O clima de “já ganhou” e a aposta em Pablo Marçal cobraram a conta de Flávio Bolsonaro - Por Bado Jacoby

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para seu quarto mandato como presidente da República deixa lições importantes para a política brasileira. A principal delas é uma virada histórica. Pela primeira vez desde a redemocratização, um candidato que terminou o primeiro turno atrás do adversário conseguiu reverter o resultado e vencer a disputa presidencial no segundo turno.
A vitória de Lula não aconteceu por acaso. Foi resultado de uma combinação de fatores, a começar pela renovação de setores da esquerda e pela mudança de comando na estratégia eleitoral. Novas lideranças do PT e de partidos aliados ganharam protagonismo, enquanto governadores nordestinos assumiram papel importante na mobilização. A juventude eleita nas disputas proporcionais do primeiro turno também passou a ocupar espaço decisivo, renovando a linguagem e a presença da campanha.
Outro elemento fundamental foi a capacidade de mobilização nas redes sociais. Durante anos, a direita dominou boa parte desse território, enquanto a esquerda parecia atrasada, presa a métodos de comunicação que já não dialogavam com parcelas importantes do eleitorado. A entrada de novas figuras e estratégias ajudou a romper essa barreira, mobilizando eleitores que não haviam comparecido às urnas no primeiro turno e recuperando parte da capacidade de comunicação do campo progressista.
Mas, se a vitória de Lula pode ser explicada pela mobilização de seus apoiadores, a derrota de Flávio Bolsonaro também precisa ser analisada pelos erros de sua própria campanha. E um deles se destaca de maneira incontestável, a decisão de entregar protagonismo a Pablo Marçal.
Uma figura controversa, conhecida por métodos de autoajuda questionáveis e por um estilo agressivo de atuação, Marçal acabou representando um risco político para a candidatura bolsonarista. A truculência, os confrontos e a postura adotada nos debates podem ter assustado justamente o eleitor que decide eleições, aquele que não se identifica necessariamente com a esquerda nem com a direita e que escolhe seu voto a partir do comportamento dos candidatos e das circunstâncias da campanha.
Flávio Bolsonaro tinha condições de disputar o segundo turno com uma estratégia centrada em propostas, articulação política e diálogo com o eleitorado moderado. Em vez disso, a campanha abriu espaço para um personagem que pouco acrescentava à credibilidade eleitoral e carregava um estilo capaz de afastar votos. A política exige mobilização, mas também exige medida, responsabilidade e leitura do sentimento popular.
A direita brasileira dispõe de lideranças experientes, com trajetória partidária e conhecimento das engrenagens eleitorais. Ainda assim, parte desse capital político foi deixada em segundo plano para dar visibilidade a um aventureiro. Foi uma aposta imprudente, que pode ter custado caro.
O eleitor brasileiro não é propriedade de nenhum campo ideológico. Há uma parcela identificada com a esquerda, outra com a direita e um contingente expressivo que muda de posição conforme os acontecimentos. É justamente esse eleitorado que costuma decidir disputas apertadas. Quando uma campanha transmite radicalismo excessivo, agressividade e desrespeito, corre o risco de perder a confiança de quem procura estabilidade e equilíbrio.
A derrota de Flávio Bolsonaro, portanto, não pode ser atribuída apenas à força da mobilização petista. Ela também revela os limites de uma estratégia que confundiu barulho com força eleitoral e exposição nas redes sociais com credibilidade política.
Lula venceu porque sua campanha conseguiu se reorganizar, ampliar a mobilização e falar com eleitores que ainda estavam distantes. Flávio perdeu porque, além de enfrentar um adversário que reagiu, cometeu erros que poderiam ter sido evitados. E a escolha de Pablo Marçal como protagonista simboliza o maior deles.
A eleição deixa uma lição que vai além da disputa entre PT e bolsonarismo. Em uma democracia, não basta dominar as redes, mobilizar militantes ou produzir confrontos. É preciso compreender a sociedade, respeitar a inteligência do eleitor e saber distinguir quem gera engajamento de quem realmente agrega votos.
Bado Jacoby é titular da coluna Radar da Política

























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