Manual Não Oficial de Como Invejar Gramados - Por Daniela Bitencourt Andara
- Start Comunicação

- há 10 horas
- 2 min de leitura
Há um fenômeno universal, estudado silenciosamente, meticulosamente pela humanidade desde que inventaram a cerca:
a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa.
É mais viçosa. Mais aparada. Mais verde.
A nossa?
Tem muitas falhas. Tem matinhos crescendo. Tem formiga. E tem um canto, muito suspeito, pouco atrativo, que fingimos não existir.
Então, acordamos, abrimos o celular e lá está o "jardim alheio" em exposição nas redes sociais:
a viagem cinematográfica.
o trabalho maravilhoso, cooperativo, extraordinário (dos sonhos!), o casamento perfeito e sorridente às 7h da manhã (suspeito!), o corpo definido, o filho inteligente, educado, que aparentemente, nunca "deu piti" no supermercado.
E, com o café frio na mão, pensamos:
— Será que a minha grama precisa de um fertilizante importado dos Jardins de Versalhes?
Talvez o problema não seja o fertilizante.
Seja a distância.
Todo gramado, de longe, parece um campo de golfe.
De perto, dá para ver imperfeições: o mato rebelde, a terra seca, o canto que não pega sol e a parte que o cachorro escolheu como banheiro oficial.
Ninguém postou essa parte.
Visitamos o "quintal" dos outros só na área gourmet da vida.
Ninguém posta o canto onde guarda boleto vencido, a insegurança, o medo de não dar conta.
Spoiler: Ninguém sabe! Só mudamos os filtros!
Provavelmente o vizinho também já ficou parado olhando para o nada, “refletindo”, quando na verdade estava só cansado de ser adulto.
Talvez a vida dele não seja melhor que a nossa.
É só editada em ângulos precisos e estratégicos.
E, quando paramos de regar o nosso próprio jardim, com a mangueira da comparação, baseados em "fatos reais" da internet, acontece algo quase revolucionário: a nossa grama começa a responder ao cuidado… e não à tal grama alheia perfeita.
Ela não vira capa de revista.
Mas vira lugar de descanso.
De risada farta e alta.
De pés descalços (mesmo com um matinho espetando, porque a vida também é isso!).
Fernando Pessoa já avisava, com elegância e uma certa crise existencial:
"Tudo vale a pena se a alma não é pequena."
Inclusive capinar o próprio quintal emocional.
No final, não é sobre ter o jardim mais extraordinário.
É sobre ter um espaço onde possamos descansar sem precisar impressionar ninguém.
Porque a grama do vizinho pode até ser maravilhosa…mas é na nossa que a vida anda.
E, às vezes, senta. Muitas vezes rola!
Mas, com confiança, fé e alegria, floresce!

Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo






























Comentários