O preço do compromisso - Por Magali Schmitt
- Andressa Brunner Michels - Jornalista - MTB 19281/RS

- há 2 horas
- 2 min de leitura
Outro dia me dei conta de um detalhe que ficou reverberando mais do que deveria: sou capaz de cumprir acordos com os outros, mas nem sempre comigo. Em 2024, participei de um clube do livro. Era pago, com encontros previamente agendados, prazos. Ou seja, tinha alguém do lado de lá esperando por mim. Se eu não fizesse a minha parte, quebraria um fluxo, uma expectativa.
Resultado: naquele ano li 11 livros. Entre estes, dois ou três por fora, que nem estavam na proposta. Leituras avulsas que apareceram e, no fluxo favorecido pelo boleto, pela fatura do cartão espetando minhas costelas todo dia 5, entraram para a conta e ajudaram a melhorar o que já estava bom. Significa que, se não tivesse o componente financeiro, muito provavelmente eu não teria esse desempenho.
Falo com propriedade e a partir da análise dos números de 2025, quando não li mais do que quatro livros. Sem o clube, a responsabilidade e o prejuízo, foi-se a dedicação. Em 2026, já estamos chegando ao final de abril e ainda estou remando na primeira história.
No entanto, preciso ter um pouco de compaixão comigo. Tenho trabalhado muito e produzido mais ainda. Quando chega à noite, sem o empurrãozinho monetário, não tenho determinação, embora a leitura seja, para mim, um combustível valioso. Talvez por esse motivo esteja aqui fazendo esta reflexão.
Sem a cobrança externa, sem dever para alguém, parece que não funciona. Então, fico pensando quantas vezes a gente se deixa para depois sem perceber, quantas pequenas desistências silenciosas cabem dentro de um dia comum. E por que só damos valor a algo quando dói no bolso, quando a lógica inversa é muito mais inteligente? Com desconforto concluo: no final, não é o dinheiro que garante a nossa presença — é a ideia de que estamos perdendo — e estamos mesmo.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.
























Comentários