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Narrando os 200 anos da Imigração alemã: 30º capítulo - Contribuições para o RS - 2ª parte

Atualizado: 1 de mai. de 2023

Para além do trabalho no campo, os imigrantes alemães exerceram uma gama variada de atividades econômicas: cuteleiros, ferreiros, fabricantes de pregos, ferradores, metalúrgicos, serralheiros, ferramenteiros, açougueiros, azeiteiros, moleiros, cervejeiros, padeiros, destiladores, adegueiros, fabricantes de licores, aguardenteiros, fabricantes de tabaco, fabricantes de cigarros, pescadores, tecelões, alfaiates, costureiros, chapeleiros, tintureiros, cordoeiros, comerciantes, taverneiros, estalajadeiros, hoteleiros, balconistas em comércios de especiarias, marceneiros, carpinteiros, tanoeiros, sapateiros, curtidores, seleiros, correeiros, estofadores, músicos, militares, policiais, professores, pastores, pedreiros, cantareiros, escultores, pintores, oleiros, ourives, lapidadores, relojoeiros, marinheiros, agentes de navegação, mecânicos, impressores, tipógrafos, médicos, farmacêuticos, dentistas, etc. (DREHER, 2014).


A pluralidade de profissões, em certa medida, é reflexo da vinda de muitos artesãos da Europa e, ao mesmo tempo do tipo de sociedade implantado no regime da pequena propriedade rural. É provável que o número relativamente alto de artesãos, ingressados no Brasil em decorrência da crise no artesanato da Europa continental após o fim do bloqueio continental imposto por Napoleão, pôde exercer suas atividades profissionais em razão da inexistência ou limitação destes conhecimentos nas áreas em que foram instalados. Ainda assim, é provável que a grande maioria teve que exercer, parcialmente, alguma atividade agrícola, quando não diretamente o próprio profissional, sua família deve o ter exercido.


O comércio foi uma das principais atividades exercidas pelos imigrantes alemães estabelecidos no Rio Grande do Sul no século XIX, e foi para muitos um meio de ascensão econômica e social. Entre as atividades relacionadas ao comércio, destaca-se a navegação fluvial. Segundo Jean Roche (1969), as primeiras levas de imigrantes foram conduzidas em barcas de Porto Alegre a São Leopoldo, ou seja, desde o início a navegação exerceu papel fundamental na vida dos núcleos coloniais. Em pouco tempo, surgiram imigrantes envolvidos com aquela atividade. Um dos primeiros comerciantes de São Leopoldo, I. Rasch, e J. F. Selbach, figuraram como os criadores de empresas de navegação no Rio dos Sinos e no Caí, com gabarras6 de sua própria fabricação. Em 1854, nove comerciantes da colônia de Mundo Novo já possuíam, somados, 16 gabarras. A maior parte deles havia se tornado comerciante após experiências como transportadores. No final da década de 1850 as gabarras deram lugar aos vapores. Entre os 11 vapores em serviço regular no Rio Grande do Sul em 1858, apenas 3 faziam as linhas Porto Alegre/Rio Grande, Rio Grande/Pelotas e Rio Grande/São José do Norte. Todos os outros trabalhavam no Rio Jacuí e seus afluentes, nas linhas Porto Alegre/São Leopoldo, Porto Alegre/Caí, Porto Alegre/Taquarí, Porto Alegre/Rio Pardo/Cachoeira (ROCHE, 1969).


Foi a navegação fluvial que permitiu o comércio externo às picadas, além do contato com a população externa e com as autoridades sediadas em Porto Alegre. As rotas praticadas permitiram o surgimento de comércio triangular entre as picadas e outras áreas produtoras do Rio Grande do Sul, e Porto Alegre foi o local de articulação desse comércio. Foram imigrantes alemães e seus descendentes que se dedicaram à navegação fluvial, portanto, ela representou a organização e foi a responsável pelo desenvolvimento da sociedade que se estabeleceu nos núcleos coloniais (DREHER, 2005). Na navegação fluvial, destacaram-se Becker, no Jacuí, os Irmãos Diehl e Blauth, no Rio dos Sinos, Keller, Jann, Schaan, etc., no Caí, e Jaeger, Ruschel e Arnt, no Taquari (MOURE, 1992).


Iniciada no Caí, a empresa A J Renner expandiu-se em Porto Alegre e tornou-se um grande conglomerado empresarial

O comércio, desde o início, foi fator indispensável à produção agrícola e artesanal, e seu principal protagonista foi o comerciante, que controlava a produção do agricultor, fixava os preços, e monopolizava o crédito nas picadas dos núcleos coloniais. Alguns chegaram a instituir um sistema de trocas por permuta em conta corrente, quando os transportes ainda eram deficitários. Este sistema baseava-se na exploração do agricultor pelo comerciante, que recebia os produtos e só creditava o valor correspondente após realizada a venda no mercado de Porto Alegre. Porém, como o crédito demorava a se concretizar, as vezes até um ano, para receber o valor, o agricultor ficava com sua capacidade de compra reduzida face aos aumentos constantes dos produtos que necessitava adquirir do mesmo comerciante. Esse ator social diferenciou-se do colono agricultor, mesmo às vezes tendo aplicado parte do lucro adquirido na compra de terras. O intercâmbio comercial gerou acúmulo de capital em suas mãos, proporcionando condições de investimentos em empreendimentos comerciais ainda maiores e em indústrias. Esse foi o passo inicial de comerciantes teutos de sucesso, como Trein, Ritter, Renner, Mentz, Bromberg, Dreher, Sperb, etc. (MOURE, 1992).


O comércio também teve influência no desenvolvimento dos meios de comunicação dos núcleos coloniais. Segundo Oberacker Jr. (1968), não houve estrada importante no império brasileiro em cuja construção não participassem técnicos teutos em postos de direção. Mas além disso, o comércio nos núcleos coloniais promoveu a ampliação dos caminhos e estradas de rodagem na província rio-grandense, assim como ampliou a navegação a vapor. De acordo com Eugênio Lagemann (1992), a economia do imigrante colonizador fundou sua organização produtiva na pequena propriedade rural de exploração familiar. Esse modelo apresentava um limite para a acumulação de capitais necessários a empreendimentos de maior vulto. Os lotes tinham tamanho estabelecido pela legislação e poucos eram os imigrantes capazes de ampliarem sua quantidade de terras em curto prazo. Coube, portanto, ao comércio superar a limitação da capacidade acumulativa restringida pelo modelo da pequena propriedade. A estrutura do comércio relacionado com as colônias ocorreu em

três níveis:

[...] as vendas, em contato direto com o colono e estabelecidas nas próprias picadas ou no cruzamento dessas, o centro da colônia; o comércio intermediário, nas colônias centrais, como o foram, por exemplo, São Leopoldo, Taquara, Estrela, Montenegro, Caí, Cachoeirinha, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Garibaldi, Encantado, etc., sendo que, na colônia alemã, esse comércio geralmente se localizava à beira dos grandes rios do Estado; e o grande comércio, em Porto Alegre, principalmente, e de alguma forma também em Pelotas e Rio Grande, em contato com as colônias centrais e o exterior, realizando o comércio de importação-exportação e mantendo os grandes atacados (LAGEMANN, 1992, p. 128).

Nessa estrutura, a menor unidade de acumulação foi a venda, que funcionou como um centro de informações e trocas, um local de passagem de mercadorias, e um espaço de aconselhamento quanto ao que e como produzir. Além do papel de intermediação econômica, também assumia uma função associativa, cultural e até política. Muitos vendeiros tinham a posse dos meios de transporte com os quais a produção era escoada para os centros maiores. Boa parte do preço cobrado por esse serviço, sob o rótulo de “custo de frete”, acabava nas mãos do vendeiro. Era mais vantajoso ao colono passar a um terceiro essa operação, do que perder dias na estrada, normalmente em más condições, para entregar sua produção (LAGEMANN,

1992).


O vendeiro controlava a informação quanto aos preços das mercadorias, podendo manipulá-los, em certos casos, a seu favor. Isso era possível pelo monopólio comercial que exercia, ao isolamento de muitas colônias em vista das condições de transporte, e pela passividade e confiança de sua clientela. Outro mecanismo importante de acumulação foi o uso das contas correntes, isto é, um caderno especial de anotações onde crédito e débito se alternavam. Era uma forma de manter os colonos ligados à sua casa comercial. Recebia, ainda, vez ou outra, depósitos de agricultores, e realizava empréstimos com juros. Assim, os vendeiros puderam acumular capitais que ultrapassavam os recursos de uma pequena propriedade. Muitos deles diversificaram a aplicação desse capital, e instalaram pequenas indústrias, como destilarias de banha, moinhos e cervejarias, evitando a dependência em relação ao fornecimento desses artigos (LAGEMANN, 1992).


Nas colônias centrais, a maior parte contando com depósitos e armazéns na margem dos rios, o comércio intermediário exercia, superando a atividade do vendeiro, a função de redistribuidor das mercadorias destinadas às vendas coloniais e providenciava o transporte fluvial das mercadorias agrícolas aos centros, geralmente em barcos próprios. Esse foi o caso de Frederico Haensel enquanto comerciante em Santa Cruz, tendo lucrado tanto pelas comissões de revenda como com o transporte (LAGEMANN, 1992). As casas alemãs de importação e exportação tiveram papel destacado no desenvolvimento da economia provincial. Em 1874, existiam em Porto Alegre e Rio Grande, cerca de 22 importantes firmas de teutos. Estas, passaram a adotar novos rumos e métodos no comércio. A firma Bromberg & Cia., por exemplo, influiu no desenvolvimento econômico da lavoura e da indústria ao importar máquinas e promover instalações técnicas (OBERACKER JR., 1968). Por conta de tudo isso, o comerciante pôde se apropriar do excedente econômico das picadas, linhas e travessas das colônias alemãs, administrando o monopólio das vendas e das compras. Essa situação permitiu o acúmulo de capital aos donos das vendas, o qual futuramente foi investido por muitos desses comerciantes na indústria.

Exemplos de comerciantes e industriais alemães: Em 1874, em Rio Grande, Carlos Guilherme Vater, imigrante alemão, e Rheinglantz, fundaram a “União Fabril”. Na década de 1880, Rheingantz fundou em Pelotas uma fábrica de chapéus, e desfez a sociedade com Vater. Ampliou o capital de 90 para 600 contos de réis e, dois anos após, possuía três fábricas em Rio Grande, uma de tecido de lã, outra de algodão e a última de aniagem. Em 1891 a metalúrgica Berta, com a entrada de Alberto Bins, ganhou caráter industrial. Neste mesmo ano, o Cel. Manoel Py, comerciante de tecidos, fundou a Cia. Fiação e Tecidos Porto Alegrense (MOURE, 1992). Renner, casou com a filha do comerciante Trein, tornou-se comerciante e caixeiro-viajante e iniciou, com seus cunhados, uma indústria de vestuário, transferida para Porto Alegre, onde se desenvolveu e deu origem ao grupo das Indústrias Renner. Adolfo Carlos Henrique Oderich veio ao Brasil em 1879, contratado por uma firma de fazendas de Porto Alegre, e iniciou suas atividades como caixeiroviajante, fundando mais tarde, em Caí, uma casa de importação de fazendas por atacado, negócio que durou 20 anos. Em 1908, fundou junto com seu filho e com a participação da casa comercial Edmund Dreher & Cia. e de parentes, também comerciantes, a firma Carlos H. Oderich. Os comerciantes Mentz e Trein dedicaram-se ao refino de banha. Em Cachoeira, estabeleceu-se como comerciante João Gerdau, e com o capital que acumulou se transferiu para Porto Alegre, onde adquiriu uma fábrica de pregos, hoje uma das maiores fabricantes de pregos da América Latina. Dessa foram, a apropriação ocorrida nos centros intermediários deu origem a empreendimentos maiores localizados ou no próprio local da apropriação ou junto ao maior mercado consumidor, Porto Alegre.

Além da vantajosa função de acumuladora de capital para muitos comerciantes, a venda também foi o local de contato da picada com o mundo exterior.


Fonte: IMIGRAÇÃO ALEMÃ E POLÍTICA de Carlos Eduardo Piassini, com o apoio da Assemble Legislativa do Rio Grande do Sul/Pesquisa de Bado Jacoby



 
 
 

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