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O dia em que a porta abre - Por Magali Schmitt

A gente nunca sabe qual vai ser a última fotografia, aquela que vai informar ao mundo da nossa partida ou que aquela roupa comprada ao acaso será a escolha de alguém para nos vestir na despedida. Exceto seja alguém muito preocupado com o depois, quase ninguém pensa nisso. E seguimos vivendo como se a morte não fosse a única certeza do roteiro. Um mecanismo de defesa, é claro, de sobrevivência sem enlouquecer. Como seria possível seguir dia a dia perseguindo o fim?


Para mim, essa é a maior habilidade humana: esquecer temporariamente da própria finitude. É preciso distração para continuar existindo. Acordar todas as manhãs conscientes de que tudo acaba nos impediria de sair da cama. Então o cérebro nos protege. Empurra a morte para um canto silencioso da mente, como quem fecha uma porta para não ouvir o barulho da tempestade lá fora.


Mas às vezes essa porta abre. Uma doença, um acidente, a perda de alguém, uma notícia inesperada. A morte deixa de ser um conceito abstrato e passa a circular pela casa, sentar à mesa, espreitar nos cantos, dormir conosco. Quando isso acontece, alguma coisa se rompe e perdemos a blindagem que nos permite viver no automático. E é difícil voltar a ser quem éramos antes de perceber que tudo é absurdamente frágil.


Depois desse susto, entendemos que a vida não acontece nos grandes marcos planejados para quando der. Ela mora nas terças-feiras comuns, no cheiro de café passando, na mensagem respondida com pressa, no abraço recusado porque havia algo mais urgente a fazer. A morte, paradoxalmente, é quem nos ensina a olhar melhor para a vida.


Viver adiando pode ser o maior desperdício que cometemos. Guardar a louça bonita, a viagem, o pedido de desculpas, o descanso, o amor, a coragem, como se existisse um momento ideal, um documento lavrado em cartório, que garante os acontecimentos. A aposentadoria virou promessa de felicidade para uma geração que mal sabe se chegará inteira até lá. Não se trata de viver desesperadamente, como se cada dia fosse o último. Mas de compreender que um dia será. E que talvez honrar a vida seja justamente isso: parar de tratá-la como rascunho.











Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

 
 
 

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