top of page

Manual de sobrevivência em tempos de misoginia gourmet - Por Nana Vier

Dizem que toda época tem suas palavras da moda. Teve o empoderamento, teve o lugar de fala e agora chegou a vez da misoginia, que de tanto uso já corre o risco de virar tempero pronto. Você joga por cima de qualquer situação e pronto, está explicado.


Outro dia, no café da empresa, duas colegas discutiam por causa de uma apresentação. Uma achava que a outra tinha interrompido demais. A outra dizia que era só entusiasmo. Cinco minutos depois, alguém sussurrou que aquilo podia dar misoginia. E pronto. O clima azedou mais rápido que leite fora da geladeira.


Ninguém mais sabia se podia discordar, argumentar, pedir silêncio ou até revirar os olhos, aquele gesto clássico, patrimônio cultural da humanidade feminina. Tudo virou potencial evidência.


A verdade é que da misoginia, que deveria ser coisa séria e é, começou a viver uma vida curiosa. De ferramenta importante para proteger mulheres, passou a ser também uma espécie de guarda-chuva semântico. Cabe tudo ali embaixo. Às vezes, até o que não deveria.


E aí começa o efeito colateral que ninguém gosta de admitir. Quando tudo vira misoginia, nada mais é levado tão a sério quanto deveria.


Porque existe a misoginia real, concreta, dolorosa. Aquela que limita, exclui, silencia. Aquela que impede crescimento, que ridiculariza competência, que transforma mulheres em exceção onde deveriam ser regra. Essa precisa, sim, de nome, de enfrentamento e de consequência.


Mas também existe o ruído. A divergência legítima, o conflito cotidiano, a discordância entre pessoas, inclusive entre mulheres. E, curiosamente, estamos começando a ter medo até disso.


No mundo corporativo, sempre tão sensível às novas terminologias, já tem gente treinando frases neutras como quem aprende um novo idioma. Talvez possamos considerar outra abordagem, com todo respeito à sua perspectiva, não quero que isso seja interpretado de forma equivocada.

Tradução: ninguém quer correr o risco de ser mal interpretado.


E aí a pergunta que fica. Estamos protegendo ou estamos paralisando?


Porque uma cultura que não consegue mais diferenciar conflito de violência, discordância de ataque, acaba criando um ambiente onde ninguém pisa firme. Todo mundo anda de meias, desviando de ovos imaginários.


E ironicamente, isso também não ajuda as mulheres.


Mulheres não precisam de um mundo onde ninguém possa questioná-las. Precisam de um mundo onde possam existir plenamente, com força, com voz, com contradição, com direito de errar, de discordar e de serem contrariadas. Sem pedestal. Sem blindagem artificial. Sem rótulos distribuídos no automático.


Talvez o desafio do nosso tempo não seja criar mais palavras, mas recuperar o peso delas. Dar nome ao que realmente importa. E ter maturidade suficiente para lidar com o resto.


Porque, quando tudo vira crime, a convivência vira tribunal. E ninguém trabalha bem sob julgamento constante, muito menos cresce. Nem como profissional. Nem como sociedade.


Nana Vier, é professora e escritora

Comentários


BANNERS START NEWS 1230X1020
banner2-pilates2264daa6-6515-4d48-85e1-4a635e2fdec9
Banner_Seguro-Viagem_1230x1020px-(2)
Banner_Seguro-de-vida_1230x1020px-(2)
WhatsApp Image 2026-03-09 at 15.32.11 (1)
IMG_4264
Manuela Start - 1
BannerSite_1230-x-1020
Técnico em Desenvolvimento de sistemas (1)
START-MULHERES-CEPROL-1230-1020
WhatsApp Image 2025-04-10 at 18.55.37.jpeg
bottom of page