O espírito do tempo - Por Magali Schmitt
- Andressa Brunner Michels - Jornalista - MTB 19281/RS

- há 10 horas
- 2 min de leitura
Se tivesse que mudar de profissão hoje, acho que gostaria de ser coolhunter. Aliás, como cronista já sou um tanto caçadora. Gosto de observar comportamentos, captar sinais fracos, perceber o que está mudando antes mesmo que vire moda, juntar tudo e embalar em palavras.
Sou daquelas pessoas que reparam nas vitrines, nas conversas da mesa ao lado, nas expressões novas que surgem nas redes, nas roupas que voltam com outro nome. Gosto de observar gente. E gosto de observar o tempo.
Assim como o coolhunter, os autores capturam o zeitgeist — o espírito de uma época. Aquela atmosfera invisível que atravessa a música, a literatura, o cinema, a arquitetura, as falas e expressões e até as preocupações de uma geração.
Talvez, por isso, revisitar o rock nacional dos anos 1980 seja um ato tão caro para mim. As músicas daquela década são crônicas cantadas de um país que amanhecia e experimentava a liberdade com certa vertigem. Legião Urbana, Titãs, RPM, Paralamas, Engenheiros do Hawaii e muitas outras bandas traduziam o misto de esperança, rebeldia e inconformismo que nos acompanhava. Um diagnóstico social em solo de guitarra.
Hoje, a reclamação de que a música ficou rasa é recorrente. Pode ser que exista algum exagero nessa avaliação — toda época tem suas obras brilhantes e seus produtos passageiros, de massa. Mas também existe um detalhe que costuma passar despercebido: a arte raramente é um fenômeno isolado. A arte é e sempre foi um espelho.
A música mudou? Ela está acompanhando o movimento do mundo. As letras atuais traduzem o que estamos vivendo: a velocidade, a ansiedade, a fragmentação, o consumo rápido e a brevidade — inclusive das emoções. Elas descrevem, com sinceridade, a época que nós mesmos ajudamos a construir.
Estamos nos ressentindo da falta de profundidade nas letras. Mas o zeitgeist não nasce nos estúdios de gravação. Ele nasce nas ruas, nas telas, no quarto de casa, nas escolhas coletivas que fazemos sem perceber.
Voltando o foco para os anos 2020, entendo que cada época compõe a trilha sonora que mais se encaixa ao seu momento. Aqui, de onde assisto, não me parece que a música se tornou sem sentido por conta própria. Talvez as causas tenham deixado de nos afetar. Ou quem sabe, ao invés de jogarmos a conta para o universo, possamos fazer o mea culpa e refletir se ensinamos as novas gerações a lutar?

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.
























Comentários