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Na toca do coelho preto - Por Magali Schmitt

Falei aqui mesmo do conteúdo raso e o algoritmo me presenteia com Black Rabbit enquanto me dá um tapa na cara. Parece que a lei do retorno está cada vez mais rápida. Ou serão as escutas dos nossos aparelhos inteligentes?

Comecei a assistir a minissérie por causa do Jude Law, confesso e, também, porque havia lido uma crítica positiva. Tenho buscado histórias que casem bom elenco e temas que me agradem. Não é receita certa, mas é um bom indicativo. Porque ator ou atriz de prestígio não costuma entrar em roteiro ruim. Sempre há exceções, claro.


A minissérie fala das relações familiares, aquele vínculo invisível e emocional que nos prende a algumas pessoas no mundo. Nos pega num lugar específico, já que todos temos irmãos, pais, filhos, avós e um deles, talvez mais de um, não se encaixe no sistema.

Lança um holofote sobre o sentimento primitivo que nos une e nos cega e nos faz abrir mão até do bom senso para defender alguém com quem compartilhamos o mesmo sangue e a herança genética. Nada além.


Black Rabbit é o nome do restaurante que os irmãos Jake e Vince gerenciam em Nova York ou gerenciavam juntos. Vince, o mais velho, foi, desde sempre, fora do padrão do que se considera normal. O cara que se atira na vida sem medo do que vem e pensa em si, deixando o rastro das suas decisões. Porque na família o que um faz respinga no outro.

É diferente de um estranho, alguém que a gente pode simplesmente fechar a porta e deixar lá, do lado de fora. Alguém que se pode dizer não sem culpa. Com família não dá, não tem como.


Fica a pergunta: por que, afinal, as trajetórias se distanciam se viemos do mesmo lugar, da mesma origem? O que deu errado, em que momento a vida separou nosso destino? Em que momento nos tornamos heterogêneos de quem nasceu e cresceu sob o mesmo teto?

É essa dúvida, que incomoda, que corrói nossas certezas bem montadas, que o Coelho Preto apresenta. O cenário é o lado sombrio de Nova York, um universo fragmentado por drogas, sexo, violência em vários níveis. Bem longe do glamour que se conhece como turista. Os mesmos lugares, porém, com outra ótica. A vida pulsante, nua e crua de quem faz a gigante de pedra acontecer. Mas poderia ser na casa de qualquer um.


Concluí a jornada pensativa. Fazia tempo que essa sensação não me encontrava num conteúdo de streaming. Nos livros é mais comum. Fui atrás do diretor, de minúcias. Me enxerguei no Jake, o cara que lutou até o último instante pelo irmão. O cara que passou por cima de alguns valores para salvar o que acreditava acima de tudo: que as pessoas não são más por natureza, que apenas se desviam, que é possível retomar o curso.

Porém, ao longo dos oito episódios a gente vai enxergando o que o Jake não quer ver. Vai ficando claro que Vince joga com a culpa do mais novo e sabe se aproveitar da sua fraqueza. Que talvez ele não queira mudar, no final das contas. É um soco no estômago.


E, para encerrar com um exemplo da literatura, que é onde habito, traço um paralelo entre a série e Que notícias me dão de você?, escrito por mim e disponível na Amazon. Uma história que também trata do quanto as relações familiares podem impactar nossa vida no passado e destruir o que esperamos do futuro.













Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

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