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Manual Não Oficial de Como Invejar Gramados - Por Daniela Bitencourt Andara

Há um fenômeno universal, estudado silenciosamente, meticulosamente pela humanidade desde que inventaram a cerca:

a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa.

É mais viçosa. Mais aparada. Mais verde.


A nossa?

Tem muitas falhas. Tem matinhos crescendo. Tem formiga. E tem um canto, muito suspeito, pouco atrativo, que fingimos não existir.


Então, acordamos, abrimos o celular e lá está o "jardim alheio" em exposição nas redes sociais:

a viagem cinematográfica.

o trabalho maravilhoso, cooperativo, extraordinário (dos sonhos!), o casamento perfeito e sorridente às 7h da manhã (suspeito!), o corpo definido, o filho inteligente, educado, que aparentemente, nunca "deu piti" no supermercado.


E, com o café frio na mão, pensamos:

— Será que a minha grama precisa de um fertilizante importado dos Jardins de Versalhes?


Talvez o problema não seja o fertilizante.

Seja a distância.


Todo gramado, de longe, parece um campo de golfe.

De perto, dá para ver imperfeições: o mato rebelde, a terra seca, o canto que não pega sol e a parte que o cachorro escolheu como banheiro oficial.

Ninguém postou essa parte.


Visitamos o "quintal" dos outros só na área gourmet da vida.

Ninguém posta o canto onde guarda boleto vencido, a insegurança, o medo de não dar conta.


Spoiler: Ninguém sabe! Só mudamos os filtros!


Provavelmente o vizinho também já ficou parado olhando para o nada, “refletindo”, quando na verdade estava só cansado de ser adulto.


Talvez a vida dele não seja melhor que a nossa.

É só editada em ângulos precisos e estratégicos.


E, quando paramos de regar o nosso próprio jardim, com a mangueira da comparação, baseados em "fatos reais" da internet, acontece algo quase revolucionário: a nossa grama começa a responder ao cuidado… e não à tal grama alheia perfeita.


Ela não vira capa de revista.

Mas vira lugar de descanso.

De risada farta e alta.

De pés descalços (mesmo com um matinho espetando, porque a vida também é isso!).


Fernando Pessoa já avisava, com elegância e uma certa crise existencial:

"Tudo vale a pena se a alma não é pequena."

Inclusive capinar o próprio quintal emocional.


No final, não é sobre ter o jardim mais extraordinário.

É sobre ter um espaço onde possamos descansar sem precisar impressionar ninguém.


Porque a grama do vizinho pode até ser maravilhosa…mas é na nossa que a vida anda.

E, às vezes, senta. Muitas vezes rola!

Mas, com confiança, fé e alegria, floresce!


Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo

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