Narrando os 200 anos da imigração alemã no Brasil: 46º capítulo - As Emancipações dos Distritos de São Leopoldo - 1ª Parte
- Bado Jacoby

- 16 de jun. de 2024
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A inicialmente denominada Colônia Imperial de São Leopoldo, administrada inicialmente por Diretores, como foi o caso de João Daniel Hillebrand, foi levada à categoria de Vila com a denominação de São Leopoldo, através da Lei Provincial nº 4, de 1º de abril de 1846, sendo dessa forma desmembrada de Porto Alegre.
Nos anos vindouros, de forma gradativa, foram sendo criados os distritos que seriam anexados a São Leopoldo, para dar uma administração eficaz às picadas da vasta colônia alemã. Pela Lei Provincial nº 358, de 17 de fevereiro de 1857, é criado o distrito de Dois Irmãos e anexado ao município de São Leopoldo.
Dez anos depois, pela Lei Provincial nº 635, de 04 de novembro de 1867, é criado o distrito de Bom Jardim (atualmente Ivoti) e anexado ao município de São Leopoldo. Passados mais alguns anos, a Lei Provincial nº 1.000, de 08 de maio de 1875, é responsável pela criação do distrito de Novo Hamburgo, anexado ao município de São Leopoldo.
Lomba Grande, uma localidade totalmente integrada a São Leopoldo, torna-se formalmente distrito por meio do ato municipal nº 39, de 22 de dezembro de 1904, e anexado ao município de São Leopoldo.
Nesse formato de divisão administrativa, conforme relatório da Intendência, no ano de 1911, o município é constituído por cinco distritos: São Leopoldo (sede), Bom Jardim, Dois Irmãos, Lomba Grande e Novo Hamburgo. Em quadros comparativos, analisando performance socioeconômica, Novo Hamburgo rivaliza com a sede do município na obtenção de bons índices.
Avançando mais um ano no tempo, pelo Ato Municipal nº 114, de 17 de julho de 1912, são criados os distritos de Sapiranga e Sapucaia. E no mesmo ano, através do ato Municipal nº 117, de 31 de outubro de 1912, é criado no extremo norte do município, o distrito de Boa Vista do Herval. Todas as três localidades mencionadas foram incorporadas ao município de São Leopoldo.
Nos quadros de apuração do recenseamento geral de setembro de 1920, o município é constituído de 8 distritos: São Leopoldo, Boa Vista do Herval, Bom Jardim, Dois Irmãos, Lomba Grande, Novo Hamburgo, Sapiranga e Sapucaia.
Nos anos seguintes, pelo Ato Municipal nº 107, de 09 de julho de 1924, é criado o distrito de Joaneta e anexado ao município de São Leopoldo. E através do ato Municipal nº 126, de 09 de agosto de 1926, é criado o distrito de Campo Bom e anexado ao município de São Leopoldo.
As tensões políticas locais não deixaram de oportunizar que Novo Hamburgo se tornasse um município emancipado em 1927, com a promessa de investimento dos impostos no próprio município, com a construção de um sonhado hospital e de escolas. Nos anos seguintes, através de iniciativa das irmãs de Santa Catarina, congregação religiosa que contava com o suporte do poder público, os anseios da população local referente à construção de um hospital se tornam realidade.
Sobre a emancipação de Novo Hamburgo, que era o 2º distrito de São Leopoldo, depois de três anos de um clima político efervescente percebido nos debates sobre o assunto, em 5 de abril de 1927, um telegrama assinado por Borges de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, foi enviado a José João Martins, presidente da comissão emancipacionista. No telegrama, Borges de Medeiros informava que, por meio do Decreto Estadual número 3.818, do mesmo dia 5 de abril de 1927, estava determinando a criação do município de Novo Hamburgo, desmembrando-o geográfica e administrativamente de São Leopoldo, entretanto situado inteiramente dentro do território de São Leopoldo, o que só mudaria em 1940, com a anexação de Lomba Grande pelo novo município. Mas as articulações para a emancipação começaram alguns anos antes.
O fato é que desde o final do século XIX, Novo Hamburgo vinha demonstrando grande capacidade na sua evolução econômica, baseada na formação de uma indústria coureiro-calçadista. Por conta desse boom econômico, a arrecadação de impostos em Novo Hamburgo por parte da municipalidade leopoldense, em algumas situações, superou a arrecadação da própria sede.
Certamente empresas como a de Nicolau Becker abriram as portas para outras iniciativas industriais, criando o embrião que iria desenvolver-se nos anos seguintes na localidade. Outro fator de impacto no desenvolvimento de Novo Hamburgo e Hamburger Berg (bairro de Novo Hamburgo), foi a ampliação da linha férrea, ligando Hamburger Berg a Porto Alegre. Com a chegada do trem, o então 2º distrito aos poucos se transformou num importante centro comercial, atraindo o comércio da zona colonial. No começo do século XIX, o sistema produtivo e o comércio de calçados evoluíram ainda mais. Os calçados produzidos adquiriram grande conceito até mesmo fora do Rio Grande do Sul, reconhecidamente premiados em várias exposições estaduais. Isto proporcionava contratos de fabricação e venda da produção, gerando maior fluxo de capitais e impostos na localidade.
As exposições e feiras industriais eram eventos bastante comuns no início do século XX, e a participação das empresas era considerada fundamental para firmarem imagens de instituições sólidas e afinadas com o progresso em nível popular. Empresas de São Leopoldo e Novo Hamburgo, como a Fábrica de Calçados Sul-Riograndense, de propriedade do industrial hamburguense Pedro Adams Filho, costumavam participar desses eventos, e os prêmios recebidos atestavam a qualidade dos seus produtos.
Inserida dentro dos festejos do Centenário da Imigração Alemã, a exposição de 1924 foi de fundamental importância para as pretensões do distrito de Novo Hamburgo, que já vinha tentando há vários anos, por vias políticas, tornar-se um município independente da sua sede, São Leopoldo.
Inclusive a inauguração do evento contou com a presença do presidente do Estado, Borges de Medeiros, e de sua esposa Dona Carlinda, além de várias outras autoridades, entre secretários de Estado, arcebispo, industrialistas e políticos locais. Borges de Medeiros não teve apenas a oportunidade de constatar a pujança econômica da localidade. Possivelmente tenha reforçado laços e criado afinidades com as pessoas do local, algo que teria um peso nas perspectivas futuras de conceder a emancipação ao distrito leopoldense de Novo Hamburgo. A importância estratégica desse evento também ficou evidente com o fato dos membros da comissão organizadora (moradores de Novo Hamburgo) serem os mesmos que estavam na comissão pró-emancipação da cidade.
Carlos Dienstbach foi secretário da “Comissão Organizadora e Directora da Exposição comemorativa do primeiro Centenário da Imigração Alemã no Rio Grande do Sul”. No exercício desse relevante papel, organizou um “livro-arquivo”, contendo reportagens, fotos do evento, recortes de jornais, cartas, cartazes, telegramas, convites, correspondências, além de outras informações a respeito da exposição industrial de 1924 e da emancipação de Novo Hamburgo. Escancarando publicamente que havia uma íntima ligação entre festejos do Centenário da Imigração Alemã no Rio Grande do Sul, exposição industrial e emancipação de Novo Hamburgo, Carlos Dientsbach guardou e encadernou recortes de diversos jornais do Estado, fossem eles em língua portuguesa ou alemã, que publicaram reportagens e artigos sobre esses assuntos.
Ao lado da foto abaixo, consta sobre o evento, através da legenda: “No dia do encerramento da exposição, dia 5 de outubro. No fim da festa. Tinha havido corso e batalha de flores e confetti. Já se tinha retirado a maioria do povo, quando o photographo pediu que alguns dos automóveis que tinham tomado parte, entrassem no recinto para tirar a photographia delles.
Fonte: Histórias de São Leopoldo: dos povos originários às emancipações, de Felipe Kuhn Braun e Sandro Blume/ Pesquisa Bado Jacoby
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