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O carteiro chegou - Por Magali Schmitt

Ah, as pequenas felicidades cotidianas: o carteiro sabe meu nome. É claro que os carteiros sabem os nomes da maioria das pessoas — eles têm essa memória admirável dos jovens.

Mas não importa. Gosto de pensar que sou singular.

Estava saindo de casa quando vi o carro dos Correios parado em frente à casa do vizinho. Parei o meu, emparelhei com o furgão amarelo, baixei o vidro e perguntei se tinha entrega para o cento e quatro. Para a Magali? — perguntou. — Hoje não tem nada.

No mesmo instante fui catapultada para um lugar maravilhoso.

Os Correios exercem um fascínio sobre mim desde sempre. Me remetem a um sentimento bom de vida transcorrendo sem sobressaltos: trocas, memórias, cada coisa no seu devido lugar. Essa lembrança tem um tom dourado, um pouco desbotado e morno, como uma tarde feliz da infância.


Me julguem.

Sim, o carteiro saber meu nome me faz bem — mesmo que ele saiba o nome do bairro inteiro, por ofício. Acho que sou um pouco carteiro, por opção. Gosto de saber o nome das pessoas, dos vizinhos, dos filhos, do guarda da rua, de quem cruza meus dias.

Porque, no fim de tudo, as relações ressignificam esse emaranhado de conexões chamado vida moderna.

O carteiro me faz lembrar de um tempo em que eu também sabia nomes, números de telefone, placas de carro, datas de aniversários. Amigos e familiares ligavam pedindo esses contatos, e eu me irritava. Preferiam a comodidade de me chamar a rabiscar o número num papel, numa agenda qualquer.

Hoje sinto falta — é claro.


Como a mãe que reclama da bagunça, mas depois que os filhos se vão, se ressente do silêncio. A gente já não sabe — nem precisa saber — o número de ninguém. Aliás, a gente nem liga mais para ninguém. E eu nem tenho aquela capacidade de armazenamento: hoje meu cérebro dispensa dados desnecessários a curto prazo e elimina, aleatoriamente, outros tantos importantes, numa acrobacia eterna para acomodar tudo o que carrega — e não é pouco, garanto.


Pode ser nostalgia, admito.O carteiro parece guardar algo que um dia foi meu e que me custa ter perdido: a leveza dos dias.

Essa experiência me fez lembrar O carteiro chegou — livro infantil em que cartas atravessam histórias, levam notícias, criam pontes. Pode ser o detalhe dramático que ainda me comove: a ideia de que alguém atravessa a cidade, o estado ou o país para entregar um pedaço de mundo a outra pessoa. Sem pressa. Sem algoritmo. Só presença.


No fundo, acho que não sinto falta das cartas, nem dos números decorados. Talvez eu sinta falta desse tempo em que as coisas chegavam a algum lugar concreto.

E você, sentem falta de quê?













Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

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