Minha primeira semana de moda - Por Nana Vier
Antes de conhecer as passarelas de Paris pelas revistas, eu já conhecia os bastidores da moda dentro de casa. Sou filha e neta de costureira. Cresci entre tecidos, embalada pelo som das máquinas de costura. Para mim, roupa começava muito antes do cabide: era um corte de tecido, uma ideia e as mãos da minha mãe fazendo os dois se entenderem.
Perto do Natal, o movimento aumentava. Mulheres chegavam com tecidos para vestir a família inteira nas festas. Havia escolhas, medidas, provas e a expectativa de se olhar no espelho com uma roupa nova. Hoje se fala em experiência personalizada. Na minha infância, isso tinha nome, endereço e uma costureira que conhecia as medidas da vizinhança e as guardava em um caderno.
Minha mãe comprava tecidos com a mesma estampa, em cores diferentes, para fazer vestidos para minhas irmãs. Uma pequena coleção familiar, com identidade própria. Imagino a explicação numa revista de moda: unidade visual com respeito à individualidade. Em casa, bastava dizer que cada uma teria o seu vestido.
Na adolescência, fui modelo de uma marca para a qual minha mãe costurava. Provava as peças e também desfilava. Era a filha da costureira vivendo a moda em todas as etapas, do tecido à passarela. Amava aquilo e tinha orgulho dela. Eu conhecia o trabalho que havia por trás de uma roupa pronta. Antes de alguém admirar o caimento, minha mãe já tinha passado por cada costura.
A Semana de Moda de Paris me devolve um pouco desse encantamento. Gosto de observar as criações, inclusive aquelas que exigiriam coragem para ir à padaria. Há roupa que a gente deseja vestir e há roupa que dá vontade de perguntar como a pessoa entra no carro. As duas rendem conversa.
E a história da moda consegue ser ainda mais divertida. Luís XIV usava sapatos de salto vermelho, rendas e uma volumosa peruca. Aquilo fazia parte da imagem de poder do rei. Portanto, antes de alguém decretar que determinada peça é exclusivamente feminina ou masculina, convém conferir os retratos dos antepassados. O guarda-roupa deles pode causar algum constrangimento à certeza de hoje.
Mudam os costumes, as silhuetas e os nomes. O que ontem parecia exagerado amanhã reaparece com uma etiqueta sofisticada. Quem guardou uma peça por tempo suficiente conhece a satisfação de descobrir que deixou de estar ultrapassada e passou a ser uma pessoa de repertório.
Continuo amando moda e costura. Quando pego um tecido, carrego comigo aquela menina que acompanhava o trabalho da mãe. Paris tem suas grandes maisons. Eu tive o privilégio de crescer perto das belas mãos que faziam toda a minha moda acontecer.

Nana Vier, é professora e escritora


























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