Navegar é preciso, sobretudo pelo Rio dos Sinos - Por Márcio Linck
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- 20 de mai.
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Desde a sua nascente no município de Caraá e na extensão dos seus 190 km até sua desembocadura no estuário do Guaíba, o único trecho/perímetro urbano em que o Rio dos Sinos percorre sua trajetória sinuosa é em São Leopoldo. O rio passa no centro da cidade e essa condição faz com que apenas São Leopoldo, entre os 32 municípios que compõe a Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos, tenha um rio pra chamar de seu. E não é para menos, pois foi na cidade com nome de santo que em 25 de julho de 1824 aportou a primeira leva de europeus de língua germânica e fez desta a cidade que leva o título de Berço da Colonização Alemã do Brasil. E o caminho percorrido por esses imigrantes seu deu através do rio que por outras nomenclaturas, Itapuy e Cururuai, também imprimiu a história dos indígenas que aqui habitavam essas paragens. Sem o rio e seus arroios também não haveria uma Feitoria do Linho e Cânhamo e a composição étnica de portugueses e africanos na história de São Leopoldo.
Ainda que a cidade tenha sido forjada às margens do Rio dos Sinos por contratempos, dissabores, interesses diversos e consolidados por uma condição natural e econômica, fato é que tudo isso determinou uma relação de amor e de temor por parte dos seus habitantes ao longo de sua história. A água que é essencial à vida também pode ser a água que se expande em busca do seu leito maior (ainda que ocupado indevidamente) causando estragos e tragédias. As cheias do Sinos não só impuseram e imprimiram suas marcas na história de São Leopoldo, como também os desafios e as tentativas para enfrentar e controlar suas águas. Desde os primeiros anos de existência, a antiga Colônia Alemã de São Leopoldo conviveu tragicamente com as cheias do Sinos e em 1831 o governador do RS, (naquela época intitulado Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul) registrou amarguradamente a condição dos imigrantes flagelados e instalados num péssimo lugar (centro de SL) próximo ao rio, e não onde ele havia recomendado, no Rincão do Eusébio, na “Kayserwald” Floresta Imperial (hoje Novo Hamburgo), parte alta da região.
Mas é preciso registrar que a travessia a pé de uma margem a outra do rio em tempos de águas rasas pelos bancos de areia que se formavam no entorno de onde hoje está a Praça do Imigrante, os armazéns do Inácio Rasch na margem esquerda (comerciante do Lote nº1que corresponde ao centro da cidade) e do Adão Hoefel na margem direita, a atuação dos vivandeiros (ambulantes) e a praticidade da navegação fluvial, contribuíram enormemente para a consolidação urbana junto ao Rio dos Sinos. E as cheias e os alagamentos ao longo desses 202 anos imputaram aos administradores demandas para mitigar, conformar e controlar a expansão de suas águas. E somente nos anos da década de 1960 é que projetos de controle das cheias foram desenvolvidos e resultaram na construção do sistema de proteção (diques, valas de drenagem e casa de bombas) a partir de 1975.
O Rio dos Sinos e toda sua bacia hidrográfica, riquíssima em biodiversidade, permitiu que figuras de destaque no campo da pesquisa científica como João Fialho Dutra (considerado o pai da Botânica no RS), Pe. Balduino Rambo, Pe. Aloísio Sehnem, Pe. Clemente José Steffen, Valter Foos, Athos Bemvenutti, entre outros, tivessem em São Leopoldo sua base de estudos por meio de Instituições de Ensino, e projetassem a cidade para todo o RS e para o Brasil.
O pioneirismo do movimento ecológico brasileiro também despontou a partir de São Leopoldo através do Rio dos Sinos e o cenário de infância vivido em suas margens pelo menino Henrique Luiz Roessler, que morava na rua da Praia 187. Sua mãe, Henrietta Luise Blauth, casada com João Felipe Roessler, era filha de Peter Blauth, cuja família foi uma das pioneiras da navegação fluvial e tinha o porto e o cais próximo à Ponte 25 de Julho, onde hoje está a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e o Museu do Rio. O Legado de Roessler também se deu pela criação da UPN – União Protetora da Natureza em 01 de janeiro de 1955, considerada uma das primeiras entidades ecológicas do Brasil. Dessas sementes surgiram outras entidades como a AGAPAN/UPAN – União Protetora do Ambiente Natural (1971), que devido a sua luta pela despoluição do Rio dos Sinos acabou incidindo na criação do COMDEMA – Conselho de Defesa do Meio Ambiente em 1979 (o segundo do RS); do COMITESINOS – Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos em 1988 (primeiro comitê de bacia hidrográfica do Brasil); da SEMMAM – Secretaria Municipal do Meio Ambiente em1989 (a segunda do RS) e da FEPAM – Fundação Estadual de Proteção Ambiental em 1990.
A luta do movimento ecológico a partir de São Leopoldo e seus desdobramentos na criação de estruturas públicas de defesa do meio ambiente diante de um rio castigado pela poluição industrial e cloacal, também incidiu na criação de um instituto voltado para a sensibilização e educação ambiental junto à população do Vale do Rio dos Sinos, sobretudo o público estudantil. Eis então que em dezembro 2002, por idealização do ex prefeito Henrique da Costa Prieto, é criado o Instituto MARTIM PESCADOR – Movimento de Preservação da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos. Esse barco escola cumpriu um papel fundamental não somente para a conscientização ambiental em relação ao Rio dos Sinos, mas também pelas parcerias, convênios e projetos com outros órgãos de governo e da sociedade civil.
Com a morte de seu fundador e por ser uma OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, o Martim Pescador teve problemas de dívidas trabalhistas que resultaram na penhora do barco sala de aula pela Justiça. Em 2024 o governo municipal decidiu retomar essa imprescindível ferramenta de educação ambiental e investiu na versão atualizada do barco escola, que é o PEIXE DOURADO. Tal como o barco anterior, que ficava a maior parte do ano ancorado após a ponte da Br116 e de lá partia em trajeto perfeitamente navegável (inclusive hoje) até a Base Ecológica do Rio Velho, é fundamental que se busque alternativas de fazer o atual barco navegar. Ainda que ele tenha um potencial turístico ambiental enorme que só São Leopoldo pode ter, é fundamental que ele também cumpra a função pedagógica de educação ambiental a qual originalmente e pertinentemente foi justificada a sua aquisição. Não importa se utilizado de forma híbrida ou não, fato é que São Leopoldo não deve abrir mão de toda a sua história ligada a esse rio que, além de tudo, é fonte de vida para milhares de pessoas que cotidianamente se abastecem de suas águas num simples girar de torneiras.
Márcio Linck, é Historiador
























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