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Narrando os 200 anos da Imigração alemã: 23º Capítulo - O trabalho comunitário e o associativismo

O trabalho comunitário


As condições estruturais e sociais em que se processou a adaptação dos imigrantes alemães em São Leopoldo foram, de certa forma, elementos motivadores de transformação na constituição de uma nova sociedade baseada na comunidade.


Os imigrantes aqui chegados, a partir de 25 de julho de 1824, carregavam em sua bagagem um tal ou qual instinto de se associarem a fim de enfrentar os mais diversos desafios conforme Roche (1969, p. 36). Por outro lado, diante do árduo trabalho e da luta pela sobrevivência, nos primeiros anos da colonização há poucos registros de manifestações do associativismo e se resumem praticamente nos Kerbs , nas festas de casamento ou em torno das atividades das igrejas e das escolas.


À medida que as “linhas” ou “picadas” iam-se estabelecendo, foram criadas as igrejas, a comunidade se organizava em comissão denominada por “diretoria” ou Kirchenvorstand, que tinha como atribuição elaborar o projeto, obter os recursos materiais e/ou humanos e após, manter a igreja e também o cemitério.


As escolas alemãs


Devido a tradição escolar adquirida nos países de origem, para os colonos alemães a formação política, social, religiosa e cultural era considerada relevante, por isso, com o propósito de assegurar a educação e o ensino aos filhos, foram criadas pela comunidade “diretorias” ou Schulvorstand, que tratavam desde a construção, administração, contratação de professores até a elaboração do material didático das escolas. Para Rambo (1988, p.18) “A escola, portanto, e também a igreja significavam, desta maneira, um assunto da exclusiva competência e responsabilidade das comunidades”.


Os currículos escolares eram elaborados observando-se a construção do conhecimento a partir da realidade, e com isso, nas comunidades rurais o número de analfabetos era praticamente nulo.


Salienta-se que as escolas comunitárias teutas faziam parte de um projeto maior para os imigrantes, pois elas poderiam despertar os alunos para a cidadania através do “efetivo comprometimento e engajamento nas estruturas socioeconômicas, culturais e religiosas locais e regionais” Kreutz (1994, p. 151).


Assim, as escolas comunitárias foram-se multiplicando e segundo o mesmo autor (1994, p.151), “nas décadas de 1920/30, os imigrantes alemães haviam organizado, na região rural do Estado, uma rede de 1.041 escolas comunitárias com 1.200 professores”.


O fim das escolas teutas comunitárias ocorreu na Campanha de Nacionalização em 1938, com a publicação de decretos federais, estaduais e municipais, com o objetivo de disciplinar e restringir suas atuações, exigindo assim, a criação de um novo modelo de ensino.


Estado Novo: Campanha de Nacionalização (1937 a 1945)


A Campanha de Nacionalização instituída durante o Estado Novo – regime autoritário sob o qual o governo assumiu a postura de que deveria criar o sentimento de pertencimento tanto pela educação quanto pela repressão, visava reverter o processo de “enquistamento étnico” em que viviam os imigrantes e seus descendentes. Essa política era considerada pelo governo e pela elite brasileira como uma questão de segurança nacional.


Verifica-se que a base ideológica da Campanha de Nacionalização estava alicerçada na criação de uma identidade nacional: uma única língua (a Portuguesa); uma pátria (a brasileira) e uma cultura (descendente dos povos lusos, negros e índios).


Salienta-se que o principal meio de divulgação utilizado na Campanha de Nacionalização foi a imprensa e o rádio .


A partir de agosto de 1942, com a instalação do Estado de Guerra, muitos alemães foram presos independentemente de haver comprovação para seus crimes e salienta-se que nas zonas de imigração alemã, cabia ao Exército a tarefa de chefiar o movimento, utilizando também o apoio da polícia.


Assim, o projeto de “assimilação” liderado por Getúlio Vargas reforçava a nacionalidade por meio da fixação de novos símbolos de forma impositiva, pela repressão e censura. Os imigrantes, buscando assegurar a manutenção das características culturais tiveram que criar mecanismos e estratégias que não entrassem em confronto com a política estabelecida pelo Governo.


Associativismo


Caixa Rural de Nova Petrópolis, atual Sicredi Pioneira

Em 1849 chegaram à colônia de São Leopoldo os padres jesuítas vindos da Alemanha, Áustria e Suíça e conforme característica dessa ordem, dedicaram-se às atividades paroquiais, sendo que a principal contribuição dos jesuítas foi para o ensino. No entanto, foi o trabalho liderado pelo Pe Amstad sj que lançou as bases para o cooperativismo no Brasil.


Para Rambo (1988), a partir de 1850, os imigrantes alemães começaram a colocar em prática as tradições culturais trazidas da Europa, utilizando as diversas formas de associativismo e para os mais variados fins:


▫ para a promoção de esportes, tais como: sociedades e/ou clubes de ciclismo,

futebol, rawing , tênis, corridas de automóveis, yaching , tiro ao alvo de espingarda

e revólver, caça, natação, atletismo e o escotismo;

▫ para a promoção da arte e da música, tais como: sociedade e/ou clubes de

dança rítmica ou clássica, canto coral e fotografia;

▫ para a promoção de assistência social e da saúde: variadas organizações

assistenciais voltadas a pobres e doentes;

▫ para o estímulo e aperfeiçoamento profissional: associação formada por

professores e educadores alemães evangélicos e católicos;

▫ para a promoção da juventude: organizações formadas pela juventude católica

alemã e,

▫ para a promoção do desenvolvimento: através da criação da Associação Riograndense

de Agricultores.


Padre Teodoro Amstad sj

Em 1900, após diversas reuniões e tendo como um dos principais mentores intelectuais o Pe. Teodoro Amstad sj, foi criada a Associação Riograndense de Agricultores com o seguinte desafio: “construir nas colônias do Brasil Meridional uma sociedade economicamente próspera, humanamente solidária, eticamente correta e religiosamente sadia”. (Rambo, 1988, p. 188).


Salienta-se que esta associação tinha um propósito interétnico, intercultural e ecumênico, cujo lema era viribus unitis ou “com a união dos esforços”. Rambo (1988). E, os principais objetivos podem ser resumidos da seguinte forma:


a) assistência ao agricultor;

b) melhoria da agricultura (utilização de novas técnicas no manejo da terra,

novas culturas e produtividade);

c) melhoria da produção pecuária (aprimoramento das raças);

d) desenvolvimento de um parque industrial;

e) estímulo à cultura.


Através dessa associação, foi popularizado o modelo cooperativo como alternativa viável para a economia colonial, deixando várias sementes que mais tarde vieram a germinar: as cooperativas de produção e de crédito. Assim, após dez anos de existência, a Associação foi transformada em sindicato rural.


Outro aspecto interessante a ser destacado é que, ao contrário da cultura existente entre os descendentes de origem lusitana, a mulher alemã sempre teve uma importante participação nas decisões familiares, na comunidade, desenvolvendo atividades associativas, conforme ilustra Rambo (1988, p.73).


“A mulher por princípio jamais foi excluída. Sua participação não foi apenas permitida. Pelo contrário. Em muitos casos, a mulher foi expressamente convocada, mediante a criação de setores femininos em muitas sociedades”.

Assim, considerando os diversos estudos sobre a imigração alemã em São Leopoldo, destacasse a principal contribuição desta etnia que foi a criação de uma dinâmica comunitária. Neste contexto, merece atenção especial a criação das escolas comunitárias, a organização das comunidades religiosas, a promoção do associativismo e também a promoção de iniciativas locais e regionais visando a projetos comuns.


 
 
 

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