O preço de não se incomodar - Por Nana Vier
Outro dia acompanhei meu esposo a uma consulta com o cardiologista. Era um retorno e, ao chegarmos, a recepcionista explicou que seria necessário cobrar uma nova consulta, já que a anterior havia acontecido em fevereiro e agora já estávamos em julho. O prazo para retorno havia expirado. Achei a explicação perfeitamente razoável. As regras existem para organizar os atendimentos e precisam valer para todos.
Havia apenas um detalhe importante. Entre fevereiro e julho, nós já havíamos marcado essa consulta diversas vezes, mas em todas elas a própria clínica entrou em contato para informar que o médico não poderia atender e que seria necessário reagendar. E isso nunca me pareceu um problema. Médicos trabalham com vidas e um cardiologista certamente convive com urgências que surgem sem aviso.
Enquanto acompanhava a conversa, decidi que não iria interferir. A atendente era educada, meu marido conversava tranquilamente e tudo transcorria com respeito. Mas bastou vê-lo pegar o celular para fazer o pagamento. Levantei, mostrei as mensagens com os reagendamentos e expliquei que o atraso não havia sido por nossa escolha. A recepcionista conferiu as datas, entrou em uma sala e voltou poucos minutos depois informando que a consulta continuaria sendo considerada um retorno, sem qualquer cobrança.
Enquanto aguardávamos o médico, perguntei ao meu esposo por que ele simplesmente aceitaria pagar. A resposta veio imediata:
"Não tenho paciência. Prefiro pagar para não me incomodar."
A frase ficou ecoando na minha cabeça. Talvez exista muita gente vivendo exatamente assim. Pessoas que aceitam cobranças indevidas, serviços mal prestados ou pequenos prejuízos porque acreditam que tentar resolver será mais desgastante do que simplesmente pagar. É como se existisse uma tarifa invisível pela tranquilidade.
Mas o extremo oposto também existe. Há quem transforme qualquer contratempo em uma batalha. Antes mesmo de tentar conversar, já eleva a voz, ameaça processos ou expõe pessoas nas redes sociais. Esquece que firmeza e educação podem caminhar juntas. É perfeitamente possível defender um direito sem desrespeitar quem está do outro lado do balcão.
Talvez a maturidade esteja justamente nesse equilíbrio. Nem aceitar tudo para evitar desconfortos, nem transformar qualquer desconforto em guerra. Comunicar um equívoco é oferecer ao outro a oportunidade de corrigi-lo. Foi exatamente o que aconteceu naquela recepção. Não houve discussão nem constrangimento. Houve apenas uma conversa respeitosa e uma solução igualmente respeitosa.
Saí daquela clínica pensando que o verdadeiro preço de não se incomodar nem sempre aparece na fatura do cartão. Às vezes ele se acumula toda vez que deixamos de dizer o que precisa ser dito. Da mesma forma, também pagamos um preço quando transformamos pequenos desencontros em grandes conflitos.
Acredito que viver bem é aprender que quase tudo começa por uma boa conversa. E que saber a hora de falar, a hora de ouvir e a hora de seguir em frente é uma das formas mais elegantes de inteligência.

Nana Vier, é professora e escritora.

























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