadores na costa do Pacífico da América do Sul notavam que uma corrente oceânica quente aparecia a cada poucos anos. A captura de peixes caía drasticamente na região, afetando negativamente o abastecimento de alimentos e a subsistência das comunidades costeiras do Peru. A água mais quente no litoral coincidia com a época do Natal.


Referindo-se ao nascimento de Cristo, os pescadores peruanos, então, chamaram as águas quentes do oceano de El Niño, que significa “o menino” em espanhol. A pesca nesta região é melhor durante os anos de La Niña, quando a ressurgência da água fria do oceano traz nutrientes ricos vindos do oceano profundo, resultando em um aumento no número de peixes capturados.


O último episódio de El Niño se deu entre 2015 e 2016 e foi de muito forte intensidade, o que rendeu a expressão Super El Niño e o apelido de “El Niño Godzilla”. Este evento foi responsável por grandes enchentes no Sul do Brasil e os maiores picos de cheia do Lago Guaíba, em Porto Alegre, desde as enchentes históricas de 1941 e 1967.


Fonte: Metsul Meteorologia



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