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Narrando os 200 anos da Imigração alemã: 29º capítulo - Contribuições para o RS - 1ª parte

Atualizado: 1 de mai. de 2023


De acordo com Rambo (2003), a presença dos imigrantes alemães deixou profundas marcas em todo Sul do Brasil. No Rio Grande do Sul, cerca de um terço da população total atual é constituída por descendentes desses imigrantes. O mesmo se repete em Santa Catarina. Em grande parte das regiões onde predomina o elemento teuto-brasileiro, constata-se desejável prosperidade econômica e bem-estar social. Obviamente isso não excluí a existência de problemas, porém, de modo geral, essas localidades continuam oferecendo boas condições de vida. Segundo Rambo (2003), as causas dessa realidade são consequência de elementos que apontam para uma mesma direção. Os alemães e seus descendentes, em sua maioria, tiveram desde os primeiros tempos, considerável preocupação com a educação, mesmo nas comunidades mais isoladas. Esperava-se de qualquer teuto-brasileiro que soubesse ler, escrever e fazer contas, tivesse noções sólidas de religião, conhecimentos de elementos de geografia e de história, e estivesse informado sobre os acontecimentos locais, regionais, nacionais e internacionais.


Os estudos que tratam da imigração alemã no Rio Grande do Sul são praticamente unânimes em apontar alguns aspectos para os quais essa etnia deu atenção especial. Trata-se da escola comunitária, difusão da imprensa, ênfase no associativismo, organização das comunidades religiosas, criação de estruturas de apoio para dinamizar e canalizar as iniciativas locais e regionais, vinculando-as a um projeto comum.


Essas características, de certo modo, além de heranças culturais, teriam sido reflexo de uma organização comunitária pautada no relativo isolamento e no abandono por parte das autoridades públicas referente aos primeiros tempos do processo de colonização. Segundo João Klug (2009), ao longo do primeiro reinado, sob o comando de D. Pedro I, pode-se considerar que a política de imigração/colonização/povoamento se caracterizou pela irregularidade, abandono e desencorajamento. Assim, frente à extensa gama de dificuldades enfrentadas pelos grupos de imigrantes alemães quando de sua chegada ao Rio Grande do Sul, estes tiveram sua identidade étnica fortalecida. Essa concepção, carregada de certo romantismo, exalta a lembrança da miséria dos pioneiros, da consequente fraternidade no sofrimento, e gera uma visão fatalista sobre os imigrantes frente aos problemas, fazendo com que a revolta e a reivindicação pareçam não se adequar ao perfil dos imigrantes, apresentados como “trabalhadores, dóceis e apolíticos”. Ao mesmo tempo, essa perspectiva aponta a tese do isolamento como forte marca da colonização alemã. Esse aspecto deu margem a que se desenvolvesse a ideia do enquistamento étnico no Sul do Brasil, e de que os imigrantes constituíam um grupo impermeável à sociedade brasileira, organizado à parte de sua estrutura jurídica, administrativa, econômica e social, portanto, desassistidos da tutela do Estado.


A hipótese do fortalecimento étnico a partir do isolamento e da passividade dos imigrantes, difundida na historiografia da imigração alemã, sobretudo por Aurélio Porto (1996) e Jean Roche (1969), perdeu força a partir de uma série de novos estudos. Marcos Antonio Witt (2008), desconstrói essa visão ao demonstrar em estudo empírico as relações entre famílias de diferentes colônias e destas com indivíduos nacionais no mega espaço São Leopoldo-Litoral Norte do Rio Grande do Sul, assim, rompendo com a tese do isolamento, tanto entre as colônias quanto entre os colonos alemães e seus descendentes com os nacionais. Segundo Witt (2008), mesmo estradas intransitáveis não constituíram empecilho para a comunicação, sobretudo quando o objetivo era a articulação política e a conquista de cargos públicos.


Ainda que de forma restrita, há o reconhecimento do papel do Estado na administração e condução das colônias, tanto durante a fase inicial como posteriormente. De acordo com Jean Roche (1969), os colonos contaram com uma verdadeira tutela administrativa, cuja importância dos funcionários em garantir tal suporte deu à colonização aspecto moderno. O governo imperial, e depois os governos provinciais, tiveram papel indiscutível no desenvolvimento do processo colonizador no Rio Grande do Sul, e, mais tarde, para orientá-lo, escolhendo as zonas de instalação e regulamentando as condições a que estavam submetidos os colonos.


A imigração e colonização alemã no Rio Grande do Sul teve como um de seus objetivos o adensamento da população, e se fez possível por conta do imenso movimento migratório que se operava no século XIX a partir da Europa. De acordo com Neiva Otero Schäeffer (1994), cerca de cinco milhões de europeus abandonaram a Europa entre 1816 e 1850, e mais 22 saíram entre 1850 e 1880. Cerca de 0,3% dos europeus teriam abandonado o continente entre 1846 e 1932, o período de saída mais intensa. Em relação ao território alemão, estima-se em sete milhões o número dos que migraram entre 1878 e 1892. Hilda A. Hübner Flores (1987), estima a entrada de alemães no Rio Grande do Sul entre 1824 e 1830 em 5.350 indivíduos, mais o grupo de oficiais e soldados remanescentes da Legião alemã criada em 1823 para a defesa da nascente independência política brasileira.


É importante considerar que o Estado contava, em 1830, com uma população estimada em 170.000 habitantes. O ingresso desses colonos representava um aumento de quase 3% em menos de seis anos, um impacto não negligenciável do ponto de vista demográfico, sobretudo se considerarmos dois fatores: a introdução de casais jovens, com consequente interferência nas taxas de fecundidade, e a localização dos imigrantes em áreas ainda devolutas.


Por sua vez, Jean Roche (1969) aponta os seguintes dados:

(1) Sob o império:

a. Colonização imperial (1824-2847): 8.176 imigrantes

b. Colonização provincial (1848-1874): 19.523 imigrantes

c. Colapso da colonização (1874-1889): 5.413 imigrantes

(2) A partir de 1890:

a. Segunda colonização provincial (1890-1914): 17.751

imigrantes

b. Liquidação da colonização (1914-1939): 17.645 imigrantes

Total: 68.508 imigrantes


Jean Roche (1969) aponta uma natalidade elevada entre as famílias de imigrantes estabelecidas no Rio Grande do Sul, pelo menos entre algumas famílias alemãs católicas que vieram entre 1826 e 1828, entre as quais o número de filhos por casal girava em torno de 8,5 na primeira geração, e 10,4 na segunda. A análise de outros casos traz números semelhantes, o que demonstra, ao fim de algumas gerações, como a alta natalidade permitiu a ocupação de novos territórios.


Como antes salientado, a educação foi de suma importância na vida dos imigrantes alemães. Segundo Kreutz (1994), nas décadas de 1920 e 1930, os imigrantes alemães haviam organizado, em áreas rurais do Rio Grande do Sul, uma rede formada por 1.041 escolas comunitárias com 1.200 professores, portanto, praticamente não havia analfabetos nessas comunidades teuto-brasileiras, frente a um média nacional, em área rural, que passava dos 80%. O currículo dessas escolas procurava levar às crianças o essencial para o bom entrosamento na vida das comunidades rurais, tanto sob o aspecto religioso e social quanto do trabalho. Havia a preocupação em se construir o conhecimento vinculado à realidade do aluno, e isso foi realizado a partir da elaboração e impressão de material didático adequado à realidade local e regional. Foram produzidos pelo menos 160 manuais em consonância com um projeto mais amplo da comunidade. Essas escolas eram comunitárias, pois haviam sido criadas e mantidas pelas comunidades teuto-brasileiras, além disso, na maior parte dos casos, eram também consideradas como escolas confessionais, porque estavam diretamente

vinculadas a uma confissão religiosa.


A preocupação com a educação, explica Kreutz (1994), fora uma herança trazida da Alemanha. O período inicial do processo de imigração alemã para o Rio Grande do Sul coincide com a implantação generalizada da escola elementar na Prússia e outras regiões alemãs, enfatizando-se a renovação de métodos, a formação de professores, a criação de escolas normais e a formação da ideia da escola como privilegiado mecanismo para a reconstrução nacional e espaço de construção da cidadania. Os imigrantes alemães provieram dessa efervescência de iniciativas e ideias em torno da escola elementar, assim, entende-se que esses, ao se instalar no Rio Grande do Sul, mantiveram a instrução elementar como indispensável, e se empenharam na construção de escolas, na manutenção de professores e na aquisição de material didático.


Como explica Dreher (2014), nas picadas e linhas das colônias alemãs, muitas vezes as crianças começavam os estudos apenas aos 9 anos de idade, e isso só era possível nas localidades que tinham o privilégio de contar em seu meio com algum professor que imigrara. Do mesmo modo, privilegiadas eram as famílias que contavam em seu meio com pessoas que alfabetizavam as crianças, ensinando-as a ler, escrever e calcular, mas a maioria dos colonos dependia de pessoas que jamais haviam exercido o magistério e que acabavam, por necessidade, assumindo o papel de professor. A frequência das crianças era altamente irregular, em decorrência dos longos trajetos e deslocamentos que precisavam enfrentar, frente aos dias de chuva e às épocas de colheita. Muitas vezes não havia prédios escolares para as aulas, assim, quem tivesse filhos em idade escolar oferecia espaços em suas residências por períodos de oito dias, além da alimentação para o professor. Quando as comunidades construíam suas capelas, também as utilizavam como escolas, uma vez que a educação e a religiosidade estavam fortemente relacionadas na vida das colônias alemãs. Apesar das condições descritas, o esforço pela educação impediu que se instalasse o analfabetismo nas comunidades teuto-brasileiras.


Fonte: IMIGRAÇÃO ALEMÃ E POLÍTICA de Carlos Eduardo Piassini, com o apoio da Assemble Legislativa do Rio Grande do Sul/Pesquisa de Bado Jacoby


 
 
 

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