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Nem Princesinhas. Nem Porcarias - Daniela Bitencourt Andara

Essa semana, tivemos paralisação dos Professores Municipais em São Leopoldo. Realidade que estamos vivenciando em outros municípios também. E o que ficou escancarado, foi um sentimento paradoxo que nós educadores carregamos há anos: a sociedade ainda não decidiu se nos vê como essenciais… ou descartáveis.


Enquanto na rua vi muitos apoiando, oferecendo reconhecimento e respeito, outros escolhiam o deboche invisível das redes sociais. Entre mensagens chamando professores de “guerreiras (os)”, apareceram também comentários desrespeitosos e cruéis, dizendo que somos “porcarias”, questionando “o que querem fazendo paralisação”, afirmando que “ganham bem para não fazerem nada”. Acredito que este cidadão não deva ter frequentado uma Escola e convivido com Professores. E talvez o mais doloroso seja perceber que esse pensamento não nasce do nada (ele é histórico!).


Existe uma visão antiga e silenciosa de desvalorização da profissão docente (há anos!). Durante muito tempo, criou-se a ideia de que professora era quase uma “princesinha”: alguém que trabalhava por passatempo, porque o marido sustentava a casa, porque ensinar seria uma extensão “natural” do cuidado feminino e não uma profissão séria, técnica e exaustiva.


Esse pensamento, infelizmente, ainda ecoa em muitos discursos ignorantes.


Mas quem vive realmente o dia a dia da escola sabe a verdade. Sabe que não existe romantização que o cotidiano por vezes é muito difícil, adoecimento emocional, excesso de demandas, falta de reconhecimento e salários que há anos perdem força diante da realidade.


Paralisação e greves do magistério também são históricas. E assim como em outras profissões não há paralisação ou greve por conforto. Por somente ideologia partidária (como vi em muitos comentários nas redes sociais). Professor para quando já foi muitas vezes ignorado por esta sociedade, quando seu salário corre o risco de ficar ainda mais reduzido pelas perdas inflacionárias.


O mais contraditório é que oscilamos entre dois extremos: num dia nos chamam de heróis; no outro, nos acusam de preguiça. Aplaudem professores em homenagens e discursos bonitos, mas se incomodam quando esses mesmos profissionais reivindicam melhores salários e melhores condições de trabalho.


Todos querem educadores fortes, motivados e pacientes, mas deslegitimam sua dor quando ela aparece em forma de união coletiva.


E talvez seja isso que mais choque em 2026: ainda precisarmos explicar que professor trabalha. Muito! Gasta, muito para qualificar-se! Trabalha dentro da escola e fora dela. Trabalha no planejamento, nas correções, no acolhimento, na escuta, nas preocupações levadas para casa. Trabalha até no silêncio.


Mesmo assim, (apesar dos ataques), a paralisação desta semana também mostrou outra coisa: mostrou que nossa classe apesar dos pesares é unida. Mostrou professores enfrentando julgamentos e o desgaste para defender não apenas salários, mas respeito. Porque lutar pela valorização da educação nunca deveria ser motivo de ataques ou vergonha. Vergonha é uma sociedade esquecer tão facilmente quem ensinou todos os seus caminhos.


Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo

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