top of page

O preço invisível de uma criança quietinha - Por Nana Vier

Certo dia, presenciei uma cena que ficou ecoando em mim. Uma criança de aproximadamente dois anos, sentada no colo da mãe, comendo sem realmente estar ali. Os dedinhos pequenos deslizavam pela tela de um celular com habilidade. Todos achavam encantador. “Olha como ela sabe mexer.” Sabia mesmo. Rolava, tocava, escolhia. A mãe levava a colher até a boca, e ela abria automaticamente. Comia sem olhar, sem cheirar, sem experimentar.


Pensei em falar alguma coisa, mas me calei. Não é justo constranger uma mãe diante dos outros. A intenção dela era simples: fazer a filha comer. Só que aquela criança não estava concentrada na comida. Estava hipnotizada. O alimento entrava, mas a experiência não acontecia.


E, antes que alguém se apresse em erguer o dedo, é preciso dizer com clareza: este texto não é sobre julgamento. É sobre constatação. Não se trata de culpar pais e mães. Nós sabemos o quanto estão cansados. Sabemos das jornadas duplas, do trabalho que não termina, da casa que exige, das preocupações que não dão trégua. Às vezes, entregar o celular é a única forma de conseguir alguns minutos de silêncio para respirar ou concluir uma tarefa.


Nossas mães e avós também ficavam exaustas. Também lidavam com múltiplas responsabilidades, com poucos recursos e muita cobrança. A diferença é que não havia uma tela disponível para ocupar cada intervalo. As crianças corriam pelo pátio, inventavam brincadeiras, brigavam e faziam as pazes. “Ah, mas hoje é diferente”, você pode dizer. E é mesmo. Muitas famílias vivem em apartamentos; há menos espaços livres, mais medo, menos tempo.


Os tempos mudaram, mas o cérebro da criança continua o mesmo.


A ciência já vem alertando há anos. A primeira infância é um período de explosão sináptica. O cérebro precisa de interação real, troca de olhares, escuta, textura, cheiro, pausa. Estudos da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Academia Americana de Pediatria mostram que o uso excessivo de telas antes dos cinco anos está associado a atrasos na linguagem, dificuldades de atenção, menor capacidade de autorregulação emocional e prejuízos no sono. A luz azul inibe a produção de melatonina. A criança demora mais para adormecer, dorme pior, acorda agitada. Depois, os adultos se perguntam por quê.


Há também a dimensão motora. O movimento de pinça, tão importante para a escrita, desenvolve-se manipulando objetos reais: encaixes, massinha, lápis, areia, folhas, barro. Rolar o dedo em uma superfície lisa não substitui a resistência do papel nem a força necessária para segurar um lápis. Professores relatam aumento de dificuldades na coordenação fina e até na postura ao escrever. Não é nostalgia. É desenvolvimento neurológico.


Em restaurantes, a cena se repete. Famílias inteiras de cabeça baixa, cada um na sua tela. O bebê com tablet, a irmã com celular, os pais respondendo mensagens. Ninguém se olha. Ninguém conversa. A refeição vira abastecimento, não encontro. E a infância vai sendo mediada por um vidro luminoso.


Não se trata de demonizar a tecnologia. Ela faz parte da nossa vida e pode, sim, ser ferramenta. O ponto é outro: que forma de perceber o mundo estamos entregando às nossas crianças? Um mundo filtrado por estímulos rápidos, cores intensas, recompensas instantâneas? Ou um mundo que também inclui espera, frustração, silêncio, conversa, cheiro de comida, textura de terra, som de risada?


Talvez a pergunta não seja se a criança sabe deslizar o dedo na tela. Talvez seja outra: ela sabe esperar? Sabe olhar nos olhos? Sabe reconhecer o próprio corpo, o próprio ritmo?


Pensar sobre isso não é atacar ninguém. É cuidar do futuro. A infância precisa de presença. E presença, até hoje, não cabe dentro de uma tela.


Nana Vier, é professora e escritora

 

Comentários


2 COTA ÚNICA - START 1230x1020 IPTU2026
JORNAL START 1230x1020px
IMG_4264
Manuela Start - 1
BannerSite_1230-x-1020
Técnico em Desenvolvimento de sistemas (1)
START-BANNER-1
WhatsApp Image 2025-04-10 at 18.55.37.jpeg
bottom of page