O peso de um amassadinho - Por Nana Vier
Tenho um casal de amigos que amo. Daqueles que entram em nossa vida e logo fazem parte da rotina e das histórias que contamos. Todos os dias pego carona com eles para o trabalho. No trajeto, falamos sobre a vida, a família, o trânsito e, naturalmente, sobre os outros motoristas, que sempre dirigem pior do que nós.
Certo dia, ela brincou que, se o marido continuasse dirigindo daquele jeito, se juntaria aos filhos para interditá-lo. Todos rimos. Era uma dessas brincadeiras de quem já acumula muitos anos de convivência e provas contra o outro.
No dia seguinte, depois que ela desceu do carro, ele confessou:
— Bati o carro.
Na verdade, bateram nele. Um caminhão abusado deixou um amassadinho na lateral. Nada grave. O problema veio na frase seguinte:
— Não falei nada para ela.
Naquele instante, o amassado saiu da lataria e foi direto para o meu sistema nervoso. Saber algo que não posso contar me dá frio na barriga. Fofoca a gente escuta, arquiva numa gaveta moral duvidosa e segue a vida. Mas aquela informação podia explodir no meio do café da manhã.
Passei a entrar no carro sempre com a mesma pergunta:
— Tu já contou para ela?
— Hoje não.
— E quando vai contar?
— Vou achar o momento certo.
Enquanto ele esperava, eu carregava um segredo que nem era meu. Sentia que o amassado estava sentado entre nós, enorme, de cinto de segurança e olhando para mim.
Até que ele me contou seu plano. Como ela havia ficado com o carro naquele dia, perguntou onde tinha estacionado, porque o veículo estava batido. A mentirinha inocente ganhou um roteiro: ele virou investigador, e ela, a principal suspeita.
Avisei que minha participação estava chegando ao limite. Ele teria um prazo para contar ou eu pediria asilo emocional em outro veículo.
Mas o melhor ainda estava por vir. Em outra carona, ela comentou que haviam batido no carro no dia em que saíra com ele. Sentada atrás do meu amigo, dei-lhe uma joelhada carregada de sinceridade. A costela sobreviveu. A tranquilidade dele, nem tanto. Era hora de encerrar aquela mentirinha.
No fim, os dois riram muito e me ligaram para comunicar que eu estava liberta. Livre da batida que não dei, da história que não inventei e da culpa que nunca foi minha.
Tudo terminou bem porque existe amor e intimidade para transformar um pequeno desastre automobilístico em piada familiar. E ficou a constatação de que até uma mentirinha inocente pesa quando alguém precisa carregá-la no banco de trás.
Continuo pegando carona com eles. Continuamos rindo, conversando e comentando o trânsito. Mas estabeleci uma regra: podem me contar sobre a vida, o trabalho, os filhos, os planos e até as fofocas. Batida de carro escondida, nunca mais.
Minha amizade é leal. Meu coração é forte. Meu sistema nervoso, porém, não aceita mais segredos sobre lataria.

Nana Vier, é professora e escritora

























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