Mulheres se constroem umas nas outras - Por Nana Vier
- Start Comunicação

- há 2 horas
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Há alguns dias vivi uma alegria dessas que aquecem por dentro. Contei nas redes sociais que minhas crônicas, além de saírem aos domingos aqui na Start, agora também serão publicadas às quartas-feiras no Jornal Vale dos Sinos. Foi um daqueles momentos em que a gente sente que algo plantado há muito tempo começa a florescer.
No meio dessa pequena euforia, movida também por curiosidade, fiz um pedido simples: pedi que quem lê meus textos deixasse um comentário nas postagens. Queria entender melhor quem está do outro lado da página, quem caminha comigo nessas reflexões semanais.
Mais uma vez, silêncio.
Quem escreve aprende cedo que o silêncio também faz parte da paisagem. Há leitores que nunca aparecem, nunca comentam, nunca dizem nada. Eles apenas leem. E seguem a vida.
Mas naquele dia duas mensagens chegaram.
Duas.
Não eram de leitores desconhecidos, nem de alguém que eu nunca tinha visto. Eram de duas mulheres que me acompanham desde seus primeiros dias de vida. Minhas irmãs.
Cada uma, à sua maneira, escreveu palavras lindas, carregadas de afeto. Disseram o quanto meus textos eram importantes para elas, o quanto se reconheciam nas histórias e reflexões que compartilho.
Aquilo me fez pensar.
Talvez porque eu escreva desde que me conheço por gente alfabetizada. Escrever sempre foi a minha forma de entender o mundo, de organizar sentimentos, de conversar com a vida. Muitas vezes a gente imagina que as palavras vão longe, alcançam pessoas que nem sabemos quem são. E alcançam. Mas são essas vozes íntimas, que nos conhecem desde o começo, que realmente nos atravessam.
Foi então que comecei a pensar no peso que as mulheres da nossa vida têm na construção de quem nos tornamos.
Cresci cercada por mulheres.
Minha avó. Minha mãe. Três irmãs. Primas. Amigas. E uma legião de amigas da minha mãe que frequentavam nossa casa como quem entra num território seguro.
Nossa casa era cheia. Cheia de vozes, de histórias, de risadas. Era menos uma casa e mais um ninho.
Minha mãe costurava. E quem pensa que as clientes iam apenas para ajustar roupas, fazer bainhas ou pregar botões não conheceu aquele lugar.
Entre máquinas de costura, tesouras abertas sobre a mesa, tecidos espalhados e fiapos de linha pelo chão, formava-se uma verdadeira roda de vida.
Ali aconteciam as rodas de chimarrão. O café passado na hora. Um pedaço de bolo que sempre aparecia, não importa o horário.
Mas, acima de tudo, aconteciam conversas.
Desabafos sobre maridos, filhos, trabalho, dinheiro, sonhos adiados. Conselhos dados com sabedoria prática. Choros que surgiam de repente. E risadas, muitas risadas.
Era, sem ninguém perceber, uma espécie de terapia coletiva improvisada.
Eu observava tudo.
Guria ainda, sentada num canto, fingindo distração enquanto escutava histórias de vida que me ensinavam muito mais do que qualquer manual poderia ensinar.
Ali aprendi sobre receitas e também sobre resistência. Sobre comportamento e também sobre fragilidade. Sobre o poder de uma palavra certa na hora certa.
Aprendi que o universo feminino é vasto, complexo e surpreendente.
Nós mulheres somos capazes de ser o colo umas das outras, mas também, às vezes, nossas críticas mais duras. Podemos ser abrigo e tempestade.
Mas quando escolhemos ser abrigo, algo muito bonito acontece.
Hoje percebo que cada uma daquelas mulheres participou, de algum modo, da construção da mulher que me tornei.
Minhas irmãs, minha mãe, minha avó, minhas amigas, aquelas clientes que entravam pela porta da frente com um vestido para ajustar e saíam um pouco mais leves do que chegaram.
Talvez escrever seja, de alguma forma, continuar aquela roda de conversa.
Trocar histórias.
Oferecer palavras.
E, quem sabe, criar pequenos lugares de acolhimento no meio da correria do mundo.
Porque, no fundo, foi ali, entre tecidos, café quente e chimarrão compartilhado, que aprendi uma das coisas mais importantes da vida: mulheres também se constroem umas nas outras.

Nana Vier, é professora e escritora

























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