O batom que chegou ao poder - Por Nana Vier
O que um batom tem a ver com uma urna? Muito mais do que parece. Em 1932, o Brasil reconheceu nacionalmente o direito das mulheres de votar e serem votadas. Parece pouco quando olhamos de 2026. Não era. Significava atravessar uma porta que durante muito tempo permaneceu fechada para metade da população.
Mas a história do batom viria algumas décadas depois. Em 1986, 26 mulheres foram eleitas deputadas para participar da Assembleia Nacional Constituinte. Eram apenas 26 em meio a centenas de homens. Ficaram conhecidas como a Bancada do Batom, numa articulação feminina que atravessaria a história política brasileira. E existe um detalhe que, para nós, gaúchas, chama especialmente a atenção: nenhuma das 26 era do Rio Grande do Sul. Na verdade, toda a Região Sul, que elegeu 77 representantes para a Constituinte, não elegeu uma única mulher.
Elas eram poucas. Mas fizeram barulho. O apelido, inicialmente carregado do olhar de uma sociedade ainda pouco acostumada a encontrar mulheres nos espaços de poder, acabou sendo apropriado por elas. O batom deixou de ser apenas símbolo de feminilidade e passou a acompanhar mulheres que discutiam direitos, apresentavam propostas e participavam da construção da nova Constituição. Gosto dessa história porque aquelas mulheres não precisaram deixar de ser mulheres para ocupar o espaço público.
O batom não escondia inteligência. Não diminuía competência. Não retirava autoridade. Era apenas batom. O que realmente transformava aquele ambiente era a voz que existia atrás dele. Quase quarenta anos depois, chegamos a mais um domingo de eleição.
E há algo especialmente simbólico nisso para quem vive em São Leopoldo e no Vale do Sinos. Entre as candidaturas registradas para representar o Rio Grande do Sul na Câmara dos Deputados está a de Simone Dutra, mulher nascida em São Leopoldo e candidata a deputada federal nas eleições de 2026 e com reais possibilidades de ser eleita. A escolha pertence a cada eleitor. E talvez essa seja justamente a maior dimensão da conquista iniciada por tantas mulheres antes de nós: podermos escolher e também podermos ser escolhidas.
Mulheres não precisam pensar igual. Não precisam votar igual. Não precisam pertencer ao mesmo partido ou defender as mesmas ideias. Seria contraditório lutar tanto pela liberdade feminina para depois esperar que todas nós fizéssemos as mesmas escolhas. Liberdade é poder pensar por conta própria.
Neste domingo, quando milhões de mulheres entrarem na cabine de votação, aquele gesto aparentemente simples carregará uma história que começou muito antes delas. Alguém precisou reivindicar o direito de estar ali. Por isso gosto tanto da história da Bancada do Batom.
O batom nunca foi o protagonista. A boca que estava atrás dele, sim. E depois que as mulheres conquistaram o direito de falar, votar, escolher e também ocupar os lugares onde as decisões são tomadas, não havia mais como mandá-las de volta ao silêncio.

Nana Vier, é professora e escritora

























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