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Narrando os 200 anos: 39º capítulo - Os imigrantes alemães e a Maçonaria


Em 1876 era estabelecida em Porto Alegre a pedra fundamental do Templo Maçônico Zur Eintracht. Os jornais Deutsche Zeitung, o Boletim do Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil e A Acácia (o jornal maçônico de Karl Von Koseritz) noticiaram este acontecimento, sendo que o último publicou a seguinte mensagem,

“Aos Pósteros” (Der Nachwelt). O presente número de nossa folha “Acácia” vai ser colocado a par de outros documentos, na pedra fundamental do templo que vai ser construído pela loja do rito simbólico “Zur Eintracht”. É o primeiro templo maçônico ereto nesta cidade e é justo que o órgão da maçonaria rio-grandense se dirija a tão solene ocasião a geração vindoura, que um dia tirará a luz estes documentos, quando cair em ruínas ou for desmontado o edifício que ora é erigido pela Glória do Supremo Arquiteto do Universo e honra de nossa arte real, pelos nossos irmãos que trabalham em língua alemã e segundo o “Rito de Schröder”. Os grãos mestres que ora depositamos na terra, semeando as ideias de Humanidade e Fraternidade Universal, estarão entre os transformados em frondosas árvores, à sombra das quais se abrigará o gênero humano. Respeitai, pois, vindouros, os irmãos que hoje lutam para que vós possais colher os frutos. A nós a luta e o sacrifício; a vós a abundante messe de benefícios! (Grande Oriente do Brasil).

A loja maçônica Zur Eintracht (“Harmonia”), foi uma das primeiras no Rio Grande do Sul que trabalharam com o Rito de Schröder, e a primeira a realizar suas atividades em língua alemã. Entre as levas de imigrantes alemães chegados na década de 1820 no Rio Grande do Sul já havia alguns maçons, porém, somente em 1874 ocorreu o estabelecimento de uma Loja Maçônica em língua alemã, trabalhando no Rito Schröder, ligada à Grande Loja Simbólica da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e ao Grande Oriente do Brasil (JUNG NETO, 2015). A Zur Eintracht10 foi fundada em 24 de dezembro de 1874, regularizada em dezembro de 1875 e cujo templo foi construído em 1876 junto à igreja protestante da capital, sendo o lançamento da pedra fundamental a primeira solenidade pública da maçonaria de Porto Alegre (WEIZENAMNN, 2015).


A dita loja teve considerável aceitação entre os imigrantes e, em 1886, contava em seus quadros com o expressivo número de 120 membros ativos. O grande articulador daquela loja maçônica foi Koseritz, que muito contribuiu para a difusão e o crescimento da maçonaria entre a população imigrante de origem alemã. Ele viajou constantemente ao interior da província incentivando a fundação de novas Lojas, como a Lessing, em Santa Cruz; Germânica, em Candelária; Força e União, em Novo Hamburgo; Concórdia, em Três Coroas, e algumas outras (WEIZENAMNN, 2015).


Segundo Rui Jung Neto (2015), maçom da Loja Concordia et Humanitas de Porto Alegre, Koseritz contou com o auxílio dos maçons e o contato com diversos homens públicos na sua trajetória de conquista de maiores direitos políticos aos imigrantes e seus filhos. Na década de 1880, destaca Jung Neto (2015), Haensel e Bartholomay, maçons imigrantes, haviam chegado ao cargo de deputado provincial, levando para sua atuação na assembleia princípios maçônicos, e contando com o apoio integral das Lojas do Rio Grande do Sul, dentro das quais eram discutidos e amadurecidos vários assuntos antes de serem, por estes representantes, encaminhados publicamente.


A maçonaria brasileira, independente dos problemas internos, indefinições, contrariedades e disputas de poder, manteve uma pauta de unidade no século XIX, que foi a secularização da sociedade e, portanto, a separação entre Estado e Igreja. A maior proximidade entre os variados discursos dos maçons aconteceu durante a ofensiva contra os jesuítas, através de críticas contundentes e propaganda contrária à sua atuação e preceitos. O anticlericalismo maçônico esteve acompanhado da defesa genérica do ideário liberal e cientificista em voga na segunda metade do século XIX. Nesse contexto, durante o pontificado de Pio IX, entre 1846 e 1879, houve o acirramento das relações entre maçonaria e Igreja Católica, sobretudo frente as vitórias liberais e ao crescente processo de laicização da sociedade em escala mundial. Foram redigidos cerca de 28 documentos pontifícios de condenação à maçonaria e a outras sociedades secretas, como a carbonária, unificadas em 1869 na Apostolicae Sedis, que previa a excomunhão aos participantes dessas sociedades. No Brasil, o clero seguiu as disposições de Roma e passou a fazer crescente oposição à influência da maçonaria no campo das ideias e da cultura política, realizando uma espécie de caça às bruxas entre seus membros que faziam parte da maçonaria. Da mesma forma, diversos bispos adotaram uma posição antiliberal, contrária ao processo de secularização da sociedade brasileira (COLUSSI, 1998).


As posições anticlericais da maçonaria brasileira combateram, sobretudo, a Companhia de Jesus, ordem religiosa tradicionalmente mais conservadora. Por isso, o ataque à Igreja Católica era quase sempre indireto, já que não se dirigia abertamente à instituição e, sim, a uma de suas ordens religiosas. De modo geral, as críticas da maçonaria não iam de encontro aos dogmas da religião católica, mas se preocupavam em denunciar as práticas imorais do clero, isto é, o apego aos interesses materiais, econômicos e políticos; o uso dos fiéis para benefícios financeiros; a conduta questionável dos clérigos que seduziam, tinham filhos ilegítimos e problemas de vício, como em jogos e álcool. Os jesuítas, por sua vez, eram relacionados ao fanatismo, conservadorismo e ultramontanismo do papado (COLUSSI, 1998).


Segundo Tiago Weizenmann (2015), tratando de Karl von Koseritz, além da divulgação e da reafirmação de ideias liberais, a maçonaria tornouse para ele um espaço de construção de vínculos sociais, uma vez que teve contato com indivíduos ligados à elite da comunidade alemã e teutobrasileira e de toda a província, assim como a um conjunto de posições políticas variadas, já que a maçonaria possibilitou a convivência de abolicionistas, republicanos, liberais e monarquistas. Assim como Koseritz, há indícios de que Haensel e Brüggen foram maçons em Porto Alegre, usufruindo do mesmo contato com opiniões diversas e tendo acesso as possibilidades políticas oferecidas pela sociabilidade daquele grupo.


Tanto Colussi (1998), quanto Weizenmann (2015), apontam que o primeiro contato de Koseritz com a maçonaria se deu em Pelotas, quando conheceu o jornalista francês Telêmaco Bouliech, engajado em ações de caridade e dirigente da loja Honra e Humanidade. Porém, sua participação na maçonaria só ganhou envergadura a partir de 1875, visto que no período anterior ocorreu a diminuição de lojas maçônicas em funcionamento face à Guerra do Paraguai. Em sua atuação como membro da maçonaria, lançou em 6 de janeiro de 1876 o jornal A Acácia, órgão oficial da maçonaria gaúcha até 1879, do qual foi proprietário, diretor e principal, senão único, redator. Através das folhas de A Acácia, ele fez guerra permanente com dois veículos da imprensa católica do período, O Apóstolo, publicado no Rio de Janeiro, e o Deutsche Volksblatt12, de São Leopoldo (COLUSSI, 1998).


Fonte: IMIGRAÇÃO ALEMÃ E POLÍTICA de Carlos Eduardo Piassini, com o apoio da Assemble Legislativa do Rio Grande do Sul/Pesquisa de Bado Jacoby



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