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Narrando os 200 anos da Imigração alemã: 15º capítulo - A colônia de Torres - 1ª parte

1ª PARTE

Em 1826, o império brasileiro instituiu a segunda Colônia alemã oficial no Rio Grande do Sul, junto à fronteira de Santa Catarina, denominada de Colônia alemã das Torres. Dois anos antes, em 1824, havia fundado São Leopoldo, geograficamente mais próxima da capital da província, Porto Alegre. Distintas em vários aspectos, cada uma dessas Colônias teve seu crescimento moldado por inúmeras especificidades: se São Leopoldo estava mais próxima da capital, a de Torres voltou-se ao Litoral Norte do Rio Grande do Sul (LNRS), aos Campos de Cima da Serra (os quais envolviam as províncias do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina) e à província vizinha, Santa Catarina. Em termos econômicos, a Colônia de São Leopoldo teve impulso graças ao artesanato e à proximidade com Porto Alegre, o que lhe garantiu a venda de produtos coloniais e o abastecimento de mercadorias não produzidas nas pequenas propriedades agrícolas.


Em termos de formação étnica, ambas as Colônias viram-se confrontadas por pessoas e famílias que já estavam no Brasil antes da chegada dos primeiros imigrantes alemães: indígenas, açorianos, portugueses e escravos africanos passaram a fazer parte – de imediato – da realidade desse novo grupo composto de agricultores, artesãos, soldados, médicos, pastores, entre outros profissionais. Se os primeiros imigrantes não estiveram isolados, ao contrário, seu dia a dia foi pautado por relações interétnicas, por que se cristalizou a ideia de que os colonos de São Leopoldo mantiveram sua germanidade, enquanto que os de Torres logo se acaboclaram, aculturaram, entre outros conceitos que expressam vantagem para uns e desvantagem para outros?


Em primeiro lugar, deve-se ter em mente a dificuldade de responder a uma pergunta que parece simples; no entanto, ela vem carregada de imensa complexidade por se tratar de grupos chegados a partir de 1824, que se relacionaram com outros que já estavam no Brasil antes dessa data.


Considerando que o conceito de grupos étnicos é aberto e flexível, ou seja, não está limitado a um grupo ou a um período cronológico, e que os grupos investigados neste texto estabeleceram diálogo ao longo do século XIX, torna-se complexo tentar responder em que momento ou em que circunstâncias alemães e nacionais3 confrontaram suas identidades e se reconheceram como pertencentes a tal grupo. É a partir desta limitação que o presente texto buscará responder ao que foi proposto, isto é, se o uso dos conceitos de grupos étnicos e etnicidade e a análise de parte da historiografia – sobretudo aquela que se dedicou à germanidade –, são capazes de explicar como foram construídas determinadas imagens sobre diferentes Colônias. Os conceitos de grupos étnicos e etnicidade foram trabalhados a partir das considerações de Frederik Barth, publicadas no texto “Os grupos étnicos e suas fronteiras”. Segundo o autor, é preciso ir além do que ele chamou de “modelo típicoideal”:

A expressão grupo étnico é geralmente entendida... como a designação de uma população que: 1. em grande medida se autoperpetua do ponto de vista biológico; 2. compartilha valores culturais fundamentais, realizados de modo patentemente unitário em determinadas formas culturais; 3. constitui um campo de comunicação e interação; 4. tem um conjunto de membros que se identificam e são identificados por outros, como constituindo uma categoria que pode ser distinguida de outras categorias da mesma ordem (BARTH, 2000:27).

Para Barth, “tal como está formulada, essa definição nos impede de compreender o fenômeno dos grupos étnicos e seu lugar na sociedade e na cultura humanas” (BARTH, 2000:28). O principal problema estaria na ideia de que a “manutenção das fronteiras não é problemática”. O resultado desta análise seria a constatação de que somos levados a imaginar cada grupo desenvolvendo sua forma cultural e social em isolamento relativo, respondendo principalmente a fatores ecológicos locais, através de uma história de adaptação por invenção e empréstimos seletivos. Essa história produziu um mundo de povos separados, cada qual com sua cultura e organizado em uma sociedade, passível de ser legitimamente isolada para descrição como se fosse uma ilha.


Outro obstáculo a ser vencido é a identificação de fontes que apontem para a cristalização do confronto, o que resulta na diferenciação com o outro e no reconhecimento como pertencente a um grupo. Se os Registros Paroquiais da Lei de Terras, elaborados de 1854 a 1856, comprovam que os colonos alemães muito rapidamente já tinham nacionais como seus vizinhos – muitas colônias foram vendidas, trocadas e mesmo abandonadas –, os documentos firmados por autoridades policiais e judiciais têm o potencial de desnudar como os grupos se viam e se reconheciam. Sobre a declaração que cada proprietário de terras deveria fazer, ao mapear cada uma das informações, é possível elaborar um mapa da Colônia, verificando onde se localizavam os lotes, quais eram seus proprietários e, o mais importante, quem eram seus vizinhos. De acordo com Barth, “o foco central para investigação passa a ser a fronteira étnica que define o grupo e não o conteúdo cultural por ela delimitado” (BARTH, 2000:34).


Levantamento parcial, realizado para o III Simpósio sobre Imigração Alemã no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, demonstrou que entre 1854 e 1856 muitos nacionais já moravam entre os colonos alemães. Os dados ora apresentados não representam o total de colônias instaladas em São Pedro de Alcântara e em Três Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011 4 Forquilhas, porém demonstram que o convívio entre colonos alemães e nacionais foi intenso.


No caso da Colônia alemã do rio Três Forquilhas, de um total de 52 colônias, 10 estavam nas mãos de nacionais; já no caso da Colônia alemã de São Pedro de Alcântara, de um total de 44 colônias, 4 estavam nas mãos de nacionais, 2 encontravamse divididas entre um colono alemão e um nacional, 2 pertenciam a proprietários cujos nomes não se pode decifrar (se colono alemão ou nacional) e 1 pertencia a Nossa Senhora do Amparo (WITT, 2004:127-144). No que tange à Colônia de São Leopoldo, identificada como um espaço homogêneo quanto à ocupação dos lotes coloniais por parte dos alemães, as informações transcritas por Leopoldo Petry indicam exatamente o contrário, ou seja, dos 224 nomes de proprietários que formariam o centro da povoação (“linhas divisórias do terreno da povoação de São Leopoldo, lado meridional do rio dos Sinos, por demarcação e medição”), 88 são identificados como alemães; 2 foram destinados aos cemitérios católico e protestante; em relação a 3 deles, não foi possível identificar a origem do ocupante, e 132 pertenciam a sobrenomes nitidamente nacionais (grifos nossos). Isso equivale a um percentual de 58% do total de 224 nomes como pertencentes a nacionais. Deve-se ressaltar que alguns nomes se repetem, isto é, um mesmo proprietário tinha mais de um lote e que, no conjunto, eram mais de 305 “terrenos” (em duas transcrições, o número do lote foi substituído pela palavra “todo”; nesses casos, não se soube quantos lotes foram destinados a esses proprietários).


As informações foram transcritas do Livro I que contém as Medições e Demarcações das divisas, praças, ruas, quadras e terrenos das mesmas constantes da povoação de Sm. Leopoldo na província do Rio Grande do Sul como do Mapa Plano feito por ordem do Exmo. Snr. Presidente da Província Manoel Antonio Galvão e contado por Miguel Gonsalves dos Santos, Piloto da Carta Geral, aos 4 do mês de setembro de 1833 (PETRY, 1964:49-54).


Fonte: MARCOS ANTÔNIO WITT* , autor da pesquisa "Grupos étnicos e etnicidade: o caso paradoxal da Colônia alemã das Torres"


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